(20) A IGREJA ROMANA E O CRISTIANISMO
(Baseado em ‘O Papa e o Concílio) (Jan 2008)
Este texto nos leva a pensar se a doutrina e ensinamentos das igrejas cristãs, em particular da católica romana, estão de acordo com a verdade, ou se fomos ‘enganados’, por todo o tempo, a partir de depois do primitivo cristianismo. Da obra, o primeiro volume é uma Introdução de Rui Barbosa, considerado um dos mais fieis historiadores, e revela a desfiguração causada à igreja cristã pelos Papas de Roma que se diziam sucessores de Deus, e abraçaram o poder temporal, iludidos pela pompa do Império Romano, esquecidos do espiritual que os evangelhos contêm. As fontes citadas são irrefutáveis, muitas da própria igreja: decretos, anais, tratados, acordos, bulas papais, cartas de bispos, padres, reis, imperadores, obras de historiadores de imparcialidade irrepreensível, atas de concílios, pastorais, sermões etc. Leva-nos a compreender que o que Jesus ensinou é idêntico àquilo que, há séculos, se ensina nas tradições místicas orientais. Se a igreja não houvesse cometido tantos erros, as religiões cristãs estariam levando o homem ocidental para o encontro com Deus; mas não é o que acontece e, por isso, um sábio persa afirmou que ‘a cultura ocidental é prostituta’. Infelizmente, as doutrinas espirita e protestante adotaram as mesmas escrituras, com certas modificações, é certo, mas com muitas das alterações introduzidas pela igreja romana.
O segundo volume, escrito por Janus, às vésperas do concílio do Vaticano, tinha, por objetivo, levar os participantes do sínodo a refletirem sobre os erros da igreja, tão absurdos que exigiam reforma completa de sua legislação e doutrina.
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RESUMO DO 1° VOLUME
1. Expansão do papado à custa do poder temporal.
Com documentos que não deixam dúvidas, a história conta que Roma sempre teve por lei escravizar os fiéis ao clero, e o poder temporal à igreja. A história da influência dos papas no mundo, desde muitos séculos, é a do nascimento de um novo paganismo, desumano e repleto de superstições, formado à custa da tradição dos Evangelhos, falsificada pela igreja romana.
A presença da igreja em todo o ocidente, inclusive no Brasil, com o clero e sua ação subterrânea, facilitou esse objetivo, pela indiferença das classes cultas, e pela ignorância e superstição das incultas. Esta afirmação só não será correta se se provar que a igreja conservou puros seu caráter e sua doutrina. A realidade, porém, é outra, porque a igreja romana, em todos os tempos, foi uma potência religiosa apenas no nome, pois foi sempre fundamentalmente política. Sua religião e sua autoridade moral são, desde muito tempo, pretexto para exercer influência na administração temporal dos Estados, fato que poderá ser demonstrado num rápido exame histórico.
Nunca, por mais que se pesquisasse, a crítica histórica encontrou na igreja as leis e os elementos que hoje são sua base. Primitivamente, a unidade vinha do acordo de todos; a cristandade era pura democracia espiritual, sem centro oficial, sem meios de coação externa, sem qualquer relação temporal com o Estado. A idéia de um pontífice máximo era total absurdo. (São Firmiliano: ‘Indigna-me a absurda presunção do bispo de Roma, de que seu bispado é herança do apóstolo Pedro’). As boas obras eram o sinal da fé, e esta não implicava em fórmulas oficiais, mas na comunhão em espírito e verdade entre o crente e Deus (sem intermediários, portanto). Os conflitos doutrinários eram solucionados em comum, o que evitava os cismas. A ausência de rituais teatrais e de dogmas, a pureza do ensino, a proibição de imagens, o martírio dos defensores da fé, a submissão a todos os governos humanos e a suas leis, a aspiração a uma vida além deste mundo, eram a mais vigorosa antítese, entre os cristãos primitivos, ligados entre si somente por laços morais, e o catolicismo de hoje fundado na ampliação arbitrária dos artigos da fé, nas pompas de um culto faustoso, na exploração da superstição dos povos, na intolerância, não só nas coisas da doutrina, mas nas coisas temporais, na insubordinação ao poder civil, na tendência de estabelecer neste mundo um reino seu.
Antes, padres, bispos e diáconos eram eleitos pelos leigos que também participavam do julgamento das questões relativas à fé. A igreja era o povo, não submetido aos padres, mas a eles livremente unido. Com o imperador romano Constantino, começou o imperialismo religioso, que vem até nossos dias, e que tem sua expressão máxima na ‘infalibilidade papal’. A soberba grandeza da Roma Imperial inspirou, à nascente hierarquia católica, a tendência da imitação, seduzida pela veloz propagação da nova doutrina, que trocou a democracia dos primeiros tempos pelo governo despótico do papa que, por autoridade própria, se constituiu em representante exclusivo do Cristo. (Arnauld, historiador: ‘Começava a heresia da dominação, a maior das heresias contra a cruz, porque transformava em discórdia as palavras de amor daquele que, para trazer a paz, foi crucificado por nos prometer um mundo melhor’).
Toda religião, que se associa aos governos da terra, é religião morta, pois o resultado é sempre a submissão da doutrina ao interesse político. É serva da ambição, ou para não perder o poder temporal, ou para não perder as vantagens materiais recebidas. Com Constantino teve inicio o sacrifício do cristianismo ao engrandecimento da hierarquia. Esse imperador, mesmo não sendo batizado, recebe título de bispo; julga e depõe bispos; convoca e preside concílios; decreta dogmas. Esta não é mais a igreja dos primeiros cristãos. Estes recusariam as monstruosas concessões feitas ao absolutismo dos imperadores, as homenagens ao déspota, marcado pelo assassinato da mulher, filho, dois sobrinhos e cunhado, e que, enquanto era reverenciado nas igrejas cristãs, era adorado como um deus nos templos pagãos. Na proporção em que a igreja subia no poder temporal, caía sua autoridade moral. De perseguida, fez-se perseguidora; buscou riquezas e corrompeu-se; derramou sangue para impor silêncio aos discordantes; e, sujeitando o espírito à letra, se encheu de formalidades e cerimoniais, primeiro sintoma de sua decadência.
O clero, malicioso e esperto, entrou em tudo: na magistratura, cargos públicos, prefeituras; fiscalizou os funcionários do império; penetrou no íntimo das famílias sob o pretexto de curatelas e tutelas. A religião se prostituiu em favor do poder temporal. Insensível aos meios e só visando os fins, via apenas dois obstáculos a sua ânsia de poder: a resistência dos imperadores gregos e a tentativa de independência nos territórios italianos. Por isso, os papas, ora perturbavam os gregos por meio dos bárbaros, ora provocavam, contra os que desejavam uma Itália independente, conflitos com imperadores do Oriente. Lograram, assim, exterminar os discordantes. Disse um historiador: ‘Para que os papas prosperassem, cumpria que, em volta deles, tudo se amesquinhasse’.
Na historia das crueldades da igreja, as maiores foram as infligidas ao povo lombardo, de disposições humanas e civilizadoras sem igual. Os duzentos anos em que tentaram fundar uma Itália livre, despertaram nos papas um ódio implacável, cujas maldições tremendas estão ainda hoje na memória dos povos.
Um papa deu a França de presente aos Carlovingianos, para ter destes, em troca, território pertencente por direito aos gregos. Para dar aparência de legitimidade ao ato, inventou-se uma restituição escandalosa, com falsificação de idéias pelos papas, que alegavam superioridade sobre os direitos dos povos e a jurisdição dos príncipes: ‘A nós convém levar nosso domínio para as províncias, pois não é racional que, onde o rei celeste instituiu a soberania da religião cristã, outro rei mantenha seu terrestre domínio’.
Enquanto na origem de todas as usurpações costuma estar à violência, na historia da igreja, a falsificação e a fraude têm sempre papel preponderante. Falsificou-se até mesmo uma epístola em que S.Pedro, em pessoa, intimava o imperador Pepino a aniquilar os lombardos. Os embustes históricos da igreja foram tantos que o século VIII mereceu o nome de idade da impostura. Todos esses crimes contra a verdade tiveram sempre um fim único: a dominação do estado pela igreja, e a dominação desta pelo papa.
O imperador romano Carlos Magno, que teve nove esposas e se amasiou até com filhas, teve ascendência sobre a igreja, chegando ao absurdo de fixar o número de anjos do céu. Após sua morte, a igreja retomou seu domínio, tendo o papa Gregório IV proclamado o princípio, a que a igreja ainda não renunciou, de que o papa é senhor das coroas, e tem poder para desobrigar os súditos do juramento de fidelidade aos reis.
A igreja primitiva era dividida em numerosos feudos que muitas vezes se opunham em matéria doutrinária, ou contra as autoridades religiosas do feudo, em questões temporais; esse feudalismo era semelhante ao civil. A descentralização era total, mas, devido às pretensões temporais que absorviam o clero, a igreja só se manteve em pé em face da existência de ordens monásticas e dos princípios democráticos de sua organização. Esquecendo essa tradição, nunca o papado deixou seu objetivo de tentar conquistar o poder temporal. Sua política era implacável. A decadência da igreja tornou-se imensurável; os papas, exemplos vivos dos vícios mais baixos; a própria coroa papal ficou, mais de meio século, nas mãos de mulheres perdidas. Por seus crimes, o papa João XII é deposto por um concílio; o papa Óton I estimula a invasão da Alemanha. Sob os papas Clemente II, Leão IX, Vitor II, Silvestre II, Estevão IX e Hildebrando, cresce a dominação dos sacerdotes. A igreja se avilta a tal ponto que se dizia, popularmente, que ‘os papas de Roma só conquistam o trono vendendo a alma ao diabo’. O bispo de Orléans disse, num sínodo: ‘É sabido não existir em Roma um homem capaz de ser porteiro; com que autoridade, pois, esse bispo que nada sabe tem a presunção de nos ensinar?’ E mais: ‘Ó Roma, quão digna és de dó e que densas trevas sucederam à claridade que derramavas sobre nós! Mas hoje, porque hão de bispos ilustres na ciência e na virtude submeter-se aos monstros que te desonram? Se o homem que se assenta nesse trono não tem caridade, é um Anticristo; se não tem sabedoria, é apenas um ídolo de pedra. Quando necessitamos nos aconselhar sobre coisas divinas, voltamo-nos para a igreja da Bélgica ou da Germânia onde muitos bispos brilham e lhes pedimos o parecer porque o de Roma vende-se a peso de ouro, e é por quem dá mais’.
Pela astúcia do papa Gregório VII, todas as soberanias temporais na Europa são abaladas, invadidas ou usurpadas. À Espanha, declara que seu território é ‘propriedade de S.Pedro’; ao rei de França, ameaça com a desobediência dos súditos; à Hungria afirma que ‘aquele reino pertence à igreja romana’; em pouco tempo reparte as coroas da Alemanha, Hungria e Polônia; faz da Boêmia seu tributário; apóia todas as usurpações na intenção de obter um aliado em cada usurpador; contra Henrique IV trava tenaz guerra, envenenada pela recente imposição do celibato sacerdotal; por bula papal humilhou e depôs o rei da Alemanha etc. Esse papa, mesmo vencido, deixou à Roma uma tradição que ainda hoje é alma de sua igreja: ‘Mesmo que se prove que excomungamos um príncipe sem motivos suficientes, nem por isso é de se rejeitar nossa sentença. Se a Santa Sé recebeu de Deus o poder de sentenciar coisas espirituais, porque não há de sentenciar também coisas temporais? Quando Cristo disse a S.Pedro: Apascenta minhas ovelhas, abriu exceção para os reis? O papa está tão acima dos reis, quanto o ouro do chumbo. Deus, dando a S.Pedro o supremo direito de ligar e desligar no céu e na terra, a ninguém eximiu da sua autoridade: todos os principados, todas as potências do orbe lhe submeteu. Desse modo Cristo fez o bispo romano senhor de todos os reinos do mundo, e herege é quem não obedece à Sé Apostólica e, os soberanos, que tenham a audácia de desprezar os decretos da Santa Sé, decaem da dignidade real. Reis e príncipes são homens que, desconhecendo a Deus e movidos apenas pelo diabo, querem dominar os semelhantes. Entretanto o papado foi instituído por Deus que, por ato de misericórdia, o deu ao mundo.’
Com os sucessores de Hildebrando, que adquirira, com a primeira cruzada e as ordens de cavalaria, novos e poderosos meios de oprimir os povos, o nível moral do papado baixou infinitamente. O rei Henrique IV, muito melhor em geral que seus contemporâneos, foi tão caluniado pelo clero, que de rei desceu a mendigar um emprego de servente no coro de uma igreja, que lhe foi negado, e, morto, foi exumado a mando do papa Pascoal, que o deixou insepulto por cinco anos, para maior humilhação. O sistema papal sempre foi: difamar sem escrúpulos, espoliar desumanamente o adversário vivo e, se morto, persegui-lo ainda, negando-lhe sepultura, difamando-lhe a memória, eternizando nos seus anais o ódio e a mentira contra a vitima.
Na Itália, o movimento republicano dos lombardos, contrariado pelos papas, trouxe a estes mais uma ocasião de mostrar o caráter essencialmente político e inexorável de suas aspirações. Ninguém, com espírito de justiça, deixará de tremer ante o suplicio de Arnaldo de Bréscia, cujo sangue, diz sério historiador, ‘clama ainda hoje por vingança contra o papado’. Seu crime foi afirmar que o clero não devia possuir feudos, nem mordomias temporais, nem propriedades territoriais, o que implicava em afastar a igreja de qualquer participação no poder civil, e isso era totalmente contra as idéias de Roma.
O papa Adriano IV, por ridícula questão de precedência, ameaçou o rei Frederico Barbarroxa de lhe tirar o trono, lembrando-lhe ‘que a coroa que ele ostenta não é mais que um presente do papa’. Em toda a Europa, crescia a soberania universal do papa, que inventa, a favor dessa intenção, títulos absurdos. Adriano IV, ao fazer presente da Irlanda a Henrique II, da Inglaterra, escreveu-lhe: “Bem sabeis, como sabem todos, que a Irlanda, e, bem assim todas as ilhas convertidas à fé cristã, pertencem à Sé romana’.
A doutrina da onipotência teve início com Hildebrando, que possuía supersticiosa fé na divindade de seu poder. No seu pontificado, a soberania dos estados foi profundamente ferida em todo o Ocidente. Os artigos de fé foram reunidos numa série de constituições publicadas pelo papa Gregório: ‘Só o pontífice romano pode chamar-se universal; só a ele pertence o direito de nomear bispos; os seus legados têm precedência sobre todos os bispos nos concílios gerais; ele pode destituir os prelados; o uso de ornamentos imperiais só a ele pertence; os príncipes e reis são obrigados a beijar-lhe os pés; ele tem o direito de depor imperadores; não terá validade qualquer concílio havido sem seu consentimento; a ninguém cabe anular-lhe as sentenças, mas ele pode anular os decretos de quem quer que seja; a igreja romana é, foi e há de ser infalível; cessam de ser católicos todos que como ela não pensarem; é lícito ao papa desobrigar os súditos do juramento de fidelidade aos maus príncipes’.
Mais temidos do que os desastres naturais que assolam o mundo, os mensageiros dos papas levavam o terror a todos os povos. A cólera caía sem pena sobre os príncipes pouco dóceis à igreja. Fechavam os templos, deixavam os mortos sem sepultura, populações inteiras sem sacramentos, proibiam festas e alegrias ao povo, até que os reis, desesperados, humilhavam-se com retratações, como as de João-sem-terra. O rei Felipe Augusto lamentava não ser muçulmano e invejava o emir Saladino, que não tinha acima dele o papa; o rei da Inglaterra pensou em adotar o islamismo. Roma era claramente contra a razão e a liberdade. Anatematiza a Magna Carta inglesa, primeira constituição escrita de todos os estados modernos, amaldiçoada pelo papa Inocêncio III como infame e herética, por dar liberdades ao povo; realiza a cruzada contra os albigensis, cujo crime era a liberdade de pensamento, a não sujeição ao papado e a critica aos vícios da tirania papal, numa época em que era de todos conhecida a expressão ‘vil como um padre’. Para punir esse crime, o Langdoc, a mais próspera região da Europa ocidental, foi entregue a uma cruzada, isto é, a uma legião de arruaceiros, assassinos e salteadores que, sob o comando de monges e bispos, exerciam enormes abominações, para proveito da Santa Sé.
Por trinta anos, os papas Gregório IX e Inocêncio IV fizeram tremenda luta contra Frederico II, no dizer de São Luiz, ‘príncipe tão nobre que não havia igual entre os cristãos’. Esse rei foi excomungado três vezes como traidor, perjuro, sacrílego e herege, posto fora dos direitos das gentes, perseguido com o interdito para que todos os lugares se manchassem com sua presença, atingido sem descanso por conspirações eclesiásticas, e, quando morreu, pela arma de um assassino a mando do papa, o ‘interprete infalível do Evangelho’ escreveu aos cristãos: ‘Terra e céus, rejubilai! O opressor já não existe!’ ‘Não somos um simples mortal; ocupamos na terra o lugar de Deus’.
Com o papa Rodolfo, os estados cristãos receberam sua constituição definitiva e as necessidades da nova situação abriram ao papado o seu período mais cínico. Diz conceituado historiador: ‘Os legados papais eram coletores; os anátemas, intimações; os benefícios espirituais, negócios; e Roma caia sem dó sobre os devedores teimosos’. Necessitando de dinheiro, com estratagemas fiscais escorchantes, empobreceu a França e a Inglaterra, tanto que o papa Bonifácio VIII era chamado de ‘anticristo e homem do pecado’. Esse papa, a cuja vida se atribuem ‘imoralidades e infâmias que fariam corar os mais desavergonhados’, foi autor da bula que vedava aos reis, sob pena de excomunhão, impor tributos ao clero, e da bula que declarava ‘sujeito ao pontífice todo o homem que existe’. Puniu o rei Felipe, o Belo, com anátema, e excomungou seus descendentes até a quarta geração, punição tradicional na igreja romana.
Em Avinhão, onde a corte da igreja era chamada de ‘Babilônia desavergonhada’, dizia-se que ‘o ouro abria o céu e comprava até Jesus Cristo’.
A intervenção do papado na soberania temporal teve ponto alto com o papa Clemente V, que afirmou ser ‘indubitável sua supremacia sobre o império romano e o poder, que Cristo lhe dera, de prover à sucessão na vacância do trono’.
O papa João XIII, chamado ‘o diabo em carne e osso’, fez crescer os tributos escorchantes da igreja, aumentando as rendas papais, multiplicando os corretores eclesiásticos, e lançando impostos até aos prostíbulos, casas de jogo e à usura. Na Inglaterra, a receita que o chefe da igreja arrecadava era cinco vezes maior que a do rei, e maior que a de qualquer príncipe cristão. E apesar de tudo isso e dos crimes abomináveis imputados aos papas Bonifácio IX, Baltasar e Bórgia, continuaram os papas a ser, ‘por direito’, a fonte divina do poder temporal, os juízes infalíveis dos reis, os supremos distribuidores de todos os tronos. Por isso uma cláusula, a mais importante no libelo contra João Huss e Jerônimo de Praga, foi a que os acusava de pregar que a soberania das nações é superior à dos reis, idéia intolerável às inclinações absolutistas de Roma que subjugava os povos aos reis, para subjugar os reis ao papa. Maior culpa foi atribuída a Wiclef que negava à igreja romana qualquer domínio sobre outras dioceses. Mas a igreja forçava sua doutrina dominadora e decreta que o príncipe ou governo que incorrer em heresia decai de todo o poder, caso em que, os súditos devem rebelar-se contra ele; esta teoria era ponto de fé admitido por todos os teólogos de bom conceito em Roma; e a destituição do rei infiel efetivava-se mesmo antes da sentença papal. Desse modo, pode o papa, por suas bulas, para as quais não admitia oposição, pregar impunemente a rebelião em qualquer nação; e, como a deposição da autoridade infiel resulta do próprio fato da heresia, tem qualquer bispo, na nação onde está sua igreja, nos seus sermões, o direito de recomendar aos cidadãos que desobedeçam ao rei.
Por todos esses desmandos da igreja dos papas, sua tendência invasora, a confusão entre a influência temporal e a autoridade religiosa, o sacrifício da fé à política, a intervenção opressiva nos estados, lentamente cresceram entre os povos as idéias da grande reforma protestante. Tributos triplicados pelo papa Benedito IX, a extorsão e a jurisdição sem limites sobre questões temporais praticadas pelos tribunais eclesiásticos de Roma, o vergonhoso comércio de indulgências (Com promessas blasfemas, os traficantes de indulgências não respeitavam nem decência, nem pontos mais melindrosos da fé. Apregoavam: ‘Asseguramos a salvação de sua alma a quem quer que compre bulas e indulgências. É só soar o dinheiro na caixa e, no mesmo instante, suas almas escaparão do purgatório e voarão aos céus. Tão grande é a força destas indulgências que chegam a expiar os maiores pecados, ainda o daquele que, por impossível, violasse a mãe de Deus. São mercês inefáveis do Senhor, empenhado em reconciliar consigo os homens, retirando-lhes pena e culpa. A cruz que levantamos tem tanta força quanto a cruz de Cristo. Os céus estão abertos; se agora não entrais, quando entrareis? Por algumas moedas resgatareis, também, do purgatório a alma de vossos progenitores; tão ingratos sois, que não tendes empenho em livrá-los dos tormentos? Ainda que tivésseis uma veste só, devê-la-íeis despir já para comprar tamanhos benefícios.’ Tais absurdos, mais a tirania com que a igreja romana tratava os povos, eram considerados pelos povos devotos do norte (da Alemanha e França, principalmente) ‘um sistema de aviltante servidão’.
O papa Pio II oferece um império, a troco do batismo, a Maomé II: ‘Nós te nomearemos imperador dos gregos e de todo o Oriente’; lança o interdito aos florentinos por terem punido os mandatários do papa no assassínio de Juliano Médicis; provoca contra Milão e Florença uma guerra invasora e as entrega ao exército de Fernando de Aragão; a Luiz XII, em troca de um principado para César Bórgia, o papa Alexandre VI doa o trono de Nápoles; lança Gênova contra Bolonha; provoca guerra contra os franceses, até há pouco tempo seus aliados etc.
Com a atenção toda voltada para o poder temporal, a religião declina, surgindo práticas supersticiosas e materializando-se. A intromissão do clero no governo das nações e nas suas relações internacionais, mantém a Europa em permanente agitação, alterando o direito dos povos à conveniência da igreja. Com isso, Roma preparou o cisma protestante. Quando lhe faltou força para sujeitar os reis, aproveitou-se da superstição das gentes para empobrecer os povos. ‘A ficção histórica do direito de ligar e desligar, dado aos papas por Deus, tornou-se produtiva de bens terrestres, com o significado de ocupar e possuir.’ As imposições da igreja romana eram ‘humilhantes e arruinadoras’.
A revolução religiosa do séc. XIV já era pressentida séculos antes pelos explorados e foi dirigida quase somente contra a ânsia de domínio temporal do papado. Uma das maiores queixas contra a igreja era a de que cabia aos papas o direito de nomear e demitir reis. Protestos começaram a surgir contra a necessidade de obedecer a um pontífice injusto e indigno. Começou a resistência, chamada de heresia pelos papas, contra a abusiva dominação. A igreja respondeu aos protestos com a criação da Ordem dos Jesuítas, cuja missão era tão desumana que foram chamados de ‘os mais mortais inimigos da liberdade intelectual e moral’. Na ‘Historia do Papado’ está: ‘Se seus planos vingassem, os papas teriam para sempre o domínio sobre o poder temporal. Os jesuítas levantaram pretensões e direitos que trouxeram subversões internas aos impérios. Foi principalmente essa ordem que defendeu essas doutrinas, reclamando uma ilimitada soberania da igreja sobre os estados. Em face da nova postura dos reis, que negavam essa autoridade, tinha a igreja de usar novas armas. Daí em diante havia de ser verdadeira batalha a hostilidade romana contra a independência dos governos; os povos não eram mais tão dóceis e o papa precisava de um exército presente em toda parte contra o mundo que se insubordinava. Assim, o papa Paulo II, na bula que instituiu a Ordem, chamou-a de ‘regimento da igreja combatente’. E dizia: ‘Nossas casas são verdadeiros acampamentos’. Estabelecida a Companhia, que exigia a renúncia do livre-arbítrio, afirmava Inácio de Loiola: ‘renunciar à vontade tem mais valor do que ressuscitar um morto; mesmo que Deus nos dê por senhor um animal sem inteligência, não podemos hesitar em obedecer-lhe, não por sua sabedoria, mas pelo fato de que representa Deus; e que a beleza da obediência cega desaparece assim que, em nosso íntimo, indagamos se é bom ou mal o que nos determinam’.
Essa redução da alma a autômato está consagrada claramente nesta regra da Ordem dos Jesuítas. ‘Os que vivem sob obediência cumpre que se deixem guiar, como cadáveres, pela divina providência representada nos superiores. Nenhuma constituição, declaração ou regra de vida podem se estabelecer, sob pena de pecado mortal, senão quando o superior da Ordem, em nome de Nosso Senhor, ou do preceito de obediência, as promulgar’. ‘Quem lê isto custa acreditar no que lê’, exclamou um dos mais sábios historiadores da igreja, e ‘alguém afirmar que aquele estado cruel a que a ordem de Loiola degrada o homem, que esse regime contraria de modo abominável os desígnios da Providência, é terrível heresia por desafiar o representante vivo do Senhor Deus. Ora, diante de tais monstruosidades, como há de alguém hoje defender a igreja romana?’
Essa ordem, cuja suprema regra era ‘não possuir ninguém consciência própria’ e ‘consagrar a vida a serviço de Cristo e dos pontífices romanos’, era a protegida dos papas. Assim, tinham os jesuítas, com imunidades e prerrogativas imensas, um poder muitíssimo superior ao dos bispos, sempre em proveito da dominação papal. A causa pela qual eles lutavam tinha por fim trocar a liberdade pela obediência, e sua disciplina era mais rígida que a militar. Nesse sentido, a organização de Loiola foi a mais perversa obra de trevas que a deturpada moral cristã pode criar. Esse exército encheu a terra, por três séculos, com suas obras a favor da supremacia teocrática de Roma, instigando o massacre dos valdenses; influenciando o imperador da Áustria, para dominar a corte e a universidade de Viena; aniquilando, na Boêmia, os direitos dos protestantes; influenciando decisivamente para a devastadora guerra dos trinta anos; aprovando e glorificando a carnificina da noite de S.Bartolomeu, a que a Ordem denominou noite imortal; abençoando, como confessaram, o punhal de um mandatário assassino; pregando em várias nações, com conceitos de sua falsa moral, como direito dos católicos, a deslealdade aos pactos mais solenes contraídos com estados não católicos; conspirando, na Inglaterra, Portugal e Hungria para obter vantagens da parte vencedora etc. (O massacre dos protestantes na França e nos Países Baixos, promovido pelo papa Pio V, fez o papa seguinte, Gregório XIII, que assistiu, naquela noite de sangue, à sinistra vitória dos católicos, derramar lágrimas de júbilo, fazendo celebrar um Te-Deum e cunhar medalha comemorativa da matança. Ainda hoje existe no Vaticano a sala régia, onde um pintor, logo inspirado pelo papa, perpetuou o massacre, retratando, em três quadros, o assassinato dos huguenotes na noite de 24 de agosto. ‘O palácio do papa’, diz Stendhal, ‘é o único lugar no mundo onde o assassinato é glorificado publicamente’.
É certo que houve papas que, discordando, condenaram a Ordem, mas suas condenações resultaram em humilhantes retratações feitas por papas posteriores que devolveram aos discípulos de Loiola títulos e privilégios. Para os jesuítas, a religião toda está resumida na autoridade do papado, tanto que a Ordem olhou sempre com ódio, ao longo da história, aqueles poucos que têm preservado o espírito do primitivo cristianismo. Exemplo disso as injúrias e difamações até nos púlpitos e a perseguição que fez a certos bispos inclinados à doutrina antiga. Um destes, escreveu ao papa: ‘Fujo para as montanhas; busco entre serpentes e escorpiões, lá abundantes, a segurança e paz que não encontro junto a inimigos irreconciliáveis, como os jesuítas, que têm na igreja um domínio tão grande que está acima de toda autoridade e da lei.’
A Ordem justificou suas crueldades mais selvagens; louvou, como penalidades caridosas para os hereges, a espoliação de sua descendência; aos filhos dos infiéis aconselhou que denunciassem os pais e os matassem à fome; e aos noviços da Ordem, a quem se proibiam teatros, recomendava assistissem ao espetáculo santo dos queimados vivos nas fogueiras. Jamais a igreja refutou as palavras de Doellinger: ‘Onde os jesuítas pisam, a erva não cresce mais’.
A ‘obra-prima’ dos jesuítas foi no Paraguai. ‘O Paraguai apresenta maravilhas como as dos primeiros séculos cristãos; em alguns anos, as tribos mais selvagens formaram, sob nossa influência de apóstolos cristãos, sociedades modelos, perfeita reprodução do paraíso.’ Entretanto, o que os brasileiros viram, na guerra em que nosso exército penetrou até o interior do país vizinho, habilita-nos a julgar a obra dos jesuítas: uma nação de criaturas aviltadas até abaixo do cativeiro, sem lei, nem direitos, sem tribunais, nem governo, sem moralidade social ou doméstica, sem família, sem instrução, sem indústria, sem comércio - uma tribo de fanáticos, pobres até a penúria, selvagens até a ferocidade.
A Ordem ensinava que os papas têm o direito de depor reis infiéis; que a insurreição de um padre contra um rei não é crime de lesa-majestade, porque os sacerdotes só são súditos dos papas; que os povos católicos têm por dever de fé, assassinar o príncipe que não exterminar os hereges; que deve ser glorificado aquele que, como Clément, matar seu rei (Clément, instruído por teólogos romanos que é lícito matar o tirano infiel à igreja, conseguiu respeitado nome, tirando a vida ao seu rei). Entre muitas adulterações, falsificaram o texto de S.Paulo, que ensinava ser a meta da religião a educação e não o extermínio dos crentes: ad aedificationem, non ad destructionem (para edificação e não para destruição). Santarelli, chefe dos jesuitas, eliminou o non e, assim, inverteu a lição do apóstolo.
Falando ao Czar, a respeito dos jesuítas, escreveu Maistre: ‘Nada é mais útil aos interesses de Vossa Majestade, do que essa sociedade de homens essencialmente inimigos daquela donde V.M. tem tudo a temer. Nas doutrinas da Ordem, como na da igreja, tirano não é o opressor do povo, mas o insubmisso ao papa, e tiranos dessa espécie incorrem numa sentença cuja execução torna sagrados todos os crimes e até o punhal assassino’.
Iniciou-se, no fim do séc. XVII, o culto do Sagrado Coração de Jesus e, após, o do Sagrado Coração de Maria (o culto a Jesus só se iniciou 125 anos após a crucificação), superstições com que a igreja tem paganizado o catolicismo em prejuízo do culto a Deus; e a mariolatria e a adoração abusiva de imagens contradizendo a Bíblia Sagrada. E a igreja ensina que o Cristo elogiou Maria Alacoque: ‘Alegra-me que prefiras a vontade de teus superiores à minha’. É, pelo que se vê, a hierarquia sacerdotal acima do próprio Deus; este é o espírito da igreja romana em todos os séculos.
2. Desenvolvimento do papado à custa da igreja.
Entre o primitivo cristianismo e o atual, a igreja dos papas cavou enorme abismo. A infalibilidade, base do catolicismo romano, é a negação daquele cristianismo. Compreendendo o valor da tradição no espírito dos homens, a igreja se esforçou em provar que, apesar da escandalosa deturpação de sua doutrina, é a mesma dos tempos primitivos. O que a história conta, porém, é uma realidade totalmente oposta. Doellinger: ‘Então, meu livro sobre a igreja primitiva, que os católicos da Alemanha têm como quadro fiel da época na qual se firmaram todos os fundamentos da doutrina, ao qual nem os jesuítas fizeram críticas de peso e que V.Exa. (o arcebispo de Munique) aprovou, é falso. Se nos recentes decretos papais é que jaz a verdade, hão de, com justiça, argüir-me de haver relatado falsamente a história dos apóstolos, a constituição da antiga igreja, o relacionamento entre os apóstolos e S.Pedro; em suma, tudo errado fundamentalmente, e eu seria forçado a confessar não haver entendido nem os atos, nem as epístolas, conforme as narrativas evangélicas’.
Os que querem vincular a soberania dos papas ao fato de S.Pedro ter sido, dizem, o primeiro papa, esquecem o primeiro ato coletivo da igreja, o concílio de Jerusalém, no qual a solução das questões coube, não a Pedro, mas a Tiago, bispo da cidade. Mas, não é esse o único ponto em que os evangelhos testemunham contra a pretensão de ter sido Pedro o primeiro papa. As epístolas de Paulo mostram que esse primado nunca foi real entre os primeiros cristãos, e que a fé desse apóstolo era tão frágil como a dos demais. Nesse primeiro concílio, o nome de Pedro sequer foi mencionado. Os que colocam esse discípulo acima dos outros, precisam ler as epístolas de Paulo: ‘Em nada tenho sido inferior aos maiores dos apóstolos.’ ‘O Evangelho, não o aprendi de homem nenhum, mas de Jesus Cristo, que mo ensinou’. A história não mostra que Pedro fosse um apóstolo maior que os outros. O papado, para levar avante seus planos temporais, não hesitou em alterar a verdade histórica dos evangelhos.
Roma não foi a mais antiga das igrejas. Mais antigas as de Jerusalém, Éfeso, Antioquia e Corinto. O título de apostólica, hoje exclusivo de Roma, se aplicava a todas as igrejas instituídas pelos apóstolos, e chegou a ligar-se a todas as igrejas episcopais. Até o séc. IV, a de Jerusalém era a ‘mãe de todas’. Essa forma de ‘saudação e benção apostólica’, de que hoje Roma atribui a si o privilégio, só nasceu no séc. XI, com o papa Leão IX, desmentindo absolutamente afirmações de que já existia no séc. I.
As igrejas eram totalmente independentes e autônomas. Não havia qualquer subordinação à de Roma, que era igual a qualquer outra. O título de papa, simples honraria, aplicava-se a todos os bispos. ‘Nossas numerosas igrejas reputam-se todas a mesma igreja, sendo a de Jerusalém, a primeira fundada pelos apóstolos, a mãe de todas. Juntas, são uma só, pela harmonia, pelo mútuo tratamento de irmãos, pelos laços de hospitalidade entre todos.’ Esta condição, aceita e aprovada por todos os bispos, inclusive o de Roma, foi totalmente esquecida.
Os cargos da igreja eram preenchidos por eleição, votando padres e leigos, em verdadeira democracia, até o séc. XII. Morrendo Tiago, bispo de Jerusalém, ‘apóstolos, discípulos e parentes de Jesus, reuniram-se para dar-lhe sucessor’. No concílio de Elvira, o mais antigo, reuniram-se bispos e padres, homens e mulheres do povo; o mesmo ocorreu noutros concílios. ‘Todos agiam sem discriminação e o voto dos leigos tinha o mesmo valor do voto do clero, condição hoje destruída pelo papa infalível.’
O concilio de Cartago ‘proibia que os bispos ordenassem clérigos sem a aprovação do clero e dos leigos’. No séc. V, o papa Leão decretou que ‘aquele a quem compete mandar em todos, por todos há de ser eleito’ e o papa Hormísdas, séc.VI, ‘reconhece, na aclamação do povo, o juízo de Deus’. Até no início da Idade Média, os prelados na França eram nomeados pelo povo em ‘votação na cidade e no campo, do clero, nobres e leigos, e mulheres’. Não havia interferência do clero romano, que era notificado do fato, como as outras igrejas, por simples carta. Roma não tinha liderança alguma; muitas vezes a vimos em situação de inferioridade para com as outras igrejas, particularmente a da África. Na disputa, entre Cornélio e Novaciano, séc. III, ambos papas de Roma, que dividiu os cristãos entre os dois, a solução do sínodo romano, a favor de um e excomungando o outro, não foi aceita na cristandade, e sínodo africano deu solução diferente. A deposição de bispos espanhóis, cancelada pelo papa de Roma, teve o ato deste anulado em sínodo de Cartago que apoiou o sínodo espanhol; a sentença da África prevaleceu sobre a romana. Em muitos casos foi evidente a incompetência do papa romano em solucionar questões da igreja; as decisões eram do episcopado inteiro, o que mostra a igualdade de todas as igrejas e de seus líderes. Dar a supremacia à igreja de Roma é esquecer essa igualdade dos primeiros séculos, e a história mostra, muitas vezes, a igreja romana se submetendo às demais, não por imposição, mas por sua igualdade. O bispo de Roma era, como os das outras igrejas, sujeito às assembléias dos bispos, e estas aconteciam, por vezes, sem que o papa romano tivesse notícia. Só a partir do séc. VI, os patriarcas, como cortesia, comunicaram a Roma as ordenações. Mesmo quando heresias ocorriam em todo império romano, os pretensos sucessores de Pedro não erguiam a voz para condená-las. Outro fato, que mostra a não preponderância do papa romano, refere-se à celebração da Páscoa. O uso foi estabelecido sem que constasse, nas atas do sínodo, referência a esse papa, que, aliás, chegou a ser repreendido pelo sínodo de Éfeso por desrespeito à independência das igrejas irmãs.
Sobre o batismo de hereges, é a igreja africana que decide, apesar da reprovação do papa romano, a quem, o bispo de Cesaréia afirma ‘faltar corpo e alma e sobrar orgulho, cinismo e heresia’. ‘Não julguemos a irmãos por serem contra nosso parecer. Nenhum de nós quer elevar-se a bispo dos bispos, nem levar seus colegas a obedecer-lhe por terror tirânico; porque qualquer bispo é plenamente senhor de sua vontade e de seu poder e, assim como por nenhum outro pode ser julgado, não pode julgar nenhum.’
Aqueles que contestavam a doutrina da criação, a redenção pela cruz, a divindade de Cristo, sua filiação divina, a ressurreição da carne, nem eram perturbados pelo papa romano. No caso da negação da divindade de Jesus, o Oriente julga e depõe o bispo negador, sem ouvir o de Roma. Quanto ao dogma da Santíssima Trindade, numerosos bispos o reprovaram e, por isso, foram excomungados pelo imperador Constantino; os que aprovaram eram tão poucos, que o imperador convocou, e ele mesmo presidiu, o primeiro concilio geral, com o fim de ratificar seu decreto sobre a Trindade. Mesmo sendo pontífice pagão, fez-se chefe da igreja que nascia, restaurou templos do paganismo, gravou em monumentos a afirmação de sua divindade lado a lado com a cristã, e colocou na estátua de Apolo relíquias da crucificação de Jesus. Esse déspota sanguinário, supersticioso, algoz de cristãos, foi que presidiu esse concilio onde se regulou a unidade da igreja, a administração dos sacramentos, a excomunhão, a penitência, o culto e a hierarquia, não havendo lugar especial para os bispos de Roma, que se confundiam com os demais. Constantino, pagão, presidia, ‘representando a majestade de Deus’.
Mais tarde, quando o bispo de Roma declarou seu o direito de julgar as causas maiores, os outros ‘o advertiram de que, além de ser estranho ao assunto em questão, não era superior em dignidade aos demais pelo fato de ser bispo de uma cidade maior’.
Libério, o antecessor dos papas infalíveis, traiu, duas vezes, o credo cristão, negando a divindade de Jesus. Não foi convidado para o concílio sobre as duas primeiras pessoas da Trindade, e no concílio sobre o mistério da Trindade, nem foi notificado do resultado.
No antigo cristianismo, papas e bispos se chamavam, indistintamente, de irmãos; o tratamento de santidade era para líderes como S. Agostinho, e S. Crisóstomo. Quando foi julgado por heresia sobre a preexistência das almas, Orígenes não apelou ao papa de Roma, mas ao de Alexandria. Sete concílios, convocados pelo bispo de Hipona, aconteceram sem notificação ao bispo de Roma. Em 411, sob a presidência de leigo nomeado pelo imperador romano, 530 bispos reuniram-se em concílio, do qual o bispo de Roma nem participou.
Vários papas de igrejas ocidentais colocaram-se contra a doutrina do pecado original, do batismo, da graça, exigindo decisão urgente, e mesmo assim, Roma nem chegou a ser consultada sobre essas questões.
O segundo concílio geral de Constantinopla, reunido pelo imperador, foi uma manifestação geral contra as tendências usurpadoras de Roma e declarou a igualdade das igrejas, sem qualquer desaprovação do papa romano. Os concílios trouxeram dogmas sobre sacramentos, a natureza de Deus, de Cristo, do Espírito Santo, da Trindade, a criação do universo, a encarnação do Verbo, a salvação das almas. Nessas assembléias, clero e leigos decidiam sobre tão importantes assuntos. E considerava-se enorme absurdo qualquer supremacia do papa romano sobre os demais patriarcas.
Houve excomunhões de bispos de outras igrejas, os quais, apelando ao de Roma, este os reintegrava. A reação a isso mostra bem que o bispo romano não tinha qualquer precedência: ‘Não podeis reintegrar aqueles que foram excomungados em suas províncias; melhor seria repreendêsseis os que, por erro, para vós apelaram. Não há concílio que nos obrigue a atender vossas ordens. Não tendes, recebida dos céus, graça particular para tal.’
A igreja era superior aos papas. Um papa, condenado no concílio de Constantinopla, apela para as igrejas de Alexandria, Roma, Tessalônica e Jerusalém, simultaneamente, mostrando não ser ele superior à igreja, pois por ela fora condenado, e que a de Roma não era superior às outras. Porém, graças a múltiplos acontecimentos, ao caráter invasor dos bispos de Roma, às concessões graduais das outras igrejas, no meio de conflitos teológicos e disciplinares que dividiam os cristãos, e aos negócios oportunistas entre a igreja romana e imperadores, aos poucos cresceu a autoridade do bispo romano. Os quatorze séculos seguintes assinalam o desenvolvimento dessa autoridade que, em nome de Cristo, só desejou dominar as consciências e os Estados. Porém, houve quem não aprovasse o que acontecia. No séc. VII, o papa Gregório Magno considerou tão absurdo o título de bispo universal, que o chamou de invenção do diabo: ‘Quem quer que se chame de bispo universal é precursor do Anticristo, porque isso é pretender pôr-se acima dos outros.’
A condenação de um papa, no séc.VII, como herege, é fato histórico indiscutível. Roma, sem êxito, tentou ocultar o fato que provava a não-infalibilidade. ‘Condenamos e segregamos da santa igreja o papa Honório, que, por traição, subverteu a fé.’ A fraude, tão usada em Roma, foi usada novamente: depois de novecentos anos, no séc. XVI portanto, o nome desse pontífice é retirado da relação de hereges, por ordem papal, para defesa do dogma da infalibilidade.
Mesmo muito após a promulgação da infalibilidade do bispo de Roma, que buscava se alçar acima dos demais, continuou a igreja dividida entre as cinco grandes sés, e a sentença final nas causas eclesiásticas cabia, em cada uma, ao patriarca respectivo. E, queixa freqüente era: ‘É tempo de recusar as mutilações da fé, que entre nós colocaram os mentirosos e falsificadores. Necessitará Deus dessas fraudes?’
O concílio de Constança condenou com energia a supremacia e a infalibilidade papal. Mas, a igreja romana usava de todos os artifícios para vencer. Assim é que, nos sínodos, o episcopado romano, mais ignorante, mas mais numeroso, conseguia sempre dar vitória aos desejos dos papas. Apesar disso, houve vários papas que anularam bulas de seus antecessores, concorrendo para o descrédito da infalibilidade. ‘Afirmam os papas que têm a assistência infalível do Espírito Santo, mas esquecem, com a prática dessas imoralidades, de S.Paulo que disse: ‘Confessam a Deus, mas negam-no com as obras, porque são abomináveis e rebeldes para qualquer boa ação.’ Assim, Inocêncio IV admitia poder o papa errar como qualquer homem, e aconselhava ‘desobediência a decretos papais manchados de heresia, pois cumpre aos fiéis crer no que a igreja crê; não no que o pontífice ensina’. De 1560 até 1826, em numerosos sínodos, a igreja francesa colocou-se contra a tirania de Roma, tachando-a de falsa e cruel, e suas bulas, de inadmissíveis.
Embora a independência dos bispos e de suas igrejas tenha origem no primitivo cristianismo, e seja a igreja de Jerusalém o berço do Evangelho e da literatura cristã, sede dos mais importantes concílios, através da historia, nunca, em dezenove séculos, surgiu ali a idéia da infalibilidade. Entretanto, Roma, depois de 1900 anos, introduziu esse dogma. E os bispos franceses protestaram ao papa Carlos X: ‘Senhor, as decisões adotadas na igreja são denunciadas como atentatórias à divina constituição do catolicismo, como manchadas de cisma e heresia, e profissão de ateísmo’. Enquanto protestam contra as absurdas decisões da igreja romana, esta alega que a igreja francesa tem ‘sua fonte na onipotência do poder real, ao passo que a de Roma a tem na onipotência divina’. Isso, porque a igreja de França resistiu mais aos absurdos de Roma do que as outras, que desamparadas, sob príncipes fracos, cederam muito antes.
A igreja da Inglaterra, Irlanda e América recusaram aceitar o dogma. Um protesto inglês, em 1789, assinado por todo o clero e leigos de nome, afirmava ‘não admitir a infalibilidade’. Em 1810, a igreja irlandesa em manifesto público confessa que retirara, do juramento dos sacerdotes, a doutrina da infalibilidade e que no Reino Unido não havia católicos que a aceitassem. Em 1823, um dos bispos mais conceituados da Grã-Bretanha afirmava que ‘nenhum decreto papal obriga os fiéis sem o assentimento do concílio’. Protestava-se contra a infalibilidade papal em todas as igrejas da Europa. Afirmava o bispo de Orléans: ‘Gravíssima é a questão porque trata de proclamar um novo dogma, o da infalibilidade pessoal do papa, e os fiéis nunca, em dezoito séculos, foram obrigados a crer nisso apesar da ameaça de excomunhão’. E o maior teólogo inglês: ‘Graças à igreja de Roma, o simples nome de concílio traz sobressalto e terror. Até hoje convocaram-se concílios para livrar a igreja de graves perigos. Mas esse aí que se celebra no Vaticano, ao invés de livrá-la de perigos, mergulha-a profundamente neles’.
O episcopado, afinal, colocou a consciência e o dever aos pés do bispo romano, com sacrifício da dignidade católica e tristes pressentimentos contra o dogma, denunciado pelos teólogos mais cultos como ‘obra de fraude, paixão e mentira, resultado de lastimável vitória dos jesuítas contra a igreja, desastre para a religião e para a humanidade’. Pediam-se sérias reflexões aos bispos do concílio, advertindo-os de que o novo dogma traria irreparável dano ao catolicismo.
O bispo de Augsburgo, grande teólogo, escrevia, em 1870, aos padres romanos assinantes da petição ao papa Pio IX para que se declarasse infalível: ‘Trouxestes com essa petição que a infalibilidade papal seja promovida a dogma. De agora em diante, sob pena de excomunhão e perdição eterna, 180 milhões de homens têm de crer naquilo que, até hoje, a igreja não creu nem ensinou. O católico só pode crer naquilo que a igreja lhe impuser como verdade revelada por Deus, naquilo cujo contrário não admite e condena como heresia. Ninguém, desde que a igreja existe, creu na infalibilidade papal. O dogma que querem adotar é fato inaudito na história da igreja; não houve, em dezoito séculos, coisa semelhante. Isso que fazem é uma revolução na fé e na doutrina, porque se trata do fundamento onde vai, de agora em diante, assentar a religião de todos, e vai-se trocar toda a igreja universal, por um indivíduo só, o papa. O fiel que cria nos dogmas porque a igreja assim ensinara, agora tem de crer porque o papa, que se pretende infalível, manda que se creia. Esquecida ficou a lição de Jesus: ‘O que a si mesmo se exalta, será humilhado’ (Os primeiros serão os últimos).
Os bispos da França afirmaram ‘ser absoluto despropósito impor aos católicos, já vítimas de tantas conjurações, encargos ainda mais gravosos como o de crer no novo dogma; e que isso despertaria nos homens mais honestos sérias desconfianças contra a fé cristã’. A Áustria e a Alemanha, afirmaram que a igreja não podia impor aos cristãos o novo dogma como revelação divina. Na América do Norte, que o escândalo mostra a todos a discórdia dentro da igreja. As igrejas orientais, que traria riscos à religião. Na Itália, que o dogma dá armas aos inimigos da igreja e ofende os homens de bem. Contudo, os protestos nem tiveram resposta de Roma. ‘Nada mais resta senão protestar em face aos funestos sucessos que já estão surgindo; eximimo-nos de qualquer responsabilidade perante os homens e perante o juízo de Deus. Que repudiamos o dogma, seja este escrito eterna testemunha. Algum dia, hão de se dar contas de seu erro aqueles que se valeram do concílio para atender ao desejo do papa romano. Triunfam, não dos inimigos da fé, mas dos próprios irmãos, causando à igreja o mais sério prejuízo, para fazer valer opiniões que são para nós vivos temores’, ou. ‘Antes a morte do que aprovar semelhante dogma’, ou ainda ‘Muitos rejeitarão o decreto como inaudita inovação; crer-se-á mudada e, portanto, falsa, a doutrina. A autoridade dos concílios e dos papas desabará, e incredulidade horrenda se espalhará pelo mundo todo’.
‘Se aprovada tal definição, nenhuma resposta mais teremos quando protestantes nos censurarem a fé. Até hoje, vós mesmo ensináveis ser essa doutrina opinião livre, e hoje a impondes por dogma de fé. Logo, ou antes mentíeis, ou inverteu-se a doutrina da igreja’; ou ‘Tal tradição não existe na minha igreja; essa definição vem trazer a deserção de grande número dos melhores católicos’; ‘Esse dogma é o suicídio da igreja’; ou ‘Esse incrível absurdo é uma declaração de guerra a todo o passado da igreja’; e ‘A tradição dos concílios foi violada’.
Esses protestos eram os últimos suspiros de fé na hierarquia romana. A divinização do bispo de Roma, sob pressão direta do próprio, consumou-se mesmo sem unanimidade, meia-cristandade não estando a favor e, na outra metade havendo enorme desproporção entre a importância das províncias representadas e o numero de legados no concílio. ‘A adoção desse dogma constitui flagrante contradição com a antiga igreja, que não mais poderá apelar para o que, em tempos de turbação, a salvou. Doravante, a Santa Sé jamais obterá o apoio de uma assembléia de bispos.’
A adesão à infalibilidade papal era considerada, por partidários do papa, dever de gratidão e de subalternidade hierárquica: ‘Quando vigários apostólicos, cujo salário é pago pelo papa, assinam protesto contra o dogma, é geral, na igreja e em todo o mundo, a indignação.’
A unanimidade moral era requisito essencial nas definições conciliares, tendo cem bispos, de eminente sabedoria e virtude indiscutível, no concílio Vaticano, declarado que, se violado esse princípio, sua consciência sofreria pressão intolerável e se cometeria o mais grave dos crimes. Mas, embora se exigisse liberdade plena nas reuniões, os adeptos do papa se utilizavam de artifícios que tiravam toda liberdade aos opositores; uma verdadeira lei da mordaça. Bastava assinatura de dez padres para propor-se o encerramento, quando encerrar era vencer. ‘Que dignidade tem essa assembléia? Haverá coisa igual, na América ou na Europa? Alguém que leve a sério suas deliberações? Isso é escândalo para o mundo. O impossível sucedeu.’ O sínodo de 1870 teve imoralidades sem conta: expulsão da tribuna daquele que apresentasse objeções à infalibilidade; ameaças aos bispos orientais; desprezo à igreja caldaica; violências aos patriarcas da Babilônia e da Antioquia; falsificação de documentos oficiais; ‘Como esquecer esse terror exercido aos opositores, que não mais ousavam assinar protestos, pois eram comparados aos que crucificaram o Cristo? Essa assembléia não se respeita a si mesma. E animam-se, ainda, a falar de liberdade!’
Esse concílio foi chamado de Farsa do Vaticano, ‘principiou por uma cilada e terminou com um golpe de estado, mas haverá quem, no futuro, arrependido, soluçará no travesseiro da morte’.
A falsificação, exercida desde muitos anos sobre as fontes da literatura eclesiástica, foi usada nas atas: a infalibilidade, não claramente definida na ata final, foi estabelecida em plenitude absoluta com um adendo no dia da proclamação solene. De ‘as decisões do papa romano são de si mesmas irreformáveis’, passou para ‘irreformáveis por si mesmas, e não pelo consenso da igreja’, que os romanos não haviam ousado colocar em discussão. Um oposicionista inquirira várias vezes: ‘Excluis, ou não, o concurso dos bispos? Dizei-o se sois capazes?’, porém os infalibilistas respondiam com evasivas deixando não resolvida a questão. Essa dúvida o adendo cortou pela raiz, depois de já encerrado o concílio. Semelhante ardil seria difícil de crer, se o fato não fosse testemunhado por muitos, tendo um escrito ao arcebispo de Munique: ‘Há no decreto um adendo não discutido, que, após encerrado o concílio, quando muitos e vós vos havíeis retirado, foi intercalado. Aquilo que na essência não significava nada mais que um ato de respeito ao pontífice de Roma, inesperadamente transformou-se num dogma terrível que só o futuro ajuizará. A posteridade poderá verificar esses vícios radicais nos registros da própria igreja. A fé cristã não é, nem será nunca, a ditada por essa ignóbil e cega ‘divindade’ assentada no trono de S.Pedro’.
Houve lances de coragem de bispos contra a autocracia papal, trazendo perigo iminente aos reclamantes, que se retratavam rapidamente, sinal de que a igreja estava se degenerando. Os nomes de bispos e leigos que não aprovaram, foram eliminados do rol dos ilustres da igreja cristã.
A história não deixa dúvidas de que os interesses temporais invadiram inteiramente a igreja romana, enorme associação política de disciplina e organização maravilhosas, mas dominada por absolutismo terrível. De origem divina que se reputava em seu início, a infalibilidade a transformou em simples instituição humana, cuja política se modifica conforme suas conveniências. Mil e novecentos anos viveram os cristãos sem suspeitarem esse dogma que veio a ser ‘o princípio fundamental da fé cristã’. Dezenove séculos depois de Cristo, inventaram isso que veio sujeitar a doutrina e a igreja à vontade do pontífice romano, a igreja que, no começo, deveu a existência a uma democracia religiosa, que do IV ao IX século foi obra quase exclusiva do Oriente, onde, nesse período, houve todos os concílios gerais, a cujas decisões o Ocidente curvou-se, embora sua participação fosse quase nula, e nem era conhecido o pontífice romano, ao qual, durante os primeiros seiscentos anos, nenhuma igreja se filiou. ‘As igrejas da Itália, Espanha, Gálias se tornaram cristãs sem o concurso de Roma, com quem não guardavam nenhuma dependência; eram irmãs dela, não filhas.’
‘A infalibilidade do papa é uma instituição que lhe dá um poder bem maior que o poder da igreja inteira. Porque há de ser esse imenso privilégio agora feito dogma, se dele a igreja não necessitou em dezenove séculos, pois que sempre foi menos aceito do que a infalibilidade da igreja inteira? O governo da igreja sempre foram os concílios, que decidiam nas questões de disciplina e fé e em todos os interesses da igreja.’ Com o novo dogma, os bispos são rebaixados de irmãos a servos do papa; os féis, levados a uma idolatria perigosa por estar ornada com hipócritas exterioridades e dogmas inventados. Quem investigar, na história, a doutrina da primitiva igreja, verá que a de hoje é puro paganismo. Graças ao papado, a religião de Cristo desapareceu, permanecendo à superfície, adulterados, apenas os símbolos sagrados. Diz-se libertadora, mas o que deseja é o domínio da hierarquia papal; diz-se amiga dos povos, mas é apenas amiga dos tiranos abomináveis e retrógrados, quando a favorecem. Destrói o governo temporal de Juarez, excomunga a Itália, arrasa o progresso constitucional da Bélgica, abençoa o regime cruel de Portugal, Espanha, Nápoles, Inglaterra; prejudica a França; institui a obrigatoriedade perpétua do dízimo, a garantia do direito de asilo, o cristão como culto oficial e único.
As pessoas não dadas a estes estudos são levadas a freqüentes enganos ou à indiferença acerca da teologia cristã atual. O rótulo que traz faz crer seja ainda a doutrina revelada por Jesus. Mas uma pesquisa maior sobre a doutrina evidenciará que a infalibilidade nada mais é que criação terrena, invento de uma política tendente à exploração da sociedade inteira, e que se diz de origem divina. Toda as soluções, que antes eram obra dos concílios, isto é, da palavra da igreja inteira, agora são substituídas pela palavra do papa. O legislador do dogma é o papa; a assembléia simplesmente ouve e aceita.
Os bispos perceberam o que se aproximava: ‘Desejam que o próximo concílio’, bradava o bispo de Orleans, ‘pronuncie decreto que suprima os concílios? Que os bispos decretem sua própria renúncia?’ Mas, todos os protestos foram em vão. E o bispo de Roma promovido a bispo único da cristandade inteira, pode, ele mesmo, definir sua supremacia infalível. Rebaixados, bispos não mais tinham o direito de se imporem como órgãos reveladores da fé. ‘Por que o papa há de consultar bispos que estão, individualmente, sujeitos a erros? Não é isto razão para o papa se consultar a si mesmo, pois só a ele Cristo prometeu infalibilidade? O concílio é que deve sujeitar-se às decisões do papa. Que razão há para julgar o concílio como um novo Messias? O que está escrito é que a fé de Pedro não falhará’. Para qualificar de herética qualquer doutrina, basta, agora, que o papa infalível a condene.
O Arcebispo de Reims afirmou que os bispos assistentes, mudos, que só foram convidados para uma cerimônia de beatificação, serviram apenas para decorar a cena. O bispo de Chartres escreveu um memorial logo abafado pela cúria romana: ‘O neocatolicismo, ou marianismo, tornou-se incompatível com o progresso científico, político e social. Afastando-se das classes cultas, virá a ser a religião do campo, onde, como o paganismo, irá morrer. Para o comum dos homens está estancada a vida intelectual e moral. O reinado do papa Pio IX iniciou a suprema decadência da igreja católica’. O papado absorveu a igreja, que agora lhe pertence. De ora em diante, a religião não tem mais existência própria. Cardeal Manning: ‘Não é a doutrina da igreja que vai determinar a do papa, mas a doutrina deste é que determinará a da igreja.’ Não há mais limites à autoridade papal; os bispos, aceitando-a, não podem mais julgá-la. O que o papa decretar tem de ser aceito, obrigatoriamente, por todos como artigo de fé. O contrário importa em, no mínimo, excomunhão.
Mansi, papista, protestou: ‘Que sínodos examinaram a questão? Que doutores o papa convocou a si? Onde as preces solenes para invocar o Espírito Santo? Se não efetuou todos esses preliminares, então não ensinou em caráter de mestre e doutor de todos os fiéis. Assim, fique ciente o papa, que não o reconhecemos por infalível.’
Phillips dizia: ‘O pontífice fala ex-catedra toda vez que do alto de sua cadeira, fala ou escreve, como órgão de Jesus Cristo, cujo lugar ocupa, em nome dos apóstolos S.Pedro e S.Paulo.’ Os maiores teólogos defensores da infalibilidade não conseguiram explicar nem assegurar que não há erros humanos na fala papal. De Maistre: ‘A partir de agora, a obrigação imposta ao papa de só sentenciar conforme os cânones é passatempo de crianças. Não havendo juízos sem juizes, se o papa errar, quem o julgará? Quem nos assegurará que ele obedeceu aos cânones ou quem o forçará a guardá-los?’ P.Jacinto: ‘Tão aderente vai ficar, daqui em diante, a infalibilidade do papa, que nas suas mãos está solucionar as mais graves questões sem o juízo do episcopado.’
Os papistas: ‘O tribunal de Deus e o do papa são uma mesma coisa’. E, mais: ‘O novo dogma subordina o poder civil à autoridade religiosa: os príncipes são obrigados a apoiar a igreja, até com a espada, quando ela o exija. Os direitos dos reis e dos povos lhe estão subordinados’; ‘O papa é infalível; não pode errar, mesmo que o queira’; e ainda ‘Os limites da soberania papal não lhe vêm de fora, mas da sua própria vontade.’
Ao mesmo tempo, dizia no concílio Vaticano, um dos prelados: ‘Na definição desse novo dogma há evidentíssimos erros e conseqüências tremendamente perigosas, quando fixa em quem, em assuntos de fé e de costumes, deve crer a igreja toda.’ E mais: ‘Todas as questões humanas, sejam quais forem, recaem, por direito divino, na jurisdição do papa. A ninguém é lícito suspeitar da sua competência, sem que se rebele contra Jesus Cristo.’ ‘S.Pedro reina sobre tudo e todos, como o Cristo. Em tudo o que toca aos direitos de Deus e da igreja, são-lhe subordinados os reis, seus súditos, as leis e as pessoas. É seu direito ensinar ao universo, à família e à igreja.’ E esquecem as Escrituras que dizem: ‘Tudo quanto fizerdes, em palavras ou obras, fazei-o em nome de Jesus Cristo’ ou ‘Qualquer coisa que façais, fazei-o para glória de Deus.’
Ecclesia Christi: ‘Os pastores e fiéis, de que dignidade ou rito forem, estão individual e conjuntamente, por dever, subordinados ao pontífice romano, nas coisas dos costumes e da fé, e às igrejas espalhadas pelo orbe inteiro. Esta é a doutrina da verdade, da qual ninguém, sem perdição de sua alma, pode afastar-se. O papa é o único juiz dos fiéis, não cabendo a ninguém reformar suas sentenças, nem existe juiz que o julgue.’ ‘Mesmo em simples questões de procedimento, não admitimos que seja permitido a um católico negar obediência àquele que Jesus investiu na sua suprema autoridade.’
Os efeitos dessa onipotência papal viam-se por toda parte. O reino dos Paises Baixos, que consagrou a liberdade de culto e aboliu as incapacidades políticas fundadas em motivo religioso, conseguiu o rancor de Roma. Todos que votaram a favor dessas leis tiveram negada, mesmo na morte, a absolvição. Exigiu-se, na França, que parlamentares submetessem seus votos ao crivo dos confessores; e que não se lesse jornais que tivessem idéias não ortodoxas. A autoridade papal foi afirmada, entre outros, pelos seguintes cânones:
1.° Nos pontos controversos, cabe à igreja definir o que pertence à religião. Na dúvida, decidirá o poder de ordem mais elevada, a igreja. Sua divina missão seria ilusão se não fosse assistida por Deus. Em tudo quanto ensina, o papa é infalível, assim de fato como de direito.’
2.° No conflito legal entre o estado e o papa, o árbitro é o próprio papa, autor e réu, mas sempre juiz supremo do litígio.
3.° Nas matérias temporais que toquem, ainda que levemente, o fim espiritual do homem, o poder civil tem o dever de submeter-se à igreja romana.
4.° Uma lei civil que contrarie, de que modo for, um cânon papal, cessa de ser lei. Lei oposta à lei da igreja não é lei.
5.° As sentenças, doutrinas, atos, decisões do papa, que é o juiz de todas as igrejas, todos os tribunais, todos os poderes terrestres, não podem ser recusados, modificados nem condenados por ninguém.
6.° O papa é Cristo na Terra. É, em relação ao Cristo, quanto à autoridade, o que o Cristo é para com Deus, seu pai.’
Essa idolatria levou a igreja romana a desatinos. Há 4 anos, o sacerdote de Kinzelmann afirmava, nos seus sermões: ‘Estamos os padres tão acima dos governos, imperadores e reis do mundo, quanto o céu acima da terra. Os reis e príncipes diferenciam-se dos padres quanto o chumbo do ouro mais fino. Muito abaixo dos padres estão os anjos e arcanjos, porque o padre pode, em nome de Deus, perdoar os pecados, e os anjos não podem. Nós somos até superiores à mãe de Deus, porque ela o deu à luz só uma só vez, e nós o fazemos todo dia. Sim, os sacerdotes estão até, de certo modo, acima do próprio Deus, pois que ele deve achar-se, a todo tempo e em toda parte, à nossa disposição, e por ordem nossa baixar do céu para a consagração da missa. Deus criou o mundo; mas nós, padres, criamos o próprio Deus todos os dias. Aí está porque, ao tempo em que ainda era verdadeira a fé, os padres eram tão venerados; reis e imperadores se prostravam aos seus pés e, hoje, ao invés, ousam perseguir e prender os sacerdotes zelosos da fé’. Essas palavras não eram sinal de loucura. Prendem-se a tradições doutrinais, famosas na história do jesuitismo. Em 1718, foi publicado o Ato de fé dos novos católicos que contém, entre outras, as declarações abaixo:
‘3.° Confessamos e cremos que o pontífice romano é o vigário de Jesus Cristo; que pode, à sua vontade, absolver os homens do pecado, preservá-los do inferno, ou enviá-los para lá.
4.°... que todas as novas instituições criadas pelo papa, alheias ou não à Escritura, e tudo quanto ele tem determinado é verdadeiro, divino e santo, devendo o comum dos homens prezá-lo mais que aos mandamentos do Deus vivo.
5.°... que o Santíssimo Padre deve receber honras divinas com as genuflexões mais profundas como se fosse o próprio Cristo.
6.°... que todo e qualquer padre é maior que a mãe de Deus, Maria, que apenas deu à luz Nosso Senhor uma vez, enquanto um padre romano cria e sacrifica Jesus Cristo, não só em intenção, mas em realidade, onde quer que lhe pareça e, depois, ingere-o inteiro.
11.°... que o pontífice romano tem o poder de alterar as Escrituras, acrescentá-las ou diminuí-las, segundo sua conveniência.
19.°... que a Santa Virgem deve ser tida em mais apreço pelos anjos e pelos homens que o próprio Cristo, filho de Deus.
20.°...que a fé romana é universal, imaculada, divina, santificante, antiga e verdadeira... e por conseguinte, a religião romana é absolutamente perfeita, em todas suas definições; amaldiçoamos todos que ensinaram essa heresia repulsiva (a fé evangélica), bem como a nossos antepassados que nos educaram nessa crença herética, aos que nos têm feito duvidar da fé católica; amaldiçoamos a nós mesmos por bebermos dessa heresia da qual não nos convinha beber.
21.°... que a Sagrada Escritura é imperfeita e não passa de letra morta se não for explicada pelo pontífice romano, ou enquanto não for permitida sua leitura ao comum dos homens.
Levado o pontífice a essa perfeição, onipotente, onisciente e divina, a ninguém mais é lícito desobedecê-lo. Estavam os fiéis entregues à tirania insaciável de um homem endeusado. Essa idolatria, segundo historiadores, ‘transformou o cristianismo em puro paganismo’, e as lições do Evangelho se apagaram. E ai daqueles que não se submeterem! Do púlpito, das sacristias, da imprensa, das pastorais, o clero os perseguirá sem piedade, lhes colocará o nome no lodo, transformará em escândalos suas obras mais puras; e os ferirá na memória e até nos descendentes. Entre inúmeros exemplos, vemos o de Montalembert, devotado ao serviço dos papas nas lutas políticas. Contudo, publicou protestos ao dogma, sendo por isso condenado pelo papa Pio IX, que lhe proibiu funeral cristão e, esquecendo-se de quanto já o elogiara pelo trabalho em favor da igreja, lançou contra ele, do púlpito, terrível oratória.
Conforme Rui Barbosa ‘essa usurpação tenebrosa porém há de passar. Negreja, na fronte dos papas, na púrpura de sua realeza, nos blasfemos dogmas e obras de iniqüidade, podridão e morte, o sinal da besta’. ‘Vide, a besta se levanta; e sobre as cabeças de todos blasfema’.
3. Incompatibilidade entre o papado e as constituições modernas.
Com o advento das constituições que admitiam liberdades como a de pensamento e de culto, ‘Tendo o papa condenado esse liberalismo, causou profundo espanto entre os católicos liberais, que supunham que ele errava; é que não compreendiam essa nobre audácia do depositário da verdade, esqueciam-se de que o papa é o mestre da doutrina, e que devem todos a ele sujeitar-se por ser o centro infalível da verdade.’ O grande físico Tyndall foi condenado como blasfemo por afirmar: ‘Confio em que a ciência, atuando nos católicos, eliminará gravíssimos excessos e, entre eles, esses processos da Idade Média, que, com grande escândalo dos homens inteligentes do séc. XIX, têm sido novamente postos em uso.’
Mas, os romanistas afirmavam: ‘Santíssimo Padre, nossa dedicação por vós é ilimitada. O que credes, nós cremos; o que quereis, queremos. Estamos determinados a ser sempre defensores de todas as doutrinas, de todas as declarações e recomendações do infalível sucessor de Pedro.’ E Pio IX, numa encíclica que condenava as heresias dos estados liberais, recomendava aos católicos que ‘fugissem do contágio de tão tremenda peste’. Havia absoluta incompatibilidade entre a doutrina da igreja romana e as constituições modernas, inclusive a do Brasil, por defenderem os direitos civis, a paz, a liberdade e o progresso.
4. Concordatas
O catolicismo subverteu o papel do estado, suas funções, direitos e deveres. ‘Em conseqüência da sublime superioridade da ordem espiritual sobre a temporal, a igreja não pode sujeitar-se ao fim do Estado, nem pode ser sua igual; é o Estado que, pelo contrário, deve se sujeitar aos fins da igreja.’ E ‘A igreja é a lei inalterável da justiça e da verdade, a base e regra dos deveres e direitos. O poder temporal, que detém a força, deve com a força obrigar os rebeldes a submeter-se a essa lei, pois o Estado é, necessariamente, subordinado à igreja.’ Heresia monstruosa, incompatível com a doutrina do Cristo: a igreja é a cabeça infalível, o estado, o braço cego, seu servo. ‘Daí a obrigação rigorosa que tem o Estado, de cooperar com a igreja. Não há relações sociais que não reclamem a intervenção legítima da igreja, único juiz por direito divino. Se o poder civil não é competente para decidir os limites do espiritual, e a este cabe, com certeza divina, definir seus próprios limites, evidentemente este é o poder supremo. Por conseguinte, a igreja tem competência para fixar os limites de todas as demais jurisdições.’
Para o papado, a independência do Estado é um absurdo, como se pode verificar destas palavras do clero: ‘Príncipes e povos, de joelhos perante o Santo Papa! Eis aí a vossa independência!’ e Pio IX: ‘Em relação à causa de Deus, a vontade dos reis deve-se dobrar aos sacerdotes.’ ‘É evidente que incide em traição, quem erguer como princípio a completa independência do Estado. A autonomia absoluta do Estado é puro ateísmo. Nas relações com a sociedade civil, a autoridade da igreja tem o direito de reger a fé e os costumes, na ordem privada e na ordem pública.’
‘É dogma de fé que o Cristo, pelo seu representante, o papa, possui autoridade suprema sobre todos, e, assim, sociedades e indivíduos, são obrigados a submeter-se à Santa Sé e suas leis. Confiamos que a sociedade inteira, horrorizada com o abismo a que sua rebeldia a arrastou, reconheça por salvador e rei a Jesus Cristo; declare inimigos públicos os que prefiram a escuridão e a infâmia ao esplendor e glória que esse divino rei assegura; e encarregue o poder temporal, ao qual obedece, de defender sua realeza com a mesma energia que todo poder emprega para resguardar a si mesmo.’ E o bispo de Olinda: ‘Jesus Cristo, tendo falado em pessoa, mandando e legislando, no Monte Sião, continua a falar, mandar e legislar, no Vaticano, na pessoa visível do seu glorioso representante, o sumo pontífice.’ E o papa Gregório VII, no 7.° concílio romano: ‘Entenda o mundo inteiro que, se podemos obrigar e desobrigar no céu, podemos, na terra também, tirar e conceder impérios, reinos, principados, ducados e outros quaisquer senhorios dos homens, quem quer que sejam’.
O papa Inocêncio IV ensinava que as chaves entregues ao pontífice significam que Cristo constituiu Pedro e seus sucessores num principado múltiplo e eterno, sob cuja autoridade estão os impérios do céu e da terra. E o papa Bonifácio VIII: ‘Decretamos ser necessário à salvação crer que ao pontífice de Roma está sujeita a humanidade inteira.’
O papa Paulo IV: ‘Considerando que o pontífice romano possui sobre todos os reinos a plenitude do poder e que, da terra inteira, é o único juiz, sem que haja quem o julgue, pelo presente decreto, que vigorará para todo o sempre, determinamos que quaisquer pessoas, sejam quem forem, reis, príncipes ou imperadores, condenadas de heresia, além das penas de excomunhão, incorrerão, de imediato e sem processo, na privação de todo o poder, de toda autoridade, de todo e qualquer principado, reino, ducado ou império, e ficarão para sempre incapazes de os recuperar. Serão entregues ao braço secular, que os punirá com as penas de direito... Quanto aos que ousem defender, favorecer ou privar com esses condenados, serão declarados infames e destituídos de todos os direitos... Nem ouse ninguém se opor ao presente decreto sob pena de incorrer na indignação do Deus onipotente e dos apóstolos S.Pedro e S.Paulo.’
Tomás de Aquino afirmava ‘ser direito inegável de a igreja impedir que infiéis tenham autoridade sobre fiéis, pois os infiéis perdem os títulos de soberania que passarão para os fiéis. Se um rei afrouxar a fé empenhada a Deus, é dever conferido ao povo, quando ordenar o pastor supremo do gênero humano, cessar todas as obrigações de vassalagem’. Até mesmo um papa, Belarmino, por discordar e não usar desse poder, incorreu na pena de heresia.
Armados desse poder arbitrário, muitos reis foram depostos por papas, fatos para sempre registrados na história. Inglaterra, Portugal, Alemanha, Itália, França, e outras nações foram suas vítimas. Se caíssem no desagrado do clero, até aqueles que combateram os inimigos da fé eram punidos com a perda da coroa. A. Herculano, fiel historiador português, escreveu: ‘Dir-se-ia que a nenhum rei de Portugal era lícito repousar no túmulo, sem antes pelejar renhida batalha com a ordem sacerdotal.’
Vezes sem conta, o vigário de Cristo comandou guerras civis contra reinados, e sua afeição a príncipes e dinastias dependia sempre dos favores que destes recebia. A política dos papas retalhou territórios, anexou e escravizou estados, invadiu e alterou governos, depôs reis, ofereceu coroas como presente a príncipes dedicados à igreja, ateou lutas civis, fatos esses históricos impossíveis de refutar.
Cânones do 4°.Concílio de Latrão: ‘Notificar-se-ão os depositários do poder político a que jurem expulsar de suas terras os hereges notados pela igreja. Se, depois da advertência, nada fizer o senhor temporal, será, pelos prelados da província, excomungado, e, se ainda não se submeter, será denunciado ao sumo pontífice a fim de que este lhe declare os vassalos desobrigados de fidelidade e que se ofereça suas terras aos católicos, que delas se apossarão. Excomungamos, também, os encobridores dos hereges, que ficarão infames e excluídos de todos os direitos públicos, como o de receber sucessões e heranças. Se juízes, suas sentenças serão nulas; se réus, não será lícito a ninguém testemunhar em sua defesa; se advogados, não serão admitidos nos pleitos, etc’.
Contudo, Pio IX afirmava: ‘Os pontífices romanos nunca ultrapassaram os limites de seu legítimo poder, nem usurparam direitos de príncipes. O fim da igreja, nas lutas contra essas potências, sempre foi um só: evitar que elas se perdessem olvidando os interesses que lhes cumpria zelar. O papa é juiz absoluto das leis civis. Nele juntam-se, em plenitude, a autoridade espiritual e a temporal, porque é vigário de Cristo, que não era somente sacerdote, mas também rei dos reis e senhor de todos os senhores. Argüir semelhante culpa equivale a acusar todo o clero, a igreja inteira e, por conseqüência, o próprio Espírito Santo que a dirige’.
‘O papa é o ponto culminante dos poderes espiritual e temporal. O príncipe temporal, mesmo sendo príncipe, não deixa de ser súdito do papa. Pode o papa emendar, anular as leis civis, as sentenças dos tribunais temporais, como tem feito diversas vezes com leis votadas pelos modernos parlamentos. Cabe-lhe preceituar e proibir aos príncipes temporais certas ações, o abuso do poder executivo, tolher o emprego das armas, ou decretá-lo, se a defesa da religião o exige. Nos conflitos entre igreja e estado, pertence ao papa a decisão suprema. Se, porém, algum pontífice proferir um julgamento menos justo, essa lesão de direito não autorizará jamais resistência à igreja. Ainda que seja, pelo sumo pontífice, imposto um jugo quase insuportável, cumpre não desobedecer, mas sofrê-lo com paciência.’
Um notável estadista inglês: ‘Por mais terrível que seja a escravidão do indivíduo, nem isso satisfaz a igreja romana: também o Estado tem de ser seu escravo.’
Por haver, a revolução francesa, libertado as instituições da França da ação da igreja, o papa a denominou de ‘obra prima da tática infernal’. Seus princípios, que também constam da constituição brasileira e de outras, são para o papa, ‘absurdo, asneira, extravagância, estupidez, falsidade, ímpios e infantilmente presunçosos. É imperioso que a igreja faça guerra a essas ímpias instituições políticas que investem contra Deus e não cessam de fazer perversa hostilidade à igreja de Cristo.’
E o bispo de Olinda, evocando a Idade Média: ‘Os reis daquele tempo, por uma política infelizmente não usada em nossos dias, se julgavam mais independentes quando submissos à igreja romana do que quando senhores absolutos, e por isso ofereciam suas coroas aos sumos pontífices, para depois recebê-las mais santificadas e respeitadas aos olhos do mundo.’
Em 1875, um jornal católico dizia: ‘Cumpre reconciliar a França com Deus, isto é, reintegrar Deus nos seus direitos e a França nos seus deveres. Para isso importa: 1. Retirar para sempre da constituição o que nesciamente denominam princípios de 1789 (advindos da revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade), falsificação revolucionária dos princípios sociais do cristianismo, porque encerram o aniquilamento de toda a hierarquia e a subversão total da sociedade; 2. Trocá-los incontinente pelos princípios católicos, conservadores de toda a hierarquia social e única origem da liberdade, igualdade e fraternidade genuínas; 3. Restabelecer integralmente as sólidas bases da monarquia francesa, a fim de termos a verdadeira representação de todas as forças vivas do país e, assim, suprimir o sufrágio universal que jamais será senão mentira em proveito da cabala; 4. Eliminar do código o ateísmo, acabando com essa igualdade das diversas religiões; 5. Abolir o casamento civil; 7. Deixar, à igreja romana, liberdade plena de ação; 13. Reprimir, sem piedade, a liberdade da imprensa.’
As constituições de numerosas nações são excomungadas, pois criam liberdade de culto, pensamento, imprensa, e casamento civil. O papado as denomina ‘abomináveis agressões contra os direitos da igreja’, e as decreta ‘de passado e de futuro nulas’. Pio IX, lamenta: ‘Esses católicos liberais não me entram no coração!’ E o jornal do Vaticano: ‘O mundo só terá paz quando os supostos direitos do homem forem destruídos e os direitos de Deus e da igreja se tornarem a lei fundamental dos Estados’.
Jornal inglês: ‘É impossível conciliar o sistema de teologia cristã com o que chamamos civilização e progresso. Ninguém pode sequer imaginar uma tentativa nesse sentido. É como casar a luz com as trevas.’ E a igreja ameaça os recalcitrantes: ‘não se pode servir a dois senhores; ou se serve a Deus, ou ao Diabo.’
‘A igreja não fez as constituições e os costumes modernos: tudo isso foi feito a despeito dela e contra ela. O Santo Padre reprova as doutrinas relativas à liberdade política e civil, que por si tendem a fomentar, por toda parte, a revolta dos súditos contra seus soberanos. Essa rebeldia está em declarada oposição aos princípios do Evangelho e da santa igreja’. Essa afirmação, de que a igreja pregasse obediência aos príncipes, é total hipocrisia pois o que se vê, na história, é que a tiara sempre abençoou os príncipes mais sórdidos e cruéis opressores das nações modernas, toda vez que se prestassem a instrumento das pretensões da igreja. Quando as leis, no séc. XVIII, trouxeram a liberdade de culto, a igualdade dos cidadãos, o casamento civil, a justiça civil para julgar as questões matrimoniais, a oposição da igreja foi tremenda. Do púlpito, a igreja condenou essas leis; provocou insurreição do povo contra os governos; ameaçou os governantes; incitou o povo ao saque, para colocar a igreja no seu anterior domínio sobre o Estado. E o papa era chamado de ‘tutor fiel e anjo vingador da liberdade política’. ‘Nós’, dizia um bispo, ‘não podemos ceder. Só a guerra pode desfazer o que está feito, pois qualquer negociação política é inexeqüível. Não respeitamos as falsas leis temporais, senão porque a força as ampara. As verdadeiras leis vêm de Deus.’
Porém, com as constituições modernas, os governos católicos deixaram de ser submissos como antes. A declaração de 1791 constituiu, para Roma, o mais perigoso instrumento do princípio satânico entre os homens: ‘1791, data fatal. O que hoje se intitula regime parlamentar é a pedra angular desse detestável edifício que nos cabe destruir.’ O concílio do Vaticano afirmou que ‘o princípio que reconhece o direito de soberania das nações não se origina de Deus’ e que, ‘sem fazer conta dos mais certos princípios da sã razão, atrevem-se a alegar que a vontade do povo constitui a lei suprema. O direito da soberania do povo é inimigo do direito cristão.’
O sínodo tridentino decretou: ‘A dízima é devida a Deus; os que não a querem dar invadem bens alheios e serão excomungados sem esperança de absolvição enquanto não for quitado o débito’. Explica-se que, mesmo todos reconhecendo a igreja profundamente daninha, esta continuasse seu domínio, porque, naqueles tempos, era grande a ignorância, o atraso da ciência, da liberdade dos povos, do direito civil. Quando, na Itália, uma lei extinguiu a obrigação do dízimo, a igreja declarou: ‘Vossa lei é de pleno direito nula, porque infringe a constituição que Deus deu à sua igreja. Ou ignorais que foi o Senhor quem instituiu os dízimos?’ Na América, a extinção foi anulada por Pio IX como ‘oposta à divina instituição da igreja, aos seus divinos direitos e à sua autoridade suprema’.
O direito de asilo, ainda vigente no séc. XIX, implicava na impunidade oferecida pela igreja ao crime. Centenas de clérigos assassinos enchiam conventos e templos, fugidos de sentenças civis; dizia-se que ‘homens de má vida erguem tendas no pátio dos templos, lugar seguros para eles, onde guardam todo gênero de armas e furtos; acompanham-se de mulheres perdidas e saem dali para praticar seus crimes’. A polícia via, impotente, criminosos procurados serem acolhidos nas igrejas e propriedades clericais, e ali rirem dos tribunais civis. ‘Se o papa dissesse uma palavra, o abuso do asilo, insulto à autoridade civil, estaria reprimido. Mas, não diz, talvez para mostrar que os privilégios da igreja são superiores aos da humanidade. A casa de Deus dando agasalho ao crime impune e triunfante é, com certeza, enorme blasfêmia contra a divindade’.
Outra instituição absurda foi o foro especial ao clero: ‘O ministro de Deus é inviolável. O respeito a Deus não permite que ele seja confundido com os demais. A autoridade do papa está acima de todas as autoridades. Os eclesiásticos transgressores das leis civis não podem ser levados aos tribunais civis, mas ao da igreja, e o juiz temporal só pode puni-los se a igreja assim decidir.’ A igreja declara que as leis que extinguem o foro especial não são obrigatórias ao clero; proíbe obedecer à intimação da justiça civil e comparecer frente a juízes seculares, e determina que não se entregue à justiça temporal os criminosos refugiados nas igrejas. ‘Seja qual for sua moral e ainda que pareça, pelos hábitos profanos, demasiado com o vulgo, o sacerdote é pessoa sagrada e assim devemos considerá-lo.’
No séc. XVIII, Pio VI excomungava os que negavam à igreja católica o monopólio do Estado e os governos que permitiam a imigrantes a prática de seus cultos de origem. Enquanto Tiago e Paulo afirmam que a Boa Nova é a lei perfeita da liberdade e que o evangelho fez a todos os irmãos, o direito canônico reza que a mais nobre das liberdades, que é a de pensamento, é incompatível com a fé cristã. ‘A lei de Deus e da igreja, constituição suprema de todos os Estados e única infalível, condena essa liberdade abusiva, e proclama que todas as leis humanas juntas não conseguem enfraquecer a força da lei do legislador supremo, o papa. ’
‘Tem a igreja católica o direito de impor aos cristãos, desde penas leves, como jejuns, até severos castigos corporais, quando infrinjam suas leis, prisão por tempo ou por toda a vida, açoites paternais, principalmente aos cismáticos e heréticos. A igreja usou sempre desse direito, toda vez que o pode, nos limites de uma discreta moderação (veja-se a ‘moderação’ na inquisição, no extermínio dos protestantes, nos processos de feitiçaria, na lei da mordaça etc.) e, se não tem podido agora usá-lo, é efeito destes tristes tempos. Recentemente, o monge que se tornou protestante foi preso e enclausurado, por caridade, para expiação de sua falta, com outro monge acusado de heresia (privados de livros e quase sem nutrição). É a igreja um reino espiritual, considerando-se seu fim. Mas, vista segundo as pessoas que a compõem é, também, reino temporal e os atos pelos quais ela as governa são exteriores e visíveis. Num reino assim, é mister um poder supremo, habilitado a dirigir os membros de modo tangível, não sendo possível prescindir de penas exteriores, já que os homens podem desprezar punições apenas espirituais, como a excomunhão’ (1871).
Liberdades de pensamento, imprensa, culto, ensino, são, para Roma ‘perniciosíssimas e jamais assaz amaldiçoadas’. A constituição brasileira é, pois, uma série de atentados contra a igreja cristã. Entre outras coisas, só à igreja pertence o direito de ensinar; escola leiga é proibida. Ao cristão não é permitido trabalhar para não-cristãos, e, se filhos de pais não-cristãos são batizados, os pais perdem a autoridade sobre eles.
‘Os legisladores pecam fazendo leis contrárias às da igreja. Arcebispos e bispos e todos os demais exercerão pleno direito de estigmatizar os livros contrários à religião e afastar deles os fiéis. O governo temporal, por sua vez, deverá prover, convenientemente, a não divulgação de tais livros.’
Os sacramentos eram obrigatórios; a omissão relativa à fé, convertida em delito civil. A polícia exercia contínua perseguição aos acusados de heresia, cujo número aumentava cada vez mais. ‘Em Roma, impera Deus. Se alguém se abstém da comunhão pascal implica em crime contra a igreja.’ O sino da Ave Maria marcava a hora de recolher-se ao lar, convertido em prisão; o domicílio particular, violado noite e dia, à vontade da polícia; passaportes de suspeitos, recolhidos por anos e anos; as portas das cidades fechadas. Os processos, reduzidos a farsas, a defesa entregue a advogados desconhecidos do réu; os nomes dos acusadores ocultos aos acusados; a pena de morte liberada em profusão (pelo representante de Jesus, que disse: ‘Pedro, embainha tua espada!’). Em sete anos, Ancona teve 60 execuções capitais, e Bolonha 180, por delitos contra a Sé. Os números, nas nações cristãs, eram tão grandes que a igreja os ocultava. Aos criminosos clérigos e fidalgos servis, a mais absurda clemência, a par da severidade desumana com os mais insignificantes delitos contra clérigos; imprensa independente sufocada; no tribunal da inquisição, intolerância total e tortura; o culto oficial anulando a cidadania aos judeus, proibindo-lhes as carreiras administrativas, o direito de propriedade, o trabalho na agricultura; as escolas regidas pela pedagogia jesuítica; a loteria elevada à santa instituição do estado, presidida pelo sumo pontífice mesmo, e aberta até nos dias santos; as verbas públicas consumidas em construções de mais e mais igrejas; colheitas e tributos quase todos para o luxo das igrejas e do Vaticano.
‘Protestamos contra a lei que aboliu o tribunal da santa inquisição, negando suas sentenças e ameaçando com graves penas aqueles que as pronunciam. A uma sociedade perfeita como a igreja, é direito inato empregar os meios que lhe pareçam apropriados a seu fim que é a salvação das almas. Um desses meios é o tribunal da santa inquisição que, por sua natureza, apenas tem intuito de velar pela segurança e integridade da doutrina ensinada por Deus, preservar os fiéis do erro, evitar corrupções e escândalos que possam prejudicar a propagação da fé católica. Sentimos um misto de horror e dó ao ver tais leis tentarem suprimir, da legislação de povos ditos civilizados, a igreja perfeita. Se interrogassem as miríades de gerações que, há dezenove séculos, têm abraçado o catolicismo, elas responderiam, indignadas, que os caridosos processos da santa inquisição, mero tribunal de penitência, tendem, sinceramente, à maior felicidade dos pobres desgarrados, e limitam-se a emendá-los por advertências e penas medicinais. Será isso tão contrário aos princípios da civilização, que se necessite eliminar da legislação dos povos tão excelente tribunal?’
O cristianismo transformou-se em veneno contra a sociedade. Do Deus, que é conhecido pelo espírito de amor, só restam vestígios profanados, destinados à dominação política. O marianismo, exploração da credulidade feminina; a adoração de imagens; a beatice das relíquias; as romarias, peregrinações, novenas, jubileus, procissões, herdadas dos costumes pagãos e criminosamente santificadas; a impostura das aparições sobrenaturais; a fraude dos milagres multiplicados com freqüência, em desafio à ciência e aproveitando-se das crendices e superstições do povo, como retorno à idade média; o esquecimento total da Bíblia, trocada por catecismos e livros de devoção idolátrica; o ritual pontifício com pompas orientais em fragrante desrespeito à história sagrada; a substituição da primitiva literatura cristã por um dilúvio de falsificações produzidas pela igreja romana. Todas essas corrupções da igreja mataram as lições do Evangelho, disfarçando, com seus títulos cristãos, uma poderosa conspiração contra o direito, a razão e a consciência do ser humano.
Bênçãos de imagens, santinhos, terços, água, alianças, navios, canhões, objetos os mais variados, doentes, escolas, fábricas, repartições públicas, inaugurações; um monte de histórias de endemoninhados e exorcismos; indulgências vendidas à mão cheia; abuso de cerimônias exteriores, de sacramentos, música, fogos ruidosos, luzes, aparato militar, luxo, tudo combinado para tornar a devoção imaterial do homem para Deus, numa festa ruidosa, para atrair as pessoas, incompatível com a união silenciosa e íntima da alma com o Criador, na experiência mística. Diante desses mitos blasfemos, os fiéis se ajoelham e oram, acreditando, inocentes. Veja esta declaração da igreja romana: ‘Creio na subordinação do poder temporal ao poder espiritual e ao papa infalível; creio na liturgia romana, nas imunidades do clero, na dízima obrigatória, nos malefícios (bruxaria), e nesse piedoso mover de olhos das madonas cuja festa a igreja celebra. Creio em tudo quanto tem feito o papado, como útil, verdadeiro e santo’. ‘Em menos de três séculos, os papas produziram essa Roma tão rica onde a religião é uma festa perene.’
E a igreja enche-se com doações a troco de indulgências, venda de imagens, custódias para água benta (na forma do Sagrado Coração de Jesus ou de Maria, em cristal ou metais preciosos, a preços exorbitantes, mas cuja posse traria benesses dos céus). A exploração da credulidade é intensa: ‘A ponte de Santo Ângelo, onde estão as estátuas de S.Pedro e S.Paulo, é o limiar do Vaticano. Ali, uma breve oração lhe dará indulgências’.
Tudo que no cristianismo era puro e sublime e tendia a estabelecer uma união interior do homem com Deus, que é a razão do culto cristão, apagou-se. O que sobrou é algo sem alma e sem verdade, pasto para a credulidade supersticiosa dos ignorantes, e que se aproveita dessa ignorância para obter vantagens temporais.
Na Inglaterra, a igreja ignora os benefícios de um governo protestante, mas esclarecido, liberal e generoso, e provoca o ódio entre os de crenças diferentes; na Irlanda, provoca distúrbios, convencendo o parlamento de que o regime constitucional naquela parte católica do país não passa de utopia; na Bélgica, destrona duas dinastias, pregando desobediência à constituição; na Espanha, põe-se contra a constituinte e alimenta a guerra civil; na Alemanha, violando compromissos assumidos, promove, nos estados católicos, a tendência separatista; na Baviera, brada no parlamento: ‘Debalde formastes regimentos e regimentos; se forem católicos, passar-se-ão para nós’; em Baden e Wrtenberg, prega o conflito religioso; na Itália, excomunga o rei, que há pouco fizera a mais generosa lei a favor da igreja, dando ao papa honras, poderes e imunidades reais, privilégios de príncipes aos cardeais, ao papado, ricos palácios, declarados impenetráveis aos oficiais judiciários; franqueia-lhe correio e telégrafo, permite-lhe polícia especial, e assegura-lhe renda liberalíssima. Mas, tudo em vão. O pontífice agride o rei publicamente, excomunga professores da universidade leiga, seus estudantes e os militares que não desertam do exército do Estado.
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CHEQUES DA ABUNDÂNCIA
NA LUA NOVA.
«Que os Santos Seres, cujos discípulos aspiramos ser, nos mostrem a luz que
buscamos e nos dêem a poderosa ajuda
de sua Compaixão e Sabedoria. Existe
um AMOR que transcende a toda compreensão e que mora nos corações
daqueles que vivem no Eterno. Há um
Poder que remove todas as coisas. É Ele que vive e se move em quem o Eu é Uno.
Que esse AMOR esteja conosco e que esse
PODER nos eleve até chegar onde o
Iniciador Único é invocado, até ver o Fulgor de Sua Estrela.
Que o AMOR e a bênção dos Santos Seres
se difunda nos mundos.
PAZ e AMOR a todos os Seres»

A lente que olha para um mundo material vê uma realidade, enquanto a lente que olha através do coração vê uma cena totalmente diferente, ainda que elas estejam olhando para o mesmo mundo. A lente que vocês escolherem determinará como experienciarão a sua realidade.
Oração ao Criador
“Amado Criador, eu invoco a sua sagrada e divina luz para fluir em meu ser e através de todo o meu ser agora. Permita-me aceitar uma vibração mais elevada de sua energia, do que eu experienciei anteriormente; envolva-me com as suas verdadeiras qualidades do amor incondicional, da aceitação e do equilíbrio. Permita-me amar a minha alma e a mim mesmo incondicionalmente, aceitando a verdade que existe em meu interior e ao meu redor. Auxilie-me a alcançar a minha iluminação espiritual a partir de um espaço de paz e de equilíbrio, em todos os momentos, promovendo a clareza em meu coração, mente e realidade.
Encoraje-me através da minha conexão profunda e segura e da energia de fluxo eterno do amor incondicional, do equilíbrio e da aceitação, a amar, aceitar e valorizar todos os aspectos do Criador a minha volta, enquanto aceito a minha verdadeira jornada e missão na Terra.
Eu peço com intenções puras e verdadeiras que o amor incondicional, a aceitação e o equilíbrio do Criador, vibrem com poder na vibração da energia e na freqüência da Terra, de modo que estas qualidades sagradas possam se tornar as realidades de todos.
Eu peço que todas as energias e hábitos desnecessários, e falsas crenças em meu interior e ao meu redor, assim como na Terra e ao redor dela e de toda a humanidade, sejam agora permitidos a se dissolverem, guiados pela vontade do Criador. Permita que um amor que seja um poderoso curador e conforto para todos, penetre na Terra, na civilização e em meu ser agora. Grato e que assim seja.”
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