(21) ZEN, O CAMINHO DIRETO (Jan 2008)
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ZEN BUDISMO, de Johnston.
Johnston, no exercício das funções de sacerdote católico, esteve vinte anos no Japão onde estudou e praticou o Zen. Ele afirma que o Cristianismo necessita, com urgência, das práticas e ensinamentos do Zen pois, sem isso, continuará sendo, apenas, uma religião vazia e que não leva a nada.
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INTRODUÇÃO
...Parece (?) que, num acesso de humildade, a inflexível Igreja Católica sente que tem a ganhar com o Zen Budismo. Se eu tivesse ficado na Irlanda, minha terra natal, em vez de ter ido para o Oriente, eu não passaria, hoje, de um cristão intolerante a atirar pedras nos protestantes nas ruas de Belfast. O Zen ensinou-me que no Cristianismo há possibilidades insuspeitadas. Hoje, pratico Zen como um modo de aprofundar minha fé cristã, prática que, para muitos cristãos, é ateísta, panteísta ou sem sentido. É que eles não sabem que a sabedoria mais elevada encontra-se, não nas idéias distintas e claras, mas no silêncio tranqüilo do cérebro que vai além de todo pensamento, raciocínio, imagem ou desejo.
...Depois que me levou a conhecer os templos orientais, o budista disse que queria conhecer um templo cristão. Fiquei profundamente desconcertado, pois me dei conta de que não havia um templo cristão aonde pudesse levá-lo com esperança de que ele se sentisse edificado. Templos cristão, comparados aos orientais, se parecem mais com escritórios. Era evidente a diferença.
Nas igrejas cristãs nada se ensina sobre meditação e nem se recomenda sua prática. Contudo, no Zen (palavra que significa meditação), é o que mais se pratica e quase não há qualquer doutrina. Esse tipo de meditação, em silêncio, sem pedidos, imagens, sem palavras, nem mentais, não era novo para mim, pois eu já lera ‘A nuvem do desconhecido’ e João da Cruz, místico cristão (‘renunciai tanto aos maus quanto aos bons pensamentos’). Todo pensamento discursivo deve cessar a fim de que possa emergir, das profundezas do ser, o ‘cego impulso do amor’.
...Os mestres Zen dizem: ‘Não quero saber de seus problemas de saúde ou familiares etc.; tudo que quero saber é sobre sua prática da meditação’. Isso é o oposto da atitude dos orientadores cristãos, que indagam sobre os problemas práticos da vida, mas se esquivam da questão fundamental que é a meditação. Mas, os roshi (mestres Zen) são conhecedores profundos do funcionamento da mente humana, o que lhes permite guiar as pessoas ao satori pelo caminho da meditação.
... O roshi me perguntou: ‘Como está indo? ’... Eu: ‘Minhas pernas doem que mal as agüento’... Ele: ‘Estique-as! Mas, o que pergunto é como está indo na meditação?’... Eu: ’Tenho praticado muito; em silêncio, sento-me, sem que me ocorram palavras, pensamentos, imagens ou idéias’... ‘Está imbuído da presença de Deus?’... ‘Estou. ’... ’Muito bem! Continue assim! Acabará descobrindo que Deus irá desaparecer e somente Johnston permanecerá. ’
Isso me chocou como radical negação de Deus e de tudo que eu julgava sagrado. Eu aprendera que há momentos em que o ‘eu’ desaparece e somente Deus permanece. Disse-lhe: ‘Deus desaparecerá? Johnston é que pode desaparecer e Deus tomar seu lugar!’ O roshi respondeu com um sorriso: ‘É a mesma coisa’.
Mais tarde, refletindo, vi que ele não negava a existência de Deus; estava negando a existência do dualismo Eu-Deus, Eu-Tu. Estava dizendo que tudo é Deus, ou que tudo é Um.
...Percebi que os cristãos japoneses têm importante papel na renovação da igreja cristã: trazer a meditação para o Ocidente, e levá-la às igrejas. Mas, isso será inútil se o Cristianismo não fizer renovação completa na sua metodologia mística, precisamente no aprofundamento das práticas contemplativas.
É terrível essa concessão dada, ao Cristianismo, do privilégio da representação divina e deixar, ao budismo e hinduísmo, só algumas migalhas de profecias; contudo, descobri que budistas e hinduístas não se importam nada com isso, ao passo que, só recentemente, parece, estão sendo dissipadas as trevas da intolerância da igreja cristã referente ao assunto.
...Nas reuniões de cristãos e budistas, todos falavam de suas experiências religiosas, sempre encontrando um traço de união entre elas, o que mostra que a vida interior de budistas e cristãos tem muito em comum. Contudo, não se conseguia enunciar qualquer proposição filosófica, doutrinária ou teológica com a qual todos concordassem.
MONISMO x DUALISMO
Sugeri a um amigo budista trocarmos idéias acerca de nossas concepções sobre Deus. Ele disse: ‘Você acredita que é possível falar sobre Deus, o nada, o vazio? Isso é impossível. Você é o próprio vazio, o nada, Deus. Tudo é uma coisa só’. Essa é a concepção que perpassa todo o Zen: ‘não existe nenhum Eu e Tu, nenhum Deus e Eu. Tudo é uma coisa só’.
Certa vez, Suzuki falava sobre o silêncio, o vazio e outras coisas quando, um ouvinte, irritado, exclamou: ‘Mas, e a sociedade? E os outros?’’ ao que Suzuki, com um sorriso, observou: ‘Mas não existe nenhum outro!’ (Não existe nenhum outro, como não existe nenhum eu. Todos somos um só).
...Um roshi falou sobre a experiência que o arrebatou em êxtase jubiloso. É impossível descrever ou explicar o satori, disse ele, mas as palavras de Jesus: ‘Antes que Abraão fosse, Eu sou’ conseguiam exprimir a revelação. Era isso a perfeita prática: nenhum objeto, imagem, ou dualidade; apenas Eu, Eu Sou. Essa é a expressão perfeita do satori. A compreensão de que ‘Eu sou’ emerge das profundezas do iluminado. Esse Eu não é ‘meu eu’, feito de lembranças, expectativas e desejos. É o ‘fundamento’ do ser, a alma do universo, a voz do ‘grande Eu’ que anula toda consciência de ‘meu eu’ e se afirma como tudo que existe. Compreendi, então, que quando Jesus disse ‘Eu sou’ ele se referia, não ao ‘eu’ de um indivíduo, mas à palavra eterna (logos) pela qual todas as coisas foram criadas. Em Jesus não havia mais a personalidade humana, mas o Pai (‘Eu e o Pai somos um’ ou, como Paulo disse: ‘Não sou mais eu que vivo, mas o Cristo é que vive em mim’).
...Toda religião digna desse nome ensina a orar. Podem ser pobres em teologia e organização mas, se dão atenção à oração e à meditação, devemos respeitá-las pois tentam cumprir seu papel.
No budismo e hinduísmo, sempre houve mestres que dominaram a tal ponto a arte de meditar que podiam orientar seus discípulos pelos caminhos da mente até a um plano além do ego. O Cristianismo, como o Judaísmo, de onde ele vem, tem tradição semelhante. Lembre-se de que os discípulos pediram a Jesus: ‘Ensine-nos a orar, como João ensinou seus discípulos a orar’. Julgavam Jesus um mestre de oração, como João e outros que percorriam aquelas terras. Os fundadores da igreja também ensinavam a orar. No seu tempo, Inácio de Loiola percorria Paris para ensinar como meditar. Seu método, ‘Exercícios Espirituais’, com que pretendia levar as pessoas á iluminação, é aplicado até hoje.
Contudo, esse método, como outros, foi erradamente interpretado, vindo a ser associado ao pensamento, raciocínio, enfim, à ‘oração discursiva’, que pouco atrai o homem moderno. O homem, da era da televisão, rádio etc., está farto de palavras e mais palavras. Necessita é de um profundo silêncio interior. Isso pode ser alcançado com o Zen, que apresenta técnicas simples para levar as pessoas ao silêncio e paz interiores e até mesmo à chamada ‘contemplação’ dos cristãos, como fazia a Primitiva Igreja Cristã com suas orações.
O Zen ensina o ‘distanciamensto’ de todos os apegos, até mesmo do apego ao eu. Isso para que outra coisa possa resplandecer em seu lugar: a natureza do Buda, ou do Cristo, a iluminação que traz o fim de todo o sofrimento e de todos os conflitos que afligem o homem. Na iluminação, a fé torna-se a convicção de que Deus está no mais íntimo de nosso ser. O que de mais verdadeiro existe em nós, não é nosso eu, mas o próprio Deus. À medida que o Zen se desenvolve, o eu desaparece e Deus vive e age em nós (‘Já não sou eu que vivo, mas o Cristo é que vive em mim’); nossas ações já não são nossas, mas de Deus, que é todas as coisas. Como Paulo disse: ‘Não existem coisas tais como o judeu e o grego, o escravo e o homem livre, o homem e a mulher, pois sois um só em Cristo’. Em resumo, os cristãos tirarão proveito do Zen para aprofundar sua fé cristã pois, aqui no Japão, um número crescente de cristãos, orientais e ocidentais, estão descobrindo isso com a prática do Zen.
Seria bom para as igrejas cristãs adotarem essa metodologia e começarem novamente a ensinar a orar. O triste é que frades e freiras estão ensinando todo tipo de coisas, de ciências a literatura, e poucos ensinam a orar. Nós, ocidentais, sentimos grande necessidade disso, porque a vida contemplativa está incrivelmente subdesenvolvida nas nações desenvolvidas. Por isso nossa civilização se tornou desequilibrada a tal ponto que não consegue diferenciar um ser humano de um computador. Quando isso ocorre na dimensão contemplativa, as pessoas são facilmente tomadas pelo ódio e fazem coisas absurdas, como vemos todos os dias. É horrível ver que isso está acontecendo com sacerdotes e freiras pois, enquanto deveriam encaminhar suas vidas para o satori, que deve ter sido o motivo pelo qual foram para a vida religiosa, sentem que nada tem sentido se não se puserem a se agitar e a fazer todo tipo de trabalho ‘em nome da caridade cristã’.
Os cristãos de hoje são como são, porque as igrejas cristãs projetaram a imagem de uma religião mais ‘igrejeira’ do que mística; muito mais bingos e festas do que orações; muito palavrório teológico e pouquíssimo silêncio cerebral. Palavras, palavras, palavras; exterioridade e não interioridade! É por isso que, o Ocidente necessita, com urgência, de uma transfusão de sangue do misticismo Oriental.
Se confrontarmos misticismo e cristianismo, o pomo da discórdia será a oposição entre o monismo (tudo é UM; não há eu e Deus) e o dualismo (eu aqui, Deus lá). Foi o que disse o roshi ao afirmar que Deus desapareceria e só restaria Johnston. É o que sugeriu meu colega Zen ao afirmar não ser possível sequer falar de Deus. Era isso que queria dizer Suzuki ao afirmar que ‘não há nenhum outro’ (pois tudo é UM).
O conflito monismo x dualismo é das questões mais controvertidas para os ocidentais desde há muitos séculos, tendo sido os cristãos advertidos quanto aos perigos do panteísmo e daquelas coisas ‘horríveis’ pelas quais pessoas como Eckhart (místico cristão) foram castigadas no séc. XIV pela ‘santa inquisição’ da igreja de Roma (condenação à morte pelo fogo).
Será o monismo contrário ao Cristianismo? Não! A meu ver, o Ocidente precisa urgentemente de um toque do monismo. Os homens o procuram e ele pode ser entendido num sentido cristão. O monge trapista, Thomas Merton, escreveu:
‘Parece, aos budistas, que somos dualistas, com a noção de Deus ‘lá’ e nós ‘aqui’, uma relação de eu-tu, sujeito-objeto. Isso, é claro, tornaria impossível o satori (porque o satori só pode ser atingido quando percebemos que ‘eu e o Pai somos um’, como afirmou Jesus). Se conhecessem Eckhart saberiam que ele afirma que, quando alguém se ilumina, se confunde com Deus. Ele se refere a uma experiência que se revela em todas as formas de misticismo. O misticismo cristão, na forma de noivo e noiva (dualismo; na bíblia: ‘Os cantares’, se Salomão), nos afasta consideravelmente do satori. Penso que os cristãos podem alcançar o satori tão facilmente quanto os budistas. Mas, para isso, é necessário ir além de todas as formas, imagens, conceitos, categorias e tudo o mais (além do ego). Mas, no Cristianismo de hoje, isso é muito difícil de ser aceito’.
E´ bom saber que, aquele que obstinadamente se empenha em obter o satori, nunca consegue. É preciso meditar sem a preocupação de alcançar ou não o satori ou qualquer outra experiência. Como diz o Zen, ‘se alcançar, tudo bem; se não alcançar, tudo bem’. O Zen nada tem a ver com crenças, religiões e está além de toda classificação. O fato é que, nas experiências místicas, indiscutivelmente, desaparece a relação sujeito-objeto, Eu-Deus. E isso não é ateísmo ou negação de Deus, mas um outro modo de sentir Deus. (É, ao contrario, a afirmação de ‘só Deus existe’).
Nos últimos séculos, o Cristianismo popular trouxe a idéia de um Deus dualista e antropomórfico. Digo Cristianismo popular porque, místicos como Eckhart, João da Cruz e outros, nunca incorreram nesses erros. Mas a tendência popular é, como não pode deixar de ser devido àquilo que ainda é pregado nas igrejas cristãs, crer num Deus situado num céu distante. Isso talvez se deva à interpretação literal da Bíblia: Deus a caminhar com Adão no jardim do Éden, ou enfurecido com o povo hebreu. E muitas passagens do Velho Testamento afirmam que Deus apareceu a Moisés e a outros na forma de homem, ou de anjo falando com eles e mostrando emoções e sentimentos próprios do ser humano. Seja como for, o Cristianismo popular faz que se tenda a crer num Deus antropomórfico situado ‘lá fora, lá em cima’.
Certamente um monge budista negará a existência de tal Deus, e dirá que, em suas meditações, jamais lhe ocorreu algo que se assemelhe a esse Deus, bem como negará a possibilidade de diálogo com um ser transcendental. Irá mesmo afirmar que essas idéias implicam na destruição do Zen, que é estritamente não-dualista, opondo-se de modo inflexível a todas as modalidades da relação sujeito-objeto. É preciso que os cristãos não se esqueçam da velha verdade filosófica, afirmada pelos místicos e aperfeiçoada por Tomás de Aquino, segundo a qual Deus não está em parte alguma: ‘Deus, simplesmente, é.’
Pode-se dizer que a supressão da relação sujeito-objeto não encontra base na Bíblia. Mas, a leitura cuidadosa pode revelar sementes da teologia da negação do dualismo. Não está ali em termos de vazio, vácuo; o judaísmo não usa essa linguagem, e toda a Bíblia, em particular o Velho Testamento, foi escrita segundo padrões judaicos. Mas tem seu modo de dizer que Deus é incognoscível, que não se encontra em parte alguma. Está claro na proibição do fabrico de imagens, na afirmação de que Deus não se parece com nenhuma dessas coisas, pois ninguém viu Deus. Conta-se que quando o conquistador Pompeu invadiu o Santo dos Santos, curioso para ver o que havia ali, nada encontrou (quanta semelhança com o budismo!); e mais, traços do misticismo, parece-me, estão por todo livro de Jó e de Isaías. Por outro lado, a vida do dia-a-dia nos ensina que existem muitas coisas, ao passo que a experiência Zen faz-nos ver que só existe uma.
‘Na experiência Zen, sem imagens, pensamentos, sem relação sujeito-objeto, sem qualquer diálogo, ‘eu’ me perco, não mais existo e Deus é tudo’ (Paulo: ‘Cristo é quem vive em mim’).
Cristãos convictos, educados no dualismo, relutam com todas as forças em aceitar o não-dualismo, como se isso significasse abandonar Deus. Observei isso, com freqüência, em cristãos que praticam o Zen. Esquecem-se que Paulo afirmou: ‘Já não sou eu que vivo, mas o Cristo é que vive em mim’, como também disse Jesus: ‘Eu e o Pai somos um’. Preferem orações discursivas, o famoso ‘Pai-Nosso’, e olham com suspeita as vestes e os pés descalços que lembram o misticismo oriental.
CRISTIANISMO E ZEN
A palavra Zen significa meditação e, logo, não é restrita ao budismo. Mas, não é qualquer forma de meditação; não aquela discursiva na qual entram imagens, raciocínios, pensamentos, emoções, promessas, decisões e agradecimentos. É um estado de consciência no qual se pode ver a essência das coisas. A prática deve se estender ao longo do dia, de modo que o Zen é ‘como’ caminhar, trabalhar, comer, como a própria vida. É uma meditação que não tem objeto, (nem objetivo), uma ‘meditação vertical’, como uma descida’ pelas camadas da consciência até as profundezas da alma. É chamada, também, de trevas, vazio, silêncio, nada, ou ‘noite escura da alma’ devido à ausência, na mente, de idéias, conceitos, imagens. Nela deve-se ‘buscar’, com atenção, não os pensamentos, mas o ‘lugar’ onde estes nascem. Independe de passado e de futuro; encontramo-nos no presente, no agora eterno. Isso pode culminar, um dia, na experiência do satori. As orações cristãs são cerebrais, discursivas, cheias de palavras e conceitos, enquanto os budistas procuram, numa palavra, ‘esvaziar-se’; esvaziar o cérebro de todos os pensamentos, conceitos, trazendo-lhe completo silêncio, ignorando-o.
Só se compreende o Zen pela prática e não existe nada que substitua a experiência (‘Venha e veja por você mesmo! ’).
Os ocidentais, tão ávidos de emoções (adrenalina), acham-se longe de se interessar pela meditação, pois nesta se procura o silêncio que foge a todo tipo de emoção.
O Zen exige enorme esforço da mente, da vontade e do corpo para conseguir cessar o pensamento. Não é deixar o pensamento vagar a esmo, mas uma atenção silenciosa e intensa. Dedicar-se, com toda a atenção, ao que se está fazendo (lavando louça, caminhando, comendo etc.) é praticar o Zen, como se estivesse sentado em meditação. É preciso renunciar, não aos vícios, álcool, fumo, mas a todos os pensamentos e desejos, até àqueles sobre o amor ou sobre Deus, e a todas experiências espirituais agradáveis ou desagradáveis. Ninguém chega ‘lá’, a menos que renuncie a tudo de mal ou de bom que existe. Esse o verdadeiro misticismo: não se deleitar com nada, não repousar em nada; e longe de nós a idéia de que buscamos uma experiência emocionante.
Na Europa medieval, havia grandes correntes cristãs, como as escolas e seitas místicas e ortodoxas. Todas tinham seus próprios métodos, resíduos do primitivo cristianismo, para levar ao silêncio e à paz além das palavras, imagens, idéias e desejos. Cada uma tinha sua própria denominação para a experiência: ‘o cego impulso do amor’, cego porque livre de qualquer pensamento e imagem, aproximando-se ao vazio; ‘intenção despida de vontade’ ou ‘nudez’, indicando completo abandono de todas as coisas; o discípulo deve ‘despir-se’ de todos os pensamentos para se aproximar de Deus. João da Cruz a denomina ‘chama viva do amor’, pois lança o ser num completo esquecimento de si mesmo e desperta amor (não apego) por todos os seres, ou ‘noite escura da alma’, devido à ausência de pensamentos, e ao desamparo de se perceber próximo à iluminação, mas ainda não lá.
‘Na prática da contemplação, deixai de lado todos os sentidos e operações do intelecto (pensamentos, imaginações, lembranças, expectativas, comparações, promessas, decisões, pedidos, remorsos), tudo que é e tudo que não é, e entregai-vos ao além desconhecido tanto quanto possível, a fim de vos unirdes a Ele, que está além de todas as palavras, coisas, conhecimentos e imagens. Pois, através do contínuo e total desnudamento de vós mesmos, tudo abandonando, sereis elevados até o raio da Divina Escuridão que supera tudo o que é’.
Esta divina escuridão está em todo o misticismo, cujo representante maior é, para mim, João da Cruz. Sua contemporânea, Teresa d’Ávila, é ainda mais clara. Para ela o samadhi é alcançado no centro do castelo interior que somos nós, pois que ‘Deus ali habita’, como afirmaram Jesus e Paulo.
As Escrituras cristãs afirmam que quem ama conhece Deus e, quem não ama, o desconhece (o genuíno amor vem do conhecimento, da percepção de Deus; enquanto não temos ‘aquela’ experiência, toda virtude é forçada ou falsa, ou não é completa e o amor é apenas apego). A iluminação é como uma chama que ilumina tudo e, então, podemos ‘ver’. A ‘Nuvem do Desconhecido’ ensina: ‘Oferece tua vela à chama’, para que nossa alma se ilumine com a chama infinita do amor de Deus, o que nos trará compaixão e sabedoria, a magnífica sapientia que o Cristianismo medieval tinha em tão alta conta. Jesus: ‘Aquele que me ama (e, por isso, segue seus ensinamentos) será amado por meu Pai e receberá o Espírito (isto é, chegará à iluminação)... ’, isto é, o espírito da sabedoria é concedido aos que o seguem (pois o amam, nele crêem e seguem os seus ensinamentos) e chegam lá.
Quanto à indução ao satori, a tradição cristã era totalmente diferente. Nada de postura corporal, embora pareça ter havido interesse pela respiração na igreja oriental. Mas, esse saber se perdeu e, quanto mais nos aproximamos do Ocidente, mais cerebral e discursiva (cheia de palavras) se torna a coisa toda. As pessoas eram (primitivamente) iniciadas na meditação pela leitura das Escrituras e reflexão sobre seu conteúdo. Essa meditação discursiva evoluía, aos poucos, para a repetição de uma palavra ou som e, eventualmente, para um silêncio sem palavras e imagens. A este ponto deviam chegar todos que se dedicavam seriamente à oração.
Contudo, quando entrei para o noviciado, comecei assim: fizeram que eu lesse e relesse a Bíblia e refletisse, e remoesse, e a digerisse e rezasse. Então, como hoje, nada mais se ensinava. A tradição do primitivo cristianismo estava perdida. Não se usava iniciar as pessoas em formas supraconceituais de oração (sem conceitos e palavras), e ‘misticismo’ era palavra suspeita. Havia grande falta de orientação prática e de metodologia eficiente.
A. Huxley e outros culparam os jesuítas pelo esquecimento do misticismo na Europa medieval, pois eles defendiam uma espécie de oração que tinha mais a ver com o linguajar e a matemática do que com contemplação. O receio quanto ao misticismo era considerado salutar. Havia um espírito de ciência, racionalismo e dogmatismo, que tinha em alta conta os conceitos, imagens, idéias, rituais, cânticos, o que o tornava completamente desconcertado frente ao vazio e ao silêncio do misticismo.
Muitas ordens religiosas perderam seu misticismo e, com ele, as esperanças de iluminação. Cabe a essas ordens redescobrir suas tradições místicas, e enriquecê-las com o misticismo que o Oriente oferece.
Mas, como poderia o Zen fazer relevante a tradição cristã que data de dois mil anos? Ajudaria a acabar com os mitos (folclore, invenções, fantasias, lendas) de boa parte da teologia subjacente ao misticismo cristão. A tradição judaico-cristã é totalmente teocêntrica. Tudo está na dependência de Deus. Isto se deve, talvez, à Bíblia, na qual tudo é atribuído a Jeová. Se a chuva cai, se alguém morre, se surge a doença ou a miséria, tudo é ‘graças a Deus’. Tudo, obra de Deus (‘É o senhor que opera em nós o pensar e o fazer’).
Essa maneira de falar é legítima. Mas tem a desvantagem de ser imprópria ao homem moderno, extremamente antropocêntrico e que sente dificuldade para entender e aceitar uma terminologia que recorre incessantemente a Deus. O ocidental desmistificou a ação de Deus na esfera natural ao descobrir, pela ciência, um sem-número de causas (secundárias) para todos os fenômenos. Daí não entender a doutrina cristã que em tudo vê a ação direta de Deus e é totalmente teocêntrica.
O Zen é extremamente centrado no homem. Ele só pede para sentar e meditar e, de maneira prática, sem muita teoria, somos levados ao samadhi. Só pede que sigamos os passos do Buda para termos sua natureza (é o que o Cristianismo precisa aprender e ensinar aos fiéis; sem muita teoria e sem complicações teológicas ou filosóficas, seguir os passos do Cristo. Só assim é possível a iluminação. A terminologia sobre a oração, contemplação, amor divino ou do Cristo etc., todas essas complicações deverão ser deixadas de lado. Isso é totalmente desnecessário, pois a própria experiência é descomplicada).
Isso seria de enorme benefício para o cristianismo, particularmente para o católico que vê seus fiéis perderem a devoção que havia no passado. Todas essas coisas, se desaparecessem, não digo que devam desaparecer, seu lugar seria ocupado por uma meditação simples e ao alcance de todos.
A meditação cristã do passado destinava-se a uma elite: franciscanos, jesuítas, dominicanos, sempre restrita às ordens religiosas. O cidadão do povo ficava com o Pai-Nosso e o rosário. Mas, não tem que ser assim. O muro infame que separa o Cristianismo popular do Cristianismo monástico deve ser derrubado para que todos possam alcançar seu samadhi. Não quero dizer que aquela elite esteja chegando ao satori. Eles devem ser contemplativos, pois esse é o seu ofício. Então poderão ser de grande valor para a humanidade. Mas, se persistirem em fazer apenas o que fazem, e que o mundo pode fazer melhor, simplesmente deixarão de existir, pois não terão razão para tanto e serão de pouca importância para a sociedade. Outros tomarão seu lugar.
O CRISTO
E como fica o Cristo, no vazio e na escuridão do Zen? Os ocidentais já mostram precaução ante uma prece cristã que parece deixar de lado as palavras bíblicas, e exclui imagens ou pensamentos de Cristo. Como ficarão se lhes dissermos que devem abrir caminho para as trevas do vazio? Tudo isso deve soar muito esquisito para os ocidentais.
Mas, é possível que, com o Zen, encontremos uma maneira menos dualista de nos aproximarmos do Cristo. Devemos nos abrir a essa visão como fizeram os primitivos cristãos. Porém, o Cristianismo, que nasceu dentro das tradições judaicas, sofreu a inclusão de concepções gregas (Aristóteles) trazidas por Agostinho e outros, concepções que influenciaram a revelação judaica, e o Cristianismo cresceu imbuído dessa cultura, o que lhe foi pernicioso.
...O roshi falou da diferença entre as palavras e idéias, e a realidade (como ensina Krishnamurti, ‘a palavra não é a coisa’). As palavras são apenas como o dedo apontando a lua. Atenha-se ao dedo e você nunca verá a lua. Todas as palavras de todos os mestres, sábios, escrituras são apenas o dedo; indicam o caminho para ver a lua; mas não são a lua (Talvez por isso, dizem os sábios que devemos parar de falar e ler - são apenas dedos - sobre a experiência de Deus, mas que tentemos experimentá-la).
Mas, o ocidental adora suas palavrinhas e a elas se apega como criança ao seu brinquedo. Agarra-se a conceitos, idéias, imagens, figuras, lembranças e emoções, e não vê que essas coisas são apenas dedos apontando a lua (exterioridades). O ocidental deixou se corromper pelos meios de comunicação de massa e pela vida secular (profana), que são, ainda, apenas dedos. Nas escrituras, agarra-se a frases e versículos, correndo o risco de adorar ou de colocar, acima de tudo, imagens e conceitos sobre Deus em vez de o próprio Deus. Conceitos e imagens (imaginações) de Cristo não são o próprio Cristo. Os cristãos, de qualquer denominação, devem, pelo menos, pensar sobre a possibilidade de que o Cristo possa ser conhecido em meios às trevas, ao vazio, à uma vacuidade que transcende todo pensamento. Fitando em demasia os dedos, perderão de vista a lua.
...Outra lição: ‘Se vires o Buda, mata-o!’, frase considerada uma rejeição blasfema, ultrajante de tudo que é religioso e sagrado, e como prova de que o Zen, e mesmo o Buda, nada têm de sagrado. Mas essa frase deve ser entendida assim: ‘Se vires o Buda, o que vês não é o Buda. Portanto, mata-o!’ (esquece-o!) A explicação é que tudo que percebemos, vemos, tocamos ou ouvimos nada mais é senão o dedo apontando a lua, e não percamos tempo com isso.
Corretamente compreendida podemos repetir a frase: ‘Se vires o Cristo, mata-o, pois o que vês não é o Cristo!’ O que vemos, ouvimos, percebemos não é Deus; tudo é apenas efeito de Deus, o dedo apontando a lua (apontando Deus). ‘Livra-te do Buda enquanto objeto do pensamento; só assim realizarás a tua natureza de Buda’. Devemos deixar de lado quaisquer imagens, idéias conceitos, até mesmo relativas a Deus, a Jesus, ou ao Buda. Qualquer ação do ego, qualquer ação do cérebro impede a verdadeira percepção.
O Cristo, a que Paulo se refere, não pode ser expresso por imagens nem conceitos; é o Cristo cósmico, incognoscível, vivo desde sempre e por todo o sempre, e oculto no íntimo da alma humana. Os pobres doutores especialistas ficam todos enredados nos dedos de Paulo e não conseguem ver a lua. O que Paulo tem de mais profundo não é a si mesmo: ‘Não sou mais eu que vivo, mas o Cristo é que vive em mim’. Para ele, a vida é Cristo e a morte é Cristo; é tudo a mesma coisa. Ou, ‘é Cristo que habita em vossos corações’. A palavra ‘coração’, aqui, é tradução do grego; porém Paulo, que foi criado como judeu, devia ter em mente a palavra hebraica, que significa ‘o âmago do ser’. Para Paulo, Cristo está além dos conceitos e pensamentos (além do ego e do espaço-tempo; não está em parte alguma e está em toda a parte, como afirma o Zen). Se quisermos situá-lo em algum lugar, devemos situá-lo ali onde o pensamento se origina, pois ‘ele é nosso rosto original de antes de nosso nascimento’. Assim é que Paulo afirma que fomos escolhidos por Cristo antes da criação do mundo.
Se Cristo está oculto além da mente, não poderemos conhecê-lo pelo pensamento ou raciocínio (pois que estes são a própria mente).(Temos que ir para além da mente e isso só se consegue com a meditação). Por isso não subsiste nenhuma relação Eu-Tu. Como disse Paulo, ele está operando em nós o pensar e o fazer: ‘Não vos preocupeis com o que havereis de dizer (quando interrogados por príncipes e reis), pois eu vos darei boca e sabedoria às quais não poderão resistir’. Neste ponto, o Cristianismo primitivo e o Zen convergiam. Nenhum raciocínio, nenhuma reflexão, nenhum pensamento (mente totalmente vazia).
Se você inicia pelo dualismo (tão comum na Bíblia), como Paulo na estrada de Damasco, você não irá muito longe. Se deseja ir mais além, a algo como o Zen, deve simplificar o processo do pensamento, acabar com as palavras e conceitos, cessar as orações discursivas e fazer com que o dualismo dê lugar ao vazio, que é onde está a experiência mística. Estará, então, começando a desviar sua atenção do dedo para a lua. Não dê atenção a reflexões piedosas acerca do dedo, ou de qualquer outra coisa, pois vão desviá-lo do esplendor da lua. Aqueles que viram a lua desejaram que outros a vissem também; por isso disseram: ‘Estas coisas, eu escrevi a fim de que possam ter fé’. Esqueçamos pois o dedo e, sem ansiedade nem constrangimento, contemplemos serenamente a beleza silenciosa da lua. Assim podemos descobrir, segundo a frase magistral de Paulo, que nossa vida se acha oculta em Cristo, como este está em Deus. Nosso eu está oculto, Cristo está oculto; só Deus resplandece em todas as coisas. E isso somos nós, e estamos ‘lá’, bem vivos, como o Cristo está ‘lá’, bem vivo. Não estamos conscientes de nós próprios, nem do Cristo, pois nossa vida está oculta em Cristo e este em Deus. Eventualmente, a iluminação ocorrerá. Não uma iluminação qualquer, mas aquela para a qual todos os dedos apontam.
O KOAN
Muitos dizem que o Zen é coisa de malucos. O ‘absurdo’ Koan (problema paradoxal), é uma das razões para essa crença. É um problema apresentado à mente, todo o dia, todas as horas, até que o indivíduo alcança, de repente, o satori. A solução não é dada pela mente, pois o koan desafia toda lógica (e nossa mente está condicionada a sempre procurar raciocinar com lógica), mas por um processo de identificação. Vivenciamos a coisa, esquecemos-nos de nós mesmos e, por fim, até do koan. Por exemplo: ‘Que feições possuía teu rosto antes de teu nascimento?’ Ou: ‘Percebemos o som de duas mãos que batem uma na outra; mas, e o som de uma só mão?’ Ou: ‘MU’ (nada). Ou ainda: ‘Como retirar, sem machucar, o ganso e sem quebrar a garrafa onde ele, ali colocado desde pequenininho, se tornou grande?’ Medite acerca desses paradoxos, deste koan de um artífice divino (Deus) que proporciona ordem e harmonia para o Universo, mas que, para um segundo plano, deixa a desordem, a angústia, a contradição, a dor, enfim, tudo que é sofrimento (Mas nada disso é verdade, pois o agradável e o desagradável vêm da mesma fonte).
Hoje, compreendi que o koan tem valor inestimável. Considero-o essencial à compreensão de nossas escrituras, e um guia para a meditação baseada nos paradoxos bíblicos.
Mas, existe, nas escrituras cristãs, algo semelhante ao koan? Sim! Paulo foi um dos maiores criadores de koan, e é preciso sensibilidade para compreender aonde ele quer chegar. Ele, na Primeira Epístola aos Coríntios, deixa claro que o Cristo crucificado não passa de um louco aos olhos tanto de judeus como de gentios; mas, se nos iluminamos, ele passa a ser para nós da mais alta sabedoria. É isso o koan: algo que, à primeira vista, parece absurdo, mas que não é.
Penso que aquele que passa horas a fio olhando um crucifixo está frente a um koan. O que vê não é só o absurdo de um Deus crucificado, mas o absurdo de seu sofrimento e do sofrimento da humanidade. Não será pelo raciocínio ou pensamento que vamos entender, mas através da identificação com Ele, vivenciando seu sofrimento e o de toda a humanidade (compreender a totalidade da vida); e, eventualmente, após horas e horas de tentativas, de repente, pode ocorrer o satori, que traz o sentido daquilo que parecia não ter sentido. Em seguida vem a ‘ressurreição’ (o homem novo) e encontra-se a unidade na terrível dispersão (‘aparente’) de um Cristo sofredor.
Nesse sentido, os hesichastas, que recitam a palavra Jesus em ritmo com a respiração, podem estar recitando um koan. Jesus, o Cristo, é uma figura arquetípica, que enfeixa todas as contradições e sofrimentos de toda humanidade.
...Um estudante perguntou: ‘Como tratariam, hoje, um iluminado?’ O roshi: ‘Seria menosprezado, escarnecido e rejeitado por todos’. Essa amostra de uma tremenda estupidez, que é a própria história da humanidade insana, não será um verdadeiro koan?
Os evangelhos estão repletos de koan. Falam sobre cortar as mãos, arrancar os olhos e sobre o que não fazer. Assim: ‘Deixai que os mortos enterrem seus mortos’, ‘Aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á’, ‘Eu sou a vinha, vós os sarmentos’, ‘Este é o meu corpo...’ ‘Este é meu sangue...’ ‘Antes que Abraão fosse, Eu sou’. Isso não vai além do raciocínio? Não é tão desconcertante como um koan? Não seria o Cristianismo um fantástico koan que faz a mente perplexa em meio aos paradoxos que os Evangelhos contêm? Há questões sobre as quais Jesus se pronuncia como num koan: ‘Aquele que tem ouvidos de ouvir, ouça’ É como se dissesse: ‘se não me compreendes, não posso ajudar-te’, não, pelo menos, no nível do pensamento discursivo.
Isso faz pensar que o koan torna possível, aos cristãos, uma nova abordagem das antigas escrituras. Um monge budista afirmou que os cristãos somente alcançarão a iluminação se souberem ler suas próprias escrituras, isto é, que as escrituras contêm a iluminação para aqueles que sabem lê-las.
Foram decifradas antigas mensagens; desenterrados, no deserto, dezenas de potes com manuscritos; descobriram-se manuscritos embolorados em cavernas escuras e antigas cidades soterradas, o que levou os especialistas à brilhante conclusão de que tinham sondado as profundidades da sabedoria bíblica. Mas, por mais valiosas que sejam essas descobertas, não são capazes de nos ajudar a resolver o koan que, num átimo, reluz e nos interpela nas páginas das escrituras. Já antiqüíssima doutrina, trazida por Kêmpis e outros, afirmava que, se o Espírito não se fizer ouvir dentro de nós, será impossível ouvi-lo. É por isso que afirmo que pensamento e raciocínio são incapazes de apreender uma mensagem cuja natureza somente as faculdades mais profundas e adormecidas da mente, que atuam ali onde o Espírito se faz ouvir, podem captar.
Para ler as escrituras, ponha de lado as faculdades críticas de raciocínio e argumentação. Pare de indagar se Jesus andou sobre as águas, se houve uma estrela que guiou os reis Magos, o que tudo isso significa; isso não importa tanto quanto o que Jesus ensinou. Esqueça todas as complicações e deixe que as palavras das escrituras penetrem o mais fundo do seu ser, onde elas irão, delicadamente, agir, viver, transformar.
Talvez, se, após meses de esforço, você solucionar um koan, será mais fácil solucionar muitos outros. Isso porque a s faculdades mais profundas foram despertadas e, agora, estão ativas. Então, seremos capazes de nos identificar com o koan, pela Bíblia toda. A ruptura, suscitada por determinada passagem, proporciona luz e entusiasmo para ler o resto. Na tradição Zen, o teste para a iluminação pode ser a capacidade de solucionar um koan; é o que faz o roshi a quem diz que se iluminou.
Em livro anterior, tentei provar que a suposta irracionalidade dos místicos, no fundo, é conforme a razão. (‘A sabedoria de Deus é loucura para os homens, como a sabedoria dos homens é loucura para Deus’).
O CORPO
As tradições do Oriente dão grande atenção ao corpo; dizem que é a partir dele (da arte de usar pulmões, olhos, coluna vertebral, cérebro, atenção) que começa a meditação. Dão importância ao local, um recinto limpo e arrumado, ou grandes espaços abertos.
...No Japão, em encontros de meditação, é surpreendente que, muitas vezes, não havia uma fé comum e ninguém parecia mostrar o menor interesse pelo que os outros acreditavam ou não. Nem se mencionava a palavra ‘Deus’. Tratava-se simplesmente de meditar. A melhor aproximação a Deus era dizer que a meditação devia irradiar-se até as dimensões cósmicas. Mas, quanto ao corpo, se discutia minuciosamente.
Os cristãos devem refletir mais sobre o papel do corpo. Mesmo aqueles que não crêem em Deus sabem que o corpo é uma realidade e podem, muito bem, se sentar e respirar. Eu mesmo pude observar, com minha limitada experiência, que isso realmente funciona. As pessoas que iniciam desse modo, eventualmente chegam a encontrar Deus. Não o Deus antropomórfico no qual não crêem, mas o majestoso ser em que vivemos, nos movemos e existimos. Mas, o corpo vem em primeiro lugar – Deus vem no fim.
A verdade é que a oração dos ocidentais é muito cerebral, discursiva e não vai às camadas profundas da mente onde estão as faculdades que permitem a percepção do sagrado.
... Inquirido se é possível medir o desenvolvimento dos meditadores, um roshi respondeu: ‘Não, a mente é um mistério. Tudo que podemos fazer é avaliar as repercussões fisiológicas’ (os efeitos, da meditação, no corpo, como se comprovou pela Meditação Transcendental, de Maharisshi).
O Zen não advoga meticuloso controle do corpo como a ioga. Não dá atenção aos fenômenos paranormais, pois os considera perigosos desvios do caminho. ‘Não se desvie da meta em virtude de fenômenos espirituais ou corpóreos de qualquer espécie, mesmo daqueles que você julgue maravilhosos’.
No Cristianismo, anteriormente, considerava-se o corpo muito importante. Para uma vida de meditação se deveria dominar os olhos, a respiração. A ‘Nuvem do Desconhecido’ fala, com entusiasmo, das sublimes repercussões físicas da prece contemplativa (a luz que emanava do semblante de Moisés, ao descer da montanha; Jesus, ao surgir à frente dos discípulos após orar no monte; Buda, ao sair de sob a árvore onde ocorrera seu satori; Withiman, várias vezes assim observado por amigos).
A tradição cristã tem afirmado a beleza que a meditação proveitosa irradia pelo corpo, mas não está preparada para usar o corpo como um caminho para o samadhi. Temos que aprender com o Oriente. No Bhagavad Gita (A sublime Canção da Imortalidade), descreve-se a preparação para a meditação:
‘Que você se instale num lugar tranqüilo e limpo, sobre panos, peles ou capim espalhado. Que se sente aí, refreando os impulsos do pensamento e dos sentidos, e se dedique ao exercício espiritual, para purificar o eu. Mantenha o corpo, a cabeça e o pescoço imóveis e aprumados; e fixe seu olhar (com toda a atenção) na extremidade do nariz e não em derredor. Fique aí, com seu eu em absoluta paz, sem mais medo algum, firme em seu propósito de perfeição, a mente controlada, sem pensamentos, nem os voltados para Mim; o ser inteiro integrado em Minha intenção’.
O Zen prefere lugar silencioso, junto à natureza, jardins e flores e ao ruído das águas de um rio. Comparando, nossas igrejas cristãs, em particular as de construção recente, são locais inadequados para a meditação. Nas velhas igrejas havia sempre uma atmosfera inspiradora e um calor próprios. Será que, as pessoas que constroem as igrejas modernas, alguma vez refletiram acerca da meditação ou têm idéia do que ela seja? O mesmo vale para conventos e mosteiros. Como já disse, parecem mais escritórios do que templos.
Outro ponto é a postura. Dorso aprumado, mas sem rigidez; olhos semi-cerrados pousados no chão, palmos à frente, ou na ponta do nariz ou no vão entre as sobrancelhas (ou fechados). Refestelado numa poltrona, a meditação não terá a menor profundidade. A mente deve estar tranqüila como uma chama que arde num lugar onde não sopra a menor brisa.
RESPIRAÇÃO E RITMO
Na meditação, o silêncio da mente é essencial. Obter esse silêncio é coisa complexa. Arjuna: ‘Volúvel é a mente, poderosa demais. É mais fácil domar a ventania.’ Krishna: ‘Mas, não é impossível; com esforço incessante ela pode ser colocada em xeque’. É nisso que o Oriente se distingue do Ocidente.
Uma das maneiras mais antigas de controlar a mente é pela respiração. Há um vínculo entre respiração e psiquismo. Se aflitos, excitados ou irados, a respiração torna-se curta e rápida; se calmos e serenos, concentrados ou a meditar profundamente, torna-se mais e mais lenta. No profundo da oração, podemos estar tão silenciosos a ponto de não mais sentir a respiração. Se as condições psíquicas afetam a respiração (que é fisiológica), também as condições da respiração podem contribuir para acalmar a mente (psicológica). Inicie com uma aspiração ventral profunda, retenha o ar por um instante, e exale. A respiração ventral coloca no abdômen o centro de gravidade do corpo de modo que o corpo adquire mais firmeza.
A tranqüilidade vem do processo de contar a respiração muitas vezes, de um a dez para inalar e para exalar, até que a sensação de estar sentado se torne sem esforço. Ponha, de início, total atenção na respiração ventral descontraída e lenta. Faça a respiração ir ao ventre e vir do ventre. Após alguma prática, contar apenas as exalações ou só as inalações. Por fim, apenas acompanhar a respiração (ao entrar e ao sair pelas narinas, sem ficar imaginando o caminho do ar. Essa técnica vem acalmar as emoções, banir o pensamento, o raciocínio, lembrança, e a imaginação (‘Cesse toda conversa exterior e interior’), atuantes nas camadas superficiais da mente, para abrir caminho para as camadas mais profundas, que se encontram, habitualmente, adormecidas).
Os ocidentais, no entanto, só concebem a meditação pelo uso do cérebro. No pensamento oriental a respiração está ligada à própria respiração do cosmo, de modo que regular a respiração significa regular nossa relação com a totalidade cósmica, buscando ordem e harmonia.
Na tradição judaico-cristã, a respiração é associada ao Espírito Santo, spiratio, e se estende ao universo. Daí o significado simbólico de Jesus ‘soprando’ sobre os apóstolos: ‘Recebei o Espírito Santo... ’ e também o vento que balança a casa antes da descida do espírito sobre os apóstolos. Mas, isso se perdeu com o tempo.
A meditação praticada anteriormente no cristianismo:
‘Respiramos o ar para dentro e para fora. Nisto está a vida do corpo e disso depende sua vitalidade. Assim, ao te sentares em tua cela, conduz tua mente (pela atenção) ao caminho da respiração, bem ali onde passa o ar que entra, forçando-a a penetrar até a alma junto com o ar inalado. Não a deixes, porém, ociosa nem desatenta. Deixa que essa venha a ser a tua constante ocupação e jamais a abandones. Pois, esse exercício, por manter a mente afastada dos devaneios, torna-a inexpugnável às sugestões do inimigo e a conduz ao desejo do divino amor. Além disso, irmão, esforça-te por acostumar tua mente a não regressar muito cedo, pois, a princípio, ela se sente muito só nessa segregação interior. Porém, quando ela tiver se acostumado a isso, não lhe agradará mais se lançar às coisas externas. Pois é dentro de nós que está o reino de Deus, e para aquele que o divisou dentro de si, tendo-o descoberto e conhecido através da oração pura (sem contaminação de palavras etc., isto é, pela meditação), tudo que existe do lado de fora perde sua atração e valor. Já não lhe desagrada nem enfada estar do lado de dentro’.
Na tradição a que pertence essa citação usa-se a repetição de uma palavra (ou som) em uníssono com a respiração. Afirmam que, com a inalação, o Cristo (a consciência cósmica, Deus) entra, e, com a exalação, o ‘eu’ sai, e ficamos, assim, repletos de Deus (‘Ou eu, ou Deus’).
A prática purifica a mente de todos os pensamentos, desejos e desvios, de modo que ela desce até o fundo da psique em completa nudez espiritual (totalmente livre de impurezas). Após algum tempo de prática, já não há mais nenhum ‘eu’ a repetir a palavra (ou mantra) ou som, pois o ‘eu’ se foi e atinge-se a condição de ‘não-eu’ (o vazio), característica do Zen. A repetição do som ou palavra pode repercutir tão profundamente na vida psíquica, que ela se torna quase automática e persiste nos momentos de vigília, e, conforme alguns budistas, até quando dormimos.
Acredito que a respiração associada à repetição do som ou palavra acha-se integrada no ritmo básico do corpo e que, o ritmo deste, se integra ao ritmo do Universo, o que abre passagem ao centro do ser onde desponta o satori (onde encontramos Deus). Quando os homens viviam em meio à natureza, trabalhando nos campos, e pescando nos rios e mares, é provável que tal ritmo fosse muito mais fácil de encontrar; as relações entre homem e meio ambiente eram harmoniosas. Basta recordar que os primeiros apóstolos eram pescadores e que o cristianismo está estreitamente ligado à pesca.
Na urbanização, esse ritmo e harmonia se perderam; o homem começou a ‘desafinar’ em relação à natureza. Isso acontece, hoje, de modo ainda mais grave. Temos de fazer frente, não só à poluição geral, mas, também, aos ritmos adversos dos Beatles, Rolling Stones, ruído excessivo e grande número de forças que perturbam nossa vida psíquica, bem como a audição, olfato e visão. O que dizer, então, das camadas profundas da vida psíquica, pois essas forças debilitam o ritmo profundo que há em nosso interior?
Nas cidades, o problema é crítico. A vida no campo constitui vantagem para quem deseja meditar; isso, há muito tempo, as ordens contemplativas descobriram. Mas, mesmo na cidade, a meditação é possível.
Muitos praticam meditação, mas poucos vão até ao fundo. Os roshi se referem a estes como se cursando o ‘jardim da infância’, nunca chegando à ‘graduação universitária’ (‘Muitos são os chamados; poucos os escolhidos’). Muitos se acotovelam diante da porta estreita; mas poucos têm coragem de entrar. Assusta-os o caminho estreito e desconhecido; o caminho comum e conhecido é mais simpático e os atrai.
Um budista afirmou que o maior obstáculo é o medo. Senti que se tratava de terrível verdade. A arte budista é cheia de bestas selvagens, faces assustadoras que simbolizam os temores da grande descida ao âmago do ser. À medida que descemos, muitos recalques dolorosos afloram à consciência e sofremos. Mas, se desejamos a luz, temos que ir em frente.
João da Cruz disse, no seu Cântico Espiritual: ‘Nenhuma flor apanharei; nenhuma fera temerei. ’ Não apanhar nenhuma flor significa distanciar-se completamente da beleza sedutora do mundo que pode nos impedir de buscar a verdadeira fonte da beleza e do amor. As feras (os dragões, bestas e prostitutas do Apocalipse) são os horrores que afloram à medida que avançamos na descida mística. Mas, devemos rir na cara deles; são apenas lembranças que estamos excluindo (limpando) de nossa mente.
Todos recuam ante a inexorável lei da renúncia. Devemos abrir mão de nosso próprio ‘eu’, do homem velho, vicioso e condicionado (para muitos, isso é terrível!) para encontrar um novo ‘Eu’. E, para isso, o Zen ensina: ‘Por incontáveis que sejam nossas paixões, devemos exterminá-las todas’ (Nunca pelo esforço do ego, mas pela compreensão que vem da meditação e análise das coisas do mundo). Só então a iluminação tomará conta de nós. Existe dentro de nós um imenso oceano de alegria, que pode ser liberado pela meditação e, algumas vezes, essa alegria irrompe com extraordinária força, inundando o ser com uma energia que não suspeitamos que temos. É o que se passa com o Zen, a yoga, a contemplação cristã, e podemos encontrá-la nos Atos dos Apóstolos, no movimento pentecostal, e com aqueles que foram até o fundo e descobriram aquilo que os fez suar sangue, como Jesus no Getsêmani.
Guerras e ódio, campos de concentração e torturas, crimes sexuais e assassinatos, todas as espécies de exploração do ser humano, nos espreitam a partir das regiões inconscientes da mente. A ‘noite escura da alma’, de João da Cruz, não virá dessa transição entre a perda do antigo eu e a aproximação da descoberta do novo? O papel do roshi é orientar o discípulo nesses momentos. Enquanto isso, a tradição católica deu muita importância à autoridade exterior, aos rituais, cerimônias e à hierarquia, e a igreja ficou excessivamente protocolar, ritualística, burocrática.
É provável que um ensinamento comum a todas as religiões, seja o de que a iluminação só é alcançada através da perda absoluta que é a morte (não a morte biológica, mas a morte do passado, a morte do velho homem, dos desejos, de todo o lixo que a mente guarda; é difícil nos desapegarmos dele, pois que ele somos nós mesmos). Lembre-se de Abraão: Isaac era tudo o que ele tinha; no entanto, só quando se mostrou disposto a matar seu único filho é que ouviu a espantosa promessa de que as nações da terra seriam abençoadas por toda sua descendência. Nisso consiste a iluminação.
...A principal tarefa do mestre é ajudar-nos a ‘morrer’, para que possamos ‘viver’ (a mansão da morte, de Krishnamurti).
...A igreja cristã precisa de menos teoria e de muita meditação, menos colégios e mais locais de meditação, mais mestres e menos sermões e teoria discursiva.
A ILUMINAÇÃO
É impossível falar do Zen sem falar da iluminação. Ela é o centro do budismo (e de todo o misticismo). Com a iluminação alcançamos grande sabedoria e nos livramos de todo sofrimento (Jesus: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará! ’ Buda: ‘A iluminação á a libertação de todo sofrimento’). Embora o Zen seja exclusivamente guiado para a iluminação, defrontamo-nos com o curioso paradoxo de que nunca se deve desejá-la; seria como uma nova forma de apego que viciaria toda a busca. É a velha história do Zen: ‘esvazia-te’ de todos os apegos (emoções, expectativas, sentimentos, pensamentos, etc.), sejam maus ou bons.
Na iluminação, o que importa não é o choque súbito da experiência, mas a transformação completa que se segue, o novo homem que nasce da morte do velho (o nascer de novo, a ressurreição). Nos evangelhos, a experiência fundamental é a chamada ‘conversão’, como em João Batista: ‘Arrepende-te, pois que o reino de Deus está ao alcance de tuas mãos’. As palavras ‘conversão’ e ‘arrependimento’ perderam seu significado original. A conversão era uma transformação da mente e da alma, sendo sua expressão mais marcante encontrada nos Atos dos Apóstolos e epístolas de Paulo, onde se lê acerca do Espírito que se segue à imposição das mãos. Ela é acompanhada de uma manifestação de alegria que tem algo com a que invade o ser no satori. No quarto evangelho está: ‘Eu era cego, mas agora posso ver’, isto é, os olhos da alma se abriram e podemos contemplar a glória do Cristo (consciência cósmica): ‘Vimos sua glória... ’
Após o concílio de Trento, a igreja católica passou a encarar com suspeita certas espécies de experiências religiosas, em especial aquelas referidas pelos protestantes em suas inequívocas dimensões pentecostais.
Penso que seja verdade, no fundo, que os pentecostais sejam doidos, coisa que eu também gostaria de ser pois, se queremos a iluminação, é preciso que nos tornemos loucos (‘A sabedoria de Deus é loucura para os homens’). E é esta a lição do misticismo: após a morte do homem velho, vem a ressurreição, o homem novo, a libertação da angústia, a alegria, o novo alvorecer, a iluminação... (‘É preciso nascer de novo para entrar no reino dos céus’).
O budismo funda-se na ‘conversão’. Transforma tua mente e tua alma, pois ‘o reino de Deus está ao alcance de tuas mãos’. Se o cristão não seguir os passos do Cristo, o que teremos será algo insosso, que pode passar por Cristianismo, mas não é mais que respeitabilidade social.
Lembre-se do Sermão da Montanha: ‘Não andeis inquietos pelo que comereis, nem pelo que vestireis’ e ‘Não vale a vida mais que o alimento e o corpo mais que o vestido?’, ensinando que devemos eliminar, da mente, para melhor qualidade de vida e meditação, qualquer preocupação: pensamentos, raciocínios, decisões, planos, inquietações, intenções etc. Que eles cessem, sobretudo o medo e o cuidado quanto ao futuro. Por isso Jesus disse: ‘Não vos inquieteis pelo o dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal’. (Vejam: o ‘dia de amanhã’ cuidará de si mesmo; não é você que fará isso, pois, segundo o misticismo, as escrituras, o Novo Testamento e a física moderna, nada escolhemos, nada decidimos; é o senhor que opera em nós o pensar, o querer e o fazer. Não somos donos nem de nossos pensamentos!).
Conselho do roshi: ‘Senta-te em calma absoluta, respira suavemente com longas arfadas, comprimindo o ar respirado até o tandem (logo abaixo do umbigo)’. Quando a ‘chama viva do amor’ despertar, já teremos esquecido totalmente a respiração, o raciocínio, o pensamento, nós mesmos. Todas estas coisas estarão recobertas pela ‘nuvem do desconhecido’. Agora há liberdade total.
Escreve João da Cruz:
‘Agora, já não há qualquer caminho.
Para o justo, não há qualquer caminho.
Ele mesmo é sua lei. ’
Mas não tentemos alcançar algo, não liguemos para os resultados. Nem, muito menos, busquemos o reconhecimento dos outros. Isso recorda: ‘Daí a Deus os frutos da ação’, e ‘Não saiba tua mão esquerda o que faz a direita’ (Se alcançar, tudo bem; se não alcançar, tudo bem, também). A recompensa, além da alegria e do cessar de todo sofrimento, é o amor perfeito (amor que não é apego), o agir correto. Não existe, porém, nenhuma razão para esse amor. É incondicionado e natural. Está nas Epístolas de Paulo:
‘O amor nada procura, nada quer, nada exige. É paciente, é bondoso, não tem inveja, não tem orgulho, não busca seu próprio interesse, não é arrogante nem escandaloso, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e jamais acaba’.
Esse é o amor que desperta quando a luz chega.
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PREFÁCIO, de C.G. Jung ao livro ‘Introdução ao Zen’, de Suzuki.
Tentar explicar o satori é inútil. Para alguns é a percepção da verdadeira natureza do ser; o consciente livra-se da ilusória (falsa) idéia de um ‘eu’ que tem existência própria e separada no tempo e que temos de defender contra os demais ‘eus’. Essa ilusão referente à natureza do ser é a confusão que todos fazem do ‘ego’ com o ‘ser’. Ser é a consciência total, absoluta, cósmica, o Cristo, o Buda, o reino dos céus, Deus. O ego é apenas um feixe de lembranças, ilusões, expectativas e interpretações erradas das coisas do mundo.
Quando pensamos que há algo de bom em nós, isso vem da ilusão de que possuímos alguma coisa, de que possuímos bondade, de que somos bons, mas, isso é sinal de imperfeição e insensatez. Fôssemos nós conscientes da verdade, saberíamos que não somos bons, que o bem não vem de nós. Por isso, o iluminado diz:
‘Que pobre tolo eu era! Estava na ilusão de que eu era isto ou aquilo: agora vejo que isto ou aquilo é Deus’.
O satori é uma ruptura da consciência condicionada, apenas limitada ao ego, repleta de ilusões, impurezas, de todo lixo mental ali depositado pelos costumes, tradições, culturas, suposições e crenças durante toda nossa vida. O satori faz com que a consciência adquira a forma de consciência ilimitada, infinita, de não-eu, não-ego, pura como é o ser. Jesus diz no seu sermão: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito’, isto é, aqueles que perderam seu ego, sua ‘personalidade’, pois, agora, têm ‘a’ de Deus. Por isso, bem-aventurados. O satori é o reconhecimento de nossa face original, o homem antes de ser criatura, o reconhecimento, a percepção da verdade de que ‘eu sou’.
Exceto alguns místicos ocidentais, parece, numa visão superficial, que, no Ocidente, nada há que possa ser comparado ao satori. Da prática (da meditação) surge um novo estado de consciência que não é influenciado pelas coisas externas. Daí brota uma consciência vazia, pura, que permanece aberta a outra influência. Essa influência não será mais sentida como a própria atividade da mente, do ego, do ‘eu’, e sim como o trabalho do não-ego, do ser absoluto, que tem a consciência como seu objeto. É como se o ego fosse invadido por um sujeito (a Subjetividade Absoluta, Deus) que tivesse tomado o seu lugar, o seu controle. Como disse Paulo,
‘Não sou mais eu que vivo, mas o Cristo é que vive em mim. ’
Quando isso ocorre, aparece em cena um homem completamente transformado, um homem ‘renascido’, um ‘novo homem’.
O Zen difere de todas as outras práticas de meditação em virtude do ‘koan’ que rejeita qualquer resposta lógica. O próprio Buda é rejeitado por ser apenas uma imagem, um símbolo, um rótulo. Nada deve interferir a não ser o que realmente está lá, isto é, o homem com suas completas, mas inconscientes, suposições, ilusões, crenças, condicionamentos, dos quais, por ser inconsciente, não pode se libertar.
Na experiência maravilhosa da iluminação, a resposta parece surgir do vácuo como ‘da superfície do lago, salta, repentinamente, um peixe’. O inconsciente é a soma de todos os fatores psíquicos que estão fora da percepção consciente. Ele representa a totalidade de onde a consciência, aos poucos, arranca fragmentos. Caso a consciência seja esvaziada de todos seus conteúdos, cairá num estado de inconsciência total (um vazio, no qual, se se perseverar, nasce um estado indizível e ilimitado de consciência). Isso é obtido no Zen como regra, porque a energia do ser consciente é, pela prática, retirada dos conteúdos mentais (que sempre a iludem e onde sempre está) e se transfere para uma concepção de vazio. Aí, a concepção de imagens, pensamentos, ilusões, cessa e poderá vir a se produzir a tensão máxima que permitirá a final eclosão dos conteúdos inconscientes no consciente.
Os conteúdos mentais que afloram não são, em absoluto, inespecíficos. A experiência psiquiátrica com a loucura mostra que existem relações peculiares entre os conteúdos do inconsciente e as imagens e delírios que afloram ao consciente. São as mesmas relações que existem entre os sonhos e a consciência comum em todos os homens ditos ‘normais’. Ali está um ‘quarto de despejo’, de segredos inconfessáveis semi-esquecidos. O inconsciente é a matriz de todas as concepções metafísicas, mitológicas e filosóficas, de todas as idéias acerca da vida que estão baseadas em premissas psicológicas (suposições, crenças). Cada invasão do consciente no inconsciente é uma resposta a uma condição definida do consciente, e esta resposta vem da totalidade das idéias-possibilidades que estão armazenadas no inconsciente. A divisão em unidades, a fragmentação dessa totalidade, é produzida pela consciência localizada (a consciência individual, condicionada), pois essa é sua natureza.
A reação conseqüente ao satori sempre tem um caráter total, pois reflete uma natureza que não foi dividida por qualquer consciência discriminativa; é, agora, uma consciência indivisa, integral, absoluta. Por isso seu efeito é avassalador. É uma resposta inesperada, total e completamente esclarecedora desde o momento em que o consciente se encontra num beco sem saída, em que não encontra resposta alguma para suas perguntas mais profundas.
Quando, após dura prática e enérgica destruição da compreensão racional, lógica, o devoto Zen recebe uma resposta da natureza - a única resposta verdadeira -, tudo que foi dito sobre o satori poderá ser compreendido. Cada um verá, por si mesmo, que são a simplicidade e a naturalidade da resposta que chocam; que envolvemos a verdade simples e pura, com a construção, sobre e em torno dela, de uma vasta estrutura de suposições, ilusões e crenças que, agora, são destruídas totalmente.
Embora o valor imenso do Zen para a compreensão do processo religioso transformador, sua prática entre os ocidentais é muito problemática. No Ocidente não existe uma educação mental (cultural) para o Zen. Quem, dentre os ocidentais, confiará nas atitudes incompreensíveis de um roshi (mestre zen)? Isso só é encontrado no Oriente. Quem poderá crer numa transformação ilimitada da mente humana e está disposto, para isso, a sacrificar anos de vida no trabalho da busca? No Ocidente houve quem se submetesse a tudo isso para alcançar o satori, mas se mantém em silêncio, não por timidez, mas por saber que é inútil qualquer tentativa de transmitir a experiência aos outros (‘coisas inefáveis’, como disse Paulo).
Em nossa civilização ocidental nada há que incentive essas aspirações, nem mesmo a igreja cristã, que se julga a única guardiã dos valores religiosos. O único movimento dentro da civilização ocidental que tem, ou deveria ter, algum entendimento dessas tentativas é a psicoterapia. Não é por acaso que um psicoterapeuta está escrevendo este prefácio.
O psicoterapeuta, seriamente interessado no resultado de sua terapia, não pode ficar insensível quando vê o objetivo do método oriental de cura psíquica. Seu objetivo é ‘reconstruir o todo’ em face da fragmentação produzida pelo consciente racional. No Ocidente, nessa luta de cerca de dois mil anos, foram desenvolvidos métodos e doutrinas que simplesmente obscurecem as tentativas dos ocidentais a esse respeito. Nossas tentativas têm, com poucas exceções, descambado para a magia e cultos dos mistérios, entre os quais, forçosamente, está o Cristianismo. A igreja, com seus dogmas e fantasias, embaraçou seus fiéis num mundo de crenças sem nexo e imagens confusas. Não é a boa intenção, a imitação da vida dos ‘santos’, nem as acrobacias intelectuais (raciocínio, imaginação), que conduzem à reconstrução do todo (e, sim, a cessação do ego).
Se o homem for escravo de sua crença quase biológica, sempre tentará reduzir o que observa a algo banal, trazendo suas experiências até a um denominador racional que só agrada indivíduos que se satisfazem com ilusões. Se o psicoterapeuta reflete um pouco a esse respeito, poderá entender como são vazias, sem importância e contrárias à vida, todas as reduções racionalísticas que versam sobre algo que está vivo e em desenvolvimento. E poderá ter idéia do que significa ‘abrir as portas pelas quais alguém poderá escapar satisfeito e completo’ (João da Cruz?). (Jesus: ‘... tudo mais virá por acréscimo’ e ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’).
Não quero dar conselhos, mas, quando os ocidentais começam a falar do Zen, considero meu dever mostrar onde está a entrada para o caminho que conduz ao satori. E quais as dificuldades que juncam esse caminho, somente trilhado por uns poucos grandes homens, que são como faróis, numa alta montanha, brilhando do enevoado futuro.
Para uma experiência completa não há nada mais barato que o Todo. Para isso é preciso uma expansão indefinida da consciência. Não existem condições fáceis, nem substitutivos. O Zen mostra quanto significa, para o Oriente, o ‘tornar-se integral’, o tornar-se um Todo, uma mente só, indivisa.
A preocupação com os enigmas do Zen pode, ou fazer o ocidental sem força de vontade desistir, ou dar-lhe óculos para sua miopia, de modo que, através da escuridão, possa ter, ao menos, um vislumbre do mundo da experiência mística. O Zen não tem complicadas técnicas como as da yoga, que dão ao ocidental, falsas esperanças de que a luz pode ser conquistada pelo ato de sentar e respirar. Ao contrário, exige inteligência e força de vontade, como o exigem todas as grandes coisas que desejamos tornar reais.
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O CAMINHO DIRETO, de Murillo Nunes de Azevedo:
Não se pode explicar o Zen por palavras. Quando Bodhidharma, introdutor do budismo, chegou à China, o imperador Wu lhe perguntou: ‘Construí um sem número de templos e mosteiros, nos quais sustento grande número de monges; copiei e traduzi enormes quantidades de textos sagrados do Buda. Com tudo isso que fiz, qual é o meu mérito?’ O sábio respondeu: ‘Nenhum, Majestade!’... ‘Então, ensine-me qual o supremo princípio do budismo’... ‘Um vasto vazio.’...O imperador, chocado com as respostas, quis desarmar o sábio e perguntou: ‘Quem é, então, que está sentado diante de mim neste instante?’... Resposta do sábio: ‘Não tenho a menor idéia. ’ (Isto é uma realidade que, parece, os homens não querem ver; ela os incomoda. A ignorância do homem é total. Nada sabemos de nada: porque estamos aqui? O que somos? O que é o ‘eu’? Nada! E quanto a méritos? O que o imperador fez foi apenas trazer paz ou satisfação àqueles que se interessavam pelo conhecimento do budismo. Mas, quanto ao seu mérito para a percepção da verdade, nada lhe foi acrescentado. Essa percepção independe das boas obras. Como disse Paulo: ‘Não é por nossas obras que somos salvos, para que não nos vangloriemos, mas pela graça de Deus’. Essa é a visão do misticismo: o que nos salva é a percepção do divino, que se pode atingir pela meditação).
Todo pensamento de Bodhidharma está neste pequeno trecho:
‘Há uma transmissão fora das escrituras, sem depender de letras ou palavras, (ou obras) que vai à essência da mente, para que o indivíduo, por meio de uma visão clara de sua verdadeira natureza, alcance o estado de Buda’ (transmissão que pode ocorrer na meditação; então aquelas perguntas incômodas não mais terão razão de ser; tudo estará esclarecido).
O koan é um exercício destinado a ativar a circulação espiritual por meio do despertamento das faculdades mentais mais profundas. Ficar sentado, espinha ereta, sem qualquer pensamento ou fixando a atenção só numa determinada coisa, é básico para acelerar a iluminação súbita.
‘Grande é a Mente! Ela vai além do céu e das profundezas, além da velocidade da luz e além do macrocosmo. É imenso o Universo; é imensa a Energia Primordial! Contudo, a Mente abrange o Universo e gera a Energia Primordial. Por causa dela, o sol e a lua se movem, as quatro estações se sucedem e todas as coisas são geradas. ’ (isto é, a Mente é tudo).
‘Para estar no Caminho a coisa mais importante é o sentar...’ Pensar sobre os koan ou os diálogos com os instrutores pode trazer uma certa compreensão mas, no fim, seremos levados para longe do Caminho. Passar o tempo sentado, ereto, sem qualquer pensamento de posse ou de conquista, sem qualquer idéia de atingir o satori, esse é o Caminho indicado pelo Buda. Muitos recomendaram o koan e a meditação sentada. Houve alguns que alcançaram a iluminação sob o toque do koan, mas a causa principal reside no meditar sentado.
O koan serve para ativar o processo mental; equivale à corrida dos aviões na pista para que ganhem velocidade para decolar.
Um monge, ao roshi: ‘Se todas as coisas se reduzem ao vazio, este a que se reduz?’... ‘Minha língua é muito curta para vos explicar.’ ... ‘Por que ela é tão curta?’... ‘No interior e no exterior ela é da mesma natureza. ’ (não há como explicar; tem-se que sentir por si próprio; na verdade, nenhuma resposta a qualquer pergunta é completamente elucidativa; só viremos a compreender pela percepção da realidade final).
‘Minha mente não está tranqüila, mestre. Por favor, pacificai-a!’... ’ Traze-me tua mente e a pacificarei!’... ’Eu a procuro há muito tempo e não a encontro.’... ‘Pois, então, tua mente já está pacificada para sempre!’ (A busca só é terminada quando a mente estiver aquietada; quando todas suas operações cessam; então a mente estará pacificada, ‘esquecida’ e se chegará à percepção da realidade; nada mais resta a fazer).
A verdade - comprovada por numerosas experiências libertadoras - é que uma simples gargalhada, grito, choque, som, luz repentina, ou uma dor podem conseguir aquilo que anos de meditação não conseguem. Uma doutrina tão sutil por certo será mal compreendida no Ocidente, e sua popularização tem produzido uma série de deformações. Assim, pensam que o Zen apóia o uso pleno dos sentidos, o amor livre, a bebida intoxicante, viver intensamente o momento... Tiram todo o seu caráter profundo, tornando-o superficial. Mas o que o Zen pretende é acabar com todos os rótulos daquilo que está além de todos os rótulos. Podemos ser profundamente religiosos sem nunca usar a palavra ‘Deus’, que é apenas um título de algo que se nega a ser contido num mero nome. Assim, o conceito de mente, no budismo, é idêntico ao conceito de Deus, desfazendo antigo mito de que o budismo é um sistema ateu.
O Zen é uma técnica aberta a todos, visando à realização do sagrado em nós, usando um Caminho próprio, com exercícios adequados, para alcançar o âmago do nosso ser, que é onde está a verdade última. (Jesus: ‘O reino de Deus está dentro de vós’, e Paulo: ‘Vós sois o templo do Altíssimo’).
A COISA EM SI, O OBSTÁCULO.
Não podemos falar ou escrever sobre o Zen; seu espírito não é alcançado por palavras. Os pássaros cantam, o sol surge sem explicações. Assim deve ser com todas as coisas. ‘A coisa em si’ é a crença na separatividade, a barreira que corta o mundo em opostos, um centro para onde as várias ordens, camadas, graus e coisas de ordem inferior convergem. Assim surge (se convenciona pela linguagem) a noção de hierarquia. Pense no átomo, nas partículas, células, moléculas, órgãos e seres. Cada coisa é um degrau de um sistema superior. Do vírus ao homem, do grão de pó ao sol há uma hierarquia de sucessões. A caneta, o papel, eu, minha mulher na cozinha, o garoto que assobia na rua, o rádio tocando, tudo são coisas superpostas e interpretadas por nossa consciência. A noção, a crença neste ‘eu’ isolado, que escreve e sente seu mundo interior, é uma ilusão. (O ‘eu’ é apenas um feixe de memórias e de expectativas). Lembremos Krisnamurti, quando fala da flor, a flor que cada um vê de acordo com seu condicionamento, dando-lhe noções de estética, manchando-a com padrões humanos condicionados pela nossa natureza, como o cão de Pavlov ao som da campainha. A flor que vemos não é a flor em si, o silêncio do pôr de sol não é simples silêncio; há uma verdadeira nuvem (cadeia) de conceitos, lembranças, reflexos condicionados, que deformam o sol e a flor para nossa visão (dão-nos erradas interpretações daquilo que realmente ‘é’).
Wei afirma: ‘Nenhum evento é coisa alguma a não ser uma experiência psíquica. ’ (tudo que percebemos ou sentimos pelos órgãos de relacionamento com o mundo, seja o mundo exterior ou interior, é uma experiência psíquica). Uma experiência psíquica é bem caracterizada, bem delimitada. É um eterno transporte para o espaço-tempo daquilo que acabamos de ver, ouvir ou perceber, após sofrer as deformações (comparação, interpretação, reflexão, julgamento) produzidas pelo filtro (nossa mente, o ego com suas associações e lembranças) que aquilo tem de atravessar.
A visão da coisa em si não é experiência da psique, da mente localizada, da mente condicionada. O satori não pode ser alcançado por nossa psique, que é limitada. É um modo de ver as coisas como elas são, sem interpretações nem associações; é uma maneira de ver o novo, o incontaminado, o puro, o ápice, a raiz de todas as coisas e da vida. Quem teve disso, um vislumbre que seja, jamais esquecerá o seu sabor.
Muitos se revoltam com o vazio da vida. Preenchem esse vazio com jogo, bebida, drogas, TV, clube, busca de beleza, dinheiro, poder, aventuras, riscos, adrenalina e outras coisas que ajudam a esquecer, e, acima de tudo, sexo. Tudo isso mergulhado num vazio total, na desesperança, na sujeira, na fumaça. É a fuga de uma vida sem sentido. Mas o Zen leva o homem a dar sentido à vida diária, sem fugir. Os Himalaias estão dentro de nós, como estão todos os deuses, demônios, inferno, paraíso e, acima de tudo, a paz fundamental (como afirmou, também, Bhoeme). É isso que o Zen nos faz perceber.
Mergulhe! Busque o âmago do seu ser mas, antes disso, pare! Pare, por um momento, o gesto sem finalidade, o raciocínio sem controle, o remoer sem fim dos conceitos, os pensamentos e crenças sem base, as ilusões. Talvez, então, tenha a percepção profunda, que surge quando o fundo do ser se abre (o cérebro, a mente se esvazia, cessam suas operações), rompendo as camadas insuspeitas da consciência, fazendo a luz entrar. Esse parar é o começo do Zen; é se sentar pura e simplesmente. Atente para uma estátua do Buda: espinha ereta, olhos semicerrados, pernas cruzadas. Fique nessa posição, em lugar tranqüilo, meia hora, de preferência de manhã e à noite, sem pensar em nada e sem se opor aos pensamentos que vêm, vendo-os como nuvens que passam. E só. No início, sentirá dores nas pernas e costas, pensamentos teimosos, sórdidos, preocupações, dúvidas, lembranças, imagens. Mas, não dê importância a nada disso. Não espere que a iluminação surja repentinamente, nem pense nisso, nem em Deus, nem em Nirvana, que é ação pura, pensamento puro, percepção pura, sensação pura. A única maneira de andar no ‘caminho’ é ficar parado. Então podemos mergulhar na vida, viver no ‘olho’ do furacão sem fugir dele, porque, agora, compreendemos. E, tudo aquilo que sempre nos rodeou, situações e pessoas, se apresentará verdadeiramente novo, como sempre foi, mas não percebíamos porque nossas interpretações estavam erradas. A partir daí, não é preciso mais parar, nem mergulhar. Todas as coisas voltarão para onde sempre estiveram. Tudo continuará sendo o que sempre foi; somente nossa percepção do mundo, em face de nossa interpretação agora correta, será a realidade.
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‘INTRODUÇÃO AO ZEN’, de Suzuki (uma das maiores autoridades do budismo):
Entre as muitas seitas do budismo a escola Zen é a única que transmite a essência do budismo sem qualquer rito misterioso ou lições secretas. Sua experiência fundamental é a obtenção do satori. O cristão usa a prece, a mortificação, o sacrifício, como meios para alcançar tal experiência, deixando o resultado à graça divina, ao seu Deus. Mas, o budismo não reconhece um agente exterior ou sobrenatural (um Deus) nisso. O treinamento Zen é prático e sistemático, uma disciplina metódica que produz os mais benéfícos resultados de ordem moral. O misticismo desafia toda lógica que é a característica maior do pensamento ocidental. O Oriente é sintético no seu modo de pensar e raciocinar; não lhe importam particularidades e sim a percepção intuitiva do todo. Assim, a mente oriental é necessariamente vaga e indefinida, e parece não possuir conceitos que se revelem facilmente a um estranho. O Zen é provocantemente evasivo. A coisa está ali, frente aos nossos olhos; recusa-se a ser ignorada, mas quando tentamos agarrá-la, para conhecê-la melhor, ela desaparece.
Para compreender o Oriente temos de compreender o Zen. Sua quietude e silêncio não indicam preguiça ou inatividade. O silêncio não é aquele do deserto sem vegetação; é o silêncio de um ‘abismo eterno’, onde não existem quaisquer condições, contrários ou contrastes. É o silêncio de Deus, no qual há absoluta tranqüilidade, totalidade e unidade. O misticismo hindu é muito especulativo e complicado. O Zen é direto e prático. No hinduísmo há rituais extremamente complexos, elaborados sistemas de mandala, que tentam explicar o universo. As principais idéias do Zen vêm do budismo, mas o Zen abandonou sua estrutura altamente metafísica, e se tornou uma prática surpreendentemente simples e ao alcance de todos.
O QUE É O ZEN
O Zen não é filosofia, nem é fundado na lógica ou na análise. É antípoda da lógica e do modo dualista de pensar. Pode haver um elemento intelectual no Zen, pois ele é a mente total. Não impõe qualquer doutrina aos seguidores. Nisso, o Zen é caótico. O adepto pode formular conjuntos de doutrinas, mas por sua conta e para benefício próprio. Por isso não há livros sagrados nem dogmas. Qualquer ensinamento que exista no Zen vem através de nossa própria mente. Ensinamo-nos a nós mesmos; o Zen simplesmente aponta o caminho.
Todos os ensinamentos budistas, os sutras e sastras são considerados papel para limpar o lixo de nossa mente; nada mais. (ou dedos apontando para a verdade final, Deus). O Zen não é religião. Não tem Deus para cultuar, nem rito a observar, nenhum lugar futuro para onde os mortos irão e não vê na alma algo cujo bem estar deva ser procurado e cuja imortalidade é preocupação para muitos. O Zen é livre de todos esses entraves dogmáticos, religiosos e filosóficos.
Dizer que não há Deus no Zen, poderá chocar a muitos, mas o Zen não nega a existência de Deus. Ao Zen não importam nem a afirmativa, nem a negativa. Somente nele não existe o Deus imaginado pelos judeus e cristãos. O Zen não é religião. É mais um processo no qual são usados experimentos e exercícios específicos.
As imagens do Buda e Devas que encontramos na entrada dos templos, são apenas como as flores ou lanternas que enfeitam jardins. Diz o Zen: Se quiseres, reverencia uma flor e a cultua. Há tanta religião nesse ato como quando os cristãos se prostram diante dos vários santos e de Deus, aspergem água benta, ou participam da ceia do Senhor. Esses atos devocionais, considerados meritórios ou santificadores pelos religiosos, são artificialidades e exterioridades para o Zen. Parece que esta idéia viola a lei da vida moral, mas aí está a verdade do Zen. O Zen crê na pureza interna e na bondade do homem. Tudo que for a isso adicionado ou diminuído é contra seu espírito. O Zen é, pois, contra tudo aquilo que foi ou que vier a ser convencionado pelas religiões (Não esquecer que toda convenção é apenas produto da mente do homem). Mas, sua irreligião é apenas aparente. Pessoas verdadeiramente religiosas se surpreenderão ao ver que nele há muita religião, mas não nos moldes do Cristianismo ou Islamismo. O homem pode meditar sobre um assunto religioso, doutrinário ou filosófico enquanto se instrui no Zen. Mas isso é meramente incidental. A essência do Zen não está aí em absoluto.
O Zen se propõe a disciplinar a mente por si mesma, fazê-la seu próprio mestre através de uma visão introspectiva de sua própria natureza. Este aprofundar-se na natureza real da mente é o objetivo fundamental do Zen: abrir o olho mental a fim de poder ver a razão da existência (da totalidade da vida, fatos, eventos, de tudo).
Para meditar o ocidental fixa a mente em algo: a unidade de Deus, o amor infinito, a impermanência das coisas. Mas, é exatamente isso que o Zen evita. O Zen frisa fortemente a necessidade de se libertar de todos os impedimentos não naturais. A meditação ocidental é artificial; não pertence à atividade original e natural da alma. É uma coisa convencionada. Em que medita o pássaro no espaço ou o peixe nas águas? Quem deseja aprisionar seu pensamento na unidade de Deus e do homem, ou no significado da vida? Essas coisas não levam a nada; são perda de tempo, ilusões.
O Cristianismo é monoteísta, mas o Zen desafia todas as designações. Daí não existir qualquer objeto, coisa ou tema no Zen sobre o qual meditar. O Zen é como uma nuvem no céu. Nada a segura. Move-se sem nenhum por quê. Se fosse monoteísta, diria aos adeptos que meditem sobre a unidade de tudo, na qual todas as diferenças e desigualdades desaparecem sob a luz de Deus. Se fosse panteísta diria que mesmo a mais humilde das flores reflete a glória de Deus. Mas, o Zen quer a mente livre, desobstruída. A idéia de totalidade ou de unidade, ou qualquer outra idéia, não permite a liberdade original do espírito, a pureza original da mente. Mesmo o dizer ou pensar no ‘amor’ ou em ‘Deus’, implica que o Zen não está mais ali.
A meditação Zen é ‘tornar’ as coisas como elas são. O Zen penetra e se perde nessa imersão. Preces, contemplações, rituais, são, do ponto de vista Zen, meras fabricações da imaginação, elaboradas para satisfazer a mente religiosa. Isso é empilhar tijolos e mais tijolos sobre a própria cabeça sem qualquer lucro para a vida do espírito.
Dizem que o Zen é o ‘assassino da mente e do eu’; mas, o Zen não tem nenhuma mente e nenhum eu para matar, porque, na verdade, não há nenhuma mente, nenhum eu. O Zen é muito evasivo nos aspectos exteriores. Quando pensas ter capturado um relance dele, ele não está mais ali.
Hugo: ‘O caminho que sobe a Deus é o da descida ao âmago do próprio ser’, ou ‘Se buscas as coisas profundas de Deus, busca-as nas profundezas de teu próprio ser’. Quando as coisas profundas são achadas não há mais nenhum ‘eu’. O sujeito não é mais consciente de um mundo objetivo ou de si mesmo. Está perdido num imenso vazio.
A idéia básica é entrar, de maneira direta, em contato com nosso íntimo, sem imposição de qualquer coisa externa. Toda autoridade externa é rejeitada. Qualquer autoridade que o Zen possa ter vem de dentro. O Zen nada tem a ver com intermediários. Logo, todas as escrituras são apenas tentativas e provisórias. Para o Zen não há, em qualquer escritura tida por sagrada, nenhuma finalidade. Quando o Zen é compreendido completamente, a paz absoluta da mente é alcançada e o homem vive conforme deve viver (por isso, dizem os mestres: ‘Enquanto não chegamos ‘lá’, somos apenas subumanos’).
Inquirido sobre o que era o Zen, um roshi respondeu: ‘É o teu pensamento de todos os dias’. Nada tem a ver com qualquer sectarismo. O homem, de qualquer religião, cristão, muçulmano, budista, ou sem religião alguma, pode praticar o Zen do mesmo modo que peixes de qualquer espécie ou tamanho podem nadar no mesmo oceano.
‘Abandona o dualismo de sujeito-objeto. Transcende o intelecto e a razão. Se não fizeres isso nunca conhecerás a Realidade. O Zen nada tem a ver com palavras ou sutras; não requer nada; apenas que penetres diretamente no centro de teu próprio ser, onde encontrarás a luz’.
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‘Deixa que tua mente se torne um objeto da natureza, como uma pedra ou um pedaço de madeira. Quando um estado de perfeita imobilidade e inconsciência (cérebro e mente cessarem suas operações) é obtido, cessarão todas as limitações. Nenhuma idéia te perturbará, até que, de súbito, a luz brilhará no meio de imensa alegria! Então, estarás leve e livre. Tua existência estará libertada de todas as limitações. (‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’, disse Jesus). Ganhaste a visão ilimitada da verdadeira natureza das coisas. Então, verás tua verdadeira face (isto é, conhecerás a verdade). Isso virá quando te entregares por inteiro ao vazio; tudo – corpo, vida, mente, tudo que pertença ao teu ser mais íntimo. Todas os sutras, escrituras, discursos, sermões, não são mais que comunicações desse fato. Esse tesouro aguarda somente que o descubras e, uma vez ganho, ganho para sempre. ’
À pergunta: ‘Como estar sempre com o Buda?’, o roshi respondeu:
‘Não tendo perturbações na mente; sendo perfeitamente sereno (indiferente; não há o que fazer ou reclamar) em relação ao mundo objetivo. Permanecer assim, todo tempo, num vazio absoluto e calmo; esse o caminho da união com o Buda’.
‘O caminho do meio está onde não há nem meio nem lados. Quando estás escravizado ao mundo objetivo, tens um lado; quando estás com a mente perturbada, tens o outro lado. Quando nenhum dos lados existe, não há meio e, portanto, aí está o caminho do meio’.
Inquirido sobre como escapar dos grilhões da vida e da morte, o roshi respondeu: ‘Não há nem vida nem morte’.
O imperador Wu perguntou a Bodhidharma, que levou o Zen à China, qual o mais sagrado e elevado princípio do Zen. O sábio respondeu:
‘Um vasto vazio sem nada de sagrado dentro dele’.
Este é o sutra recitado nos mosteiros Zen, antes de cada refeição:
‘Assim, ó irmãos, todas as coisas têm o caráter do vazio. Não têm princípio nem fim. No vazio, não há forma, nem percepção, nem nome; nem olho, som, corpo ou mente, nem objetos... Nem conhecimento, nem ignorância, nem destruição da ignorância. Nem decadência, nem morte. Nem dor, nem origem, nem cessação da dor. Quando os impedimentos da consciência (conteúdos mentais) são removidos, o homem se torna livre de todos os medos e da mudança e goza o Nirvana total’.
O Zen é obrigado a recorrer a toda essa negação devido à nossa ignorância inata que firmemente adere à mente como roupa molhada ao corpo. Ignorância é outro nome do dualismo lógico. É um mundo de negativas que conduz a uma afirmativa mais alta e absoluta. No mundo das negativas, o corvo é preto e a neve é branca; no mundo do absoluto, o corvo não é negro, nem a neve é branca; contudo, cada um em si mesmo é branco ou negro. Por isso, nossa linguagem fracassa na exata transmissão do significado final (‘coisas inefáveis’).
Um monge, ao roshi: ‘O que diríeis se eu viesse até vós sem nada trazer?’ O roshi: ‘Colocai no chão. ’ O monge: ‘Eu disse que não traria nada, como posso colocar no chão?’ Roshi: ‘Nesse caso, levai de volta. ’ O roshi mostrava aí a inutilidade da discussão filosófica, para alcançar a meta do Zen. Mesmo a idéia de não ser ou não ter nada deve ser posta de lado. Para buscar o Buda (Deus, Cristo, iluminação), temos de renunciar ao Buda; renunciar a todas as doutrinas e crenças. É o único caminho. Enquanto estivermos falando do nada ou do absoluto, de Deus ou do Buda, estamos nos afastando cada vez mais do satori. A única maneira de saber é jogando-nos diretamente ao abismo sem fundo (vazio, meditação).
‘Só os ignorantes buscam o Buda fora de si mesmo. Procurar fora de você o Buda (ou o Cristo; são a mesma coisa) é como cavalgar o boi para procurar o boi’. (isto é, o Buda já está aí; você é o Buda).
O Zen comete absurdos e irracionalidades todo o tempo; mas isso é apenas aparente. Enquanto restar um leve traço de consciência não há Zen. Somente quando a mente está vazia de tudo, pureza ou impureza, estará absolutamente pura.
‘Como posso disciplinar a mente para alcançar a verdade?...’Não há nenhuma mente a ser disciplinada, nenhuma verdade a ser alcançada’... ’Então, porque diariamente vos reunis aos monges, para instruí-los?’... ‘Eu não tenho uma polegada de espaço, portanto onde reuniria os monges? Não possuo língua, como pois instruí-los?... ’Como dizeis uma mentira dessas na minha cara?... ‘Se não tenho língua como posso dizer uma mentira na tua cara?’... ‘Não consigo compreender vosso raciocínio’... ‘Nem eu’.
O processo lógico comum de pensamento e raciocínio, que tem sido a ruína da humanidade, é impotente para satisfazer nossas necessidades mais profundas. Assim o Zen quer que se adquira um novo ponto de vista para que se possam ver os segredos da vida e da natureza, libertando-nos da escravidão da lógica. Quando o Zen quer que experimentes a doçura do açúcar, ele o coloca direto na tua boca, pois, como se fazer entender por palavras? Qualquer explicação desperdiça tempo e energia e dificilmente satisfaz. O Zen abomina todos os meios, mesmo os intelectuais. Por isso, ele é muito prático. Aponta diretamente a vida, não fazendo sequer referência à alma ou a Deus, ou a coisa alguma que interfira ou perturbe o natural curso vital. A idéia é captar a vida como ela é, sem intermediários. Nenhuma discussão verbal ou explicação é necessária. Nenhum valor real é atribuído a palavras como Deus, Buda, Alma, Infinito, Uno. São somente palavras convencionadas (pelos homens) e, por isso, não conduzem à compreensão que buscamos. Por isso são palavras desprezadas pelo Zen. Ele não despreza Deus, Buda etc., mas as palavras com que são rotulados. Por isso, disse o mestre: ‘Limpai completamente a boca (mente) quando pronunciardes (mentalmente ou não) o nome do Buda’.
A finalidade do Zen é a aquisição de um novo ponto de vista, o satori, o olhar intuitivo (ver sem a intervenção de conhecimentos anteriores, sem a intervenção de raciocínios) na essência das coisas. É o desabrochar de um novo mundo, até então não percebido, em face da confusão (medos, ilusões, suposições, cultura etc.) da mente dualística. O mundo continua o mesmo; nós é que vamos ter uma nova concepção dele, pela nossa interpretação, agora correta.
Um monge pediu ao roshi que o instruísse. Disse o roshi: ‘Já tomaste a re
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CHEQUES DA ABUNDÂNCIA
NA LUA NOVA.
«Que os Santos Seres, cujos discípulos aspiramos ser, nos mostrem a luz que
buscamos e nos dêem a poderosa ajuda
de sua Compaixão e Sabedoria. Existe
um AMOR que transcende a toda compreensão e que mora nos corações
daqueles que vivem no Eterno. Há um
Poder que remove todas as coisas. É Ele que vive e se move em quem o Eu é Uno.
Que esse AMOR esteja conosco e que esse
PODER nos eleve até chegar onde o
Iniciador Único é invocado, até ver o Fulgor de Sua Estrela.
Que o AMOR e a bênção dos Santos Seres
se difunda nos mundos.
PAZ e AMOR a todos os Seres»

A lente que olha para um mundo material vê uma realidade, enquanto a lente que olha através do coração vê uma cena totalmente diferente, ainda que elas estejam olhando para o mesmo mundo. A lente que vocês escolherem determinará como experienciarão a sua realidade.
Oração ao Criador
“Amado Criador, eu invoco a sua sagrada e divina luz para fluir em meu ser e através de todo o meu ser agora. Permita-me aceitar uma vibração mais elevada de sua energia, do que eu experienciei anteriormente; envolva-me com as suas verdadeiras qualidades do amor incondicional, da aceitação e do equilíbrio. Permita-me amar a minha alma e a mim mesmo incondicionalmente, aceitando a verdade que existe em meu interior e ao meu redor. Auxilie-me a alcançar a minha iluminação espiritual a partir de um espaço de paz e de equilíbrio, em todos os momentos, promovendo a clareza em meu coração, mente e realidade.
Encoraje-me através da minha conexão profunda e segura e da energia de fluxo eterno do amor incondicional, do equilíbrio e da aceitação, a amar, aceitar e valorizar todos os aspectos do Criador a minha volta, enquanto aceito a minha verdadeira jornada e missão na Terra.
Eu peço com intenções puras e verdadeiras que o amor incondicional, a aceitação e o equilíbrio do Criador, vibrem com poder na vibração da energia e na freqüência da Terra, de modo que estas qualidades sagradas possam se tornar as realidades de todos.
Eu peço que todas as energias e hábitos desnecessários, e falsas crenças em meu interior e ao meu redor, assim como na Terra e ao redor dela e de toda a humanidade, sejam agora permitidos a se dissolverem, guiados pela vontade do Criador. Permita que um amor que seja um poderoso curador e conforto para todos, penetre na Terra, na civilização e em meu ser agora. Grato e que assim seja.”
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