(6) ‘A CONSCIÊNCIA DO UNIVERSO’ Jan 2008
(De Amit Goswami)
(Amit Goswami, filho de um brâmane, é, hoje, titular de Física Quântica do Instituto de Física Teórica da Universidade de Oregon, EUA. É autor de numerosos textos científicos).
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Prova, através de revelações da física quântica, que a Consciência Universal, ou Consciência Una, à qual damos o nome de Deus, cria o universo material, e que não é, como sempre julgou a ciência clássica, a matéria cerebral que cria a mente ou consciência. Traz revelações de graves implicações, explicando mesmo porque ciência e ‘religião’, antes consideradas adversárias, hoje podem se dar as mãos.
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INTRODUÇÃO
A ciência clássica parte da suposição, aceita por todos, de que, fora e em torno de nós, existe uma realidade real, objetiva, constituída de coisas sólidas ou não, objetos que possuem atributos (massa, peso, carga elétrica, momentum), ocupam lugar no espaço e têm existência contínua através do tempo, além de inércia, energia, e ainda forma e cor.
A física quântica, entretanto, afirma que o universo não existe sem que alguma coisa lhe perceba a existência. Essa alguma coisa é o cérebro de seres sencientes (que têm sensações, que sentem) sem o qual nada existiria no espaço-tempo. (Mas, e antes de haver seres sencientes, havia um universo? Somente seres humanos podem percebê-lo? E os demais seres cerebrados? As respostas virão mais à frente).
A nova física afirma, também, que a suposição de que o elétron seja um pontinho de matéria é totalmente errada. Isso porque o elétron parece uma nuvem composta de um número infinito de possíveis elétrons, que parecem uma única partícula quando, e apenas quando, o observamos (Ver o ‘experimento da dupla fenda’). Quando não está sendo observado, não é uma partícula única, parecendo uma nuvem, ondulando como uma onda que é capaz de mover-se a velocidades superiores à da luz, o que desmente o postulado de Einstein, de que nada material pode ultrapassá-la. Mas, quando o elétron se move com essas velocidades, não é, efetivamente, uma peça de matéria no espaço-tempo, mas uma nuvem de possíveis elétrons no espaço transcendental (fora do espaço-tempo), ali não havendo limite à sua velocidade.
Outra coisa, a interação (interatuação) de dois objetos quânticos. De acordo com a mecânica quântica, mesmo que os dois estejam separados por imensas distâncias, os resultados de observações feitas indicam que deve, forçosamente, haver entre eles uma dependência (conexão) que permite que a comunicação se mova mais rápida que a luz. Quando um deles sofre um estímulo, o outro, imediatamente, acusa o mesmo efeito, seja qual for a distância entre eles.
Ainda mais: um sistema (conjunto) quântico, como um elétron, em um estado físico fechado (sem que se permita a observação sobre o sistema) parece estar num estado indeterminado, incerto, mas, assim que é observado, a indeterminação se transforma em um estado definido, determinado, que era imprevisível antes da observação. (O gato de Schrödinger).
A física quântica veio demonstrar, por numerosas provas, que o mundo objetivo, lá fora - um mundo que corre para frente no tempo, como um relógio; no qual a ação à distância, particularmente a ação instantânea, é impossível; no qual uma coisa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo - é apenas ilusão nossa, interpretação errônea. Afirma que todos esses paradoxos (absurdos) são explicáveis e compreensíveis, desde que abandonemos a suposição de que existe uma realidade objetiva lá fora independente de nossa observação e da nossa consciência. E diz, ainda mais, que o universo é autoconsciente e que é a própria consciência que cria o mundo físico; que a consciência é algo transcendental, isto é, fora do espaço-tempo, não-local, e que é e está em tudo. Embora seja a única realidade, só podemos ter dessa consciência um vislumbre através de nossa observação, que é a ação que cria os aspectos material e mental de tudo que é percebido por nossos sentidos.
Com relação à dualidade mente e corpo, ou mente e cérebro, afirma que ela não existe; que a consciência é tudo, e mostra como uma única consciência pode ser tantas consciências separadas. O autor conta como vivenciou essa teoria ao compreender a verdade de que, como afirmam os místicos, “nada, senão a consciência, tem que ser experienciada, pelo indivíduo, a fim de ser realmente compreendida”.
INTEGRAÇÃO CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE
Nos últimos 400 anos, a crença adotada pela ciência era a de que esta só pode ser construída sobre a idéia de que tudo é feito de matéria, portanto de átomos, em um espaço vazio (infinito). O materialismo era verdadeiro ‘dogma’ (crença imposta pela ciência), apesar de sua incapacidade de explicar as experiências mais simples de nossa vida. Em resumo, deu-nos uma visão incoerente do mundo porque não conseguiu integrar (associar) mente (consciência) e matéria, as duas coisas com as quais estamos permanentemente em contato.
Amit afirma que a física a quântica lança uma ponte sobre o abismo existente entre ciência e religião, porque constrói uma ciência que pode incluir as religiões do mundo e trabalhar em cooperação com elas para se compreender a posição do homem no universo. E vem confirmar os ensinamentos dos antigos místicos de que a consciência, e não a matéria, é a essência de tudo o que existe; que é a consciência que cria a matéria e não o contrário, como a ciência clássica tem afirmado nos últimos quatro séculos.
Tudo que existe no universo é constituído daquilo que chamamos “objetos quânticos”. Eles se apresentam como ondas e, por isso, podem estar em dois ou mais lugares ao mesmo tempo. Mas, quando o objeto quântico é observado, ele é encontrado em um único lugar, aqui, e não ali. Quando observamos, a onda sofre um colapso (decai) e se transforma em partícula, num único lugar; quando não observamos, novamente se transforma em onda e pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Estas afirmações, que parecem absurdas, foram confirmadas por numerosas e exaustivas provas científicas.
Portanto, é nossa consciência (através da observação) que produz esse efeito sobre os objetos quânticos, o que vem provar que estamos intimamente ligados com a realidade (é nossa consciência que cria tudo o que nossos sentidos percebem); que estamos totalmente ligados ao universo. A consciência é o agente que afeta os objetos quânticos (sejam microscópicos ou macroscópicos; não há objetos que não sejam quânticos), e os torna perceptíveis aos nossos sentidos. É ela que transforma as ondas de modo que podemos observá-las em um único lugar, como uma ou mais partículas. Tudo, dos elétrons às galáxias, é feito de consciência. É a consciência, e não a matéria, o elo que nos liga uns aos outros e ao mundo. E, diz o autor, se as pessoas realmente compreendessem isso, as opiniões delas sobre guerra e paz, poluição ambiental, justiça social, valores religiosos e todos os mais variados campos das atividades humanas, mudariam radicalmente.
ALGUMAS PROPRIEDADES QUÂNTICAS COMPROVADAS
- um objeto quântico pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo (a propriedade da onda; a nuvem de probabilidades);
- um objeto quântico só se manifesta na realidade espaço-tempo (nossa realidade), como partícula, quando o observamos (a nossa observação produz o colapso da onda que, instantaneamente, se transforma em partículas); quando não há observação, o objeto não se manifesta no espaço-tempo (ver o ‘experimento da dupla fenda’);
- o objeto quântico deixa de existir aqui e, simultaneamente, passa a existir ali, e não podemos dizer que ele passou através do espaço entre as duas posições, aqui e ali (o salto quântico);
- o efeito de nossa observação sobre um objeto quântico influencia, instantaneamente, seu objeto gêmeo correlato, pouco importando a distância que os separa (ação instantânea à distância, distância que pode ser imensurável).
TUDO EXISTE NA CONSCIÊNCIA (=Tudo existe em ‘Deus’)
Para a ciência anterior, tudo é feito de átomos e todos os objetos são reais e independentes dos sujeitos, nós, ou da maneira como os observamos. Essa idéia de que as coisas sejam constituídas de átomos não passa de suposição não provada em relação a todas as coisas. Quando a física quântica traz estas novas idéias, parecendo absurdas em relação àquelas da física clássica, cartesiana, tendemos a ignorar a possibilidade de que tais paradoxos (opiniões contrárias às comumente aceitas) estão surgindo devido à falsidade de suposições anteriores, (interpretações incorretas), aceitas, mas não comprovadas, esquecendo que uma suposição não se transforma em verdade só porque foi considerada verdade por muito tempo.
Para o realismo materialista, a consciência é destituída de importância (tanto que a psiquiatria tem encontrado resistência dentro da área médica; imaginem, destituído de importância aquilo a que todos nós nos sentimos intimamente ligados em todos os instantes de nossa vida!). A física quântica, contudo, oferece razões irresistíveis para se duvidar dessa afirmação. Mostra que há só uma realidade, a consciência, e não duas, consciência e matéria. A filosofia advinda da nova física reconhece que tudo, incluindo a matéria, nós, o mundo, existe na consciência e é por ela manipulado.
A filosofia do idealismo monístico (da nova ciência) proporciona uma interpretação da física quântica livre de paradoxos (contradições), coerente, lógica e satisfatória. Mesmo os fenômenos mentais, como auto-consciência, livre-arbítrio, criatividade, percepção extra-sensorial, telepatia etc., encontram explicações simples e aceitáveis, de tal modo que nos permitem compreender o nosso self (o sujeito da consciência) em total harmonia com aquilo que as grandes tradições espirituais ensinaram por milênios, mas que a ciência nunca aceitou e, mesmo, sempre ridicularizou. O homem, através dos séculos, tem relatado experiências “paranormais”, como a comunicação pela telepatia, mente a mente, e outras, sem necessidade de sinais locais e, hoje, há numerosas provas científicas de que isso pode realmente acontecer.
Pela física quântica, a consciência é fundamental, as experiências “espirituais” são reconhecidas como dotadas de pleno sentido, e são aceitas muitas das interpretações da experiência espiritual humana que deram lugar ao nascimento das várias religiões do mundo. Muitos conceitos das várias tradições religiosas tornam-se lógicos e satisfatórios quando os analisamos à luz dos experimentos da física quântica.
Os filósofos antigos, ao emitirem, através dos séculos, o famoso conselho “Conhece-te a ti mesmo e serás Deus”, certamente sabiam que nosso self (o sujeito da consciência) é que organiza e dá significado ao mundo. O auto-conhecimento nos faz perceber isso. A aceitação do realismo materialista (filosofia que afirma que todas as coisas, mesmo a consciência e a mente, são produtos da matéria) pela ciência clássica, contudo, mantinha essa visão alterada. Em vez de unidade com a natureza, a consciência separou-se dela cada vez mais, dando origem a uma psicologia separada da física, pois não pode com ela integrar-se, fazendo-nos viver sem saber que nós e o universo somos um. De tal modo isso é sério que o homem está destruindo o próprio mundo, agredindo-o de todas as maneiras (ameaças de destruição nuclear; guerras e mais guerras como meio absurdo de resolver litígios entre nações; fome endêmica, como na África, quando o que alguns países, sozinhos, produzem, daria para saciar a fome do mundo; poluição ambiental severa etc.). Tínhamos uma visão de mundo que produzia enorme separação entre nós e nossos semelhantes, esquecendo-nos de que todos compartilhamos dotes genéticos, mentais e espirituais idênticos ou muito semelhantes (o DNA do homem e o de muitos animais guardam enorme semelhança).
CAEM OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DA FÍSICA CLÁSSICA
A mecânica quântica demonstrou que a visão do mundo conforme a ciência clássica é errada, embora muitos cientistas estejam ainda confusos a respeito disso. Apesar dos dados solidamente comprovados que desmentem importantes princípios fundamentais da ciência anterior, muitos cientistas ainda acreditam naquilo que já foi desmentido, como um mundo objetivo fora de nós, o mundo dos objetos, que existiria independente da existência de um observador (o princípio da objetividade forte); que o movimento de um objeto pode ser previsto com exatidão se considerarmos as leis do movimento, as condições iniciais do objeto e qual sua velocidade (o princípio do determinismo causal); a teoria da relatividade, de Einstein, de que nenhuma velocidade existe maior que a da luz, limitada a 300 mil km por segundo (o princípio da localidade, que afirma que todas as influências que se fazem sentir no espaço-tempo entre objetos materiais devem ser locais: elas têm que viajar no espaço, um pouco de cada vez, com velocidade finita).
Outro princípio, aceito pela ciência clássica, é o do monismo materialista: tudo que existe no mundo, mesmo mente e consciência, é feito de matéria. Isto é, a mente e a consciência são fenômenos produzidos pela matéria do cérebro, embora nenhum cientista saiba dizer como extrair mente e consciência da matéria cerebral.
Os cinco princípios básicos da ciência clássica foram desmentidos por numerosos experimentos da física quântica. Em vez de objetividade forte, o que existe é objetividade fraca: os objetos somente existem quando também existe um observador, observando-os. A objetividade depende, pois, do observador; os objetos não existem, simplesmente, fora de nós, como nos parece; não são compostos, durante todo tempo, de aglomerados de partículas formando corpos como os vemos, pois, quando não estão sendo observados se transformam em nuvens de ondas de possibilidades (fora do espaço-tempo).
O determinismo causal foi destruído porque nunca podemos determinar, com exatidão e ao mesmo tempo, a posição e a velocidade de um objeto quântico. Este não tem seu movimento previsível; se sua velocidade é conhecida sua posição será incerta, e vice-versa (Princípio da Incerteza, de Heisenberg). Só conhecemos a trajetória de um elétron quando o observamos; então, podemos encontrar o elétron. Quando não o observamos, o elétron existe como onda de possíveis elétrons, podendo ocupar dois ou mais lugares ao mesmo tempo e espalhar-se em grandes dimensões, sendo incerta, portanto, a posição na qual se manifestará quando for observado.
O princípio da localidade também foi destruído. Existem numerosas provas de que ocorrem comunicações entre objetos através de sinais que se propagam pelo espaço muito além da velocidade da luz e, até, comunicações instantâneas (fora do espaço-tempo, e por isso, não-locais. A velocidade das comunicações no espaço-tempo tem por limite a da luz, como comprovado por Einstein).
O princípio de que todas as coisas são feitas de matéria (monismo materialista) e de que a consciência é produzida pela matéria do cérebro caiu também. A nova física afirma que tudo é feito de consciência, mesmo os elétrons e, em conseqüência, todos os objetos; assim, consciência e mente não são fenômenos produzidos pela matéria cerebral. Na realidade, é a consciência que produz a matéria, o cérebro e todas as coisas que existem. E só as produz quando a nuvem quântica de probabilidades é observada por seres sencientes, o que lhe provoca o colapso e a transforma em partículas, isto é, objetos no espaço-tempo; matéria, portanto.
Enquanto o movimento, na física clássica, é contínuo, na quântica é descontínuo. Entre observações jamais se poderá dizer que um objeto está aqui ou ali enquanto não se manifeste pelo colapso da nuvem de probabilidades. No átomo, o elétron salta de uma órbita para outra sem jamais passar pelo espaço entre as órbitas. Ele simplesmente desaparece de uma órbita e reaparece em outra, de forma descontínua; não há, pois, continuidade em seu movimento. O elétron jamais ocupa qualquer posição entre órbitas; ou está numa ou noutra. E mais, não há como saber quando um elétron vai saltar ou para qual órbita irá se há mais de uma órbita inferior à que ele está. Só se pode falar em ‘probabilidade e incerteza’.
Provou-se que, quando a luz (fóton, elétron) está em estado de onda, parece estar em dois (ou mais) lugares ao mesmo tempo. Quando captada num filme (observada, portanto) ela se mostra como um feixe de partículas. A luz tem que ser, portanto, ao mesmo tempo, onda e partícula.
Físicos quânticos explicam, em termos simples, as três mais importantes propriedades do átomo: estabilidade, identidade e capacidade de se regenerar.
Estabilidade: o elétron, quando salta de uma órbita para outra, dentro do átomo, perde energia em forma de luz (fótons); quando está numa determinada órbita, não emite (e não perde, portanto) energia. Só o faz quando salta de uma órbita de energia mais alta para outra de energia mais baixa. Assim, quando está na órbita mais baixa, não havendo um nível mais baixo para onde saltar, o elétron não mais perde energia, ficando estacionário (adquire estabilidade), e não há possibilidade de vir a se chocar com o núcleo.
Identidade de átomos de uma dada espécie: é conseqüência dos padrões ondulatórios em espaço fechado (como as ondas de um líquido em uma xícara). O padrão ondulatório (que identifica o átomo como sendo deste ou daquele corpo químico) é o mesmo em qualquer parte do Universo.
Capacidade de se regenerar: o padrão estacionário do átomo, dependendo tão só das condições de seu confinamento, não deixa traço (registro) de sua história passada (memória), pois o átomo regenera-se rapidamente, repetindo o mesmo desempenho sempre e sempre.
ONDAS-PROBABILIDADES-IMPREVISIBILIDADE-INCERTEZA
Ondas quânticas são ondas de probabilidades: o local onde há mais probabilidade de ser encontrada a partícula, quando sob observação, é aquele onde ocorrem maiores perturbações ondulatórias. Mas, como há apenas probabilidade, há também incerteza. No caso do elétron, ou de qualquer objeto quântico, só podemos falar na probabilidade de descobri-lo nesta ou naquela posição ou, então, falar na sua velocidade. Este é o princípio da incerteza de Heisenberg, que destrói o determinismo da ciência clássica. Na física clássica, conhecendo-se dados iniciais do movimento regular de um objeto, pode-se saber sua posição e/ou velocidade a qualquer momento; na quântica, o menor esforço para medir com exatidão um desses dois elementos torna vago o conhecimento sobre o outro, sendo insustentável o conceito de trajetória nitidamente definida de uma partícula. Também, as órbitas do átomo não dão indicação rigorosa do paradeiro de um elétron: a posição da órbita real é vaga, não se podendo afirmar que o elétron esteja nesta ou naquela distância do núcleo, quando se encontra neste ou naquele nível de energia.
No salto quântico há mais incerteza. O instante em que o elétron salta, e a órbita para onde salta, são acausais (sem causa) e imprevisíveis; portanto, probabilidade e incerteza governam os saltos quânticos.
A física quântica nos oferece uma nova e emocionante visão do mundo e contesta velhos conceitos da física clássica, tais como trajetórias determinísticas de movimento e a continuidade causal. Se as condições iniciais não determinam para sempre o movimento de um objeto; se, em vez disso, em cada ocasião em que observamos, há um novo começo, então o mundo é criativo no seu nível básico. Cada observação abre sempre novas possibilidades. Essa é a mensagem da física quântica: o mundo não é determinado, de uma vez para sempre, pelas condições iniciais; todo evento de observação é potencialmente criativo e pode trazer novas possibilidades, novas soluções (a imprevisibilidade do fluir).
O pacote de ondas se espalha com o passar do tempo. Em algum momento inicial (isto é, no instante anterior à interrupção de nossa observação), podemos localizar o elétron como um pontinho minúsculo (uma partícula); mas a nuvem de possíveis elétrons se espalhará, em seguida, por toda a cidade (ou continente ou além) em questão de instantes, podendo, pois, quando observado novamente, aparecer em qualquer lugar. (Parece-me que isso significa que um elétron, num momento, está constituindo ou faz parte de um objeto e, no momento seguinte, ao ser observado, pode estar fazendo parte de um outro objeto muito distante e muito diferente do primeiro).
Para termos a imagem de uma partícula localizada devemos, forçosamente, incluir, na operação, o ato de observar. A trajetória do elétron só aparece quando o observamos. Nosso ato de observar (medir) reduz o elétron-onda ao estado de elétron-partícula, imediatamente; cessada a observação, existirá o elétron-onda novamente, e instantaneamente.
Com o reconhecimento do espalhamento do pacote de ondas, e com a compreensão de que é o fato de observar que provoca, instantaneamente, o desmanche do pacote, conclui-se que o colapso é descontínuo (onda-observação-colapso-partícula; não-observação-onda; nova observação-colapso-partícula de novo etc.). Cessada a observação, a partícula transforma-se em nuvem, o pacote se espalha e esse espalhamento é que nos dá a incerteza sobre a localização exata do objeto. Se voltarmos a observar, o pacote localiza-se, mais uma vez, como partícula, mas sempre se espalha quando não há observação. Mesmo no caso de objetos macroscópicos, a Lua, por exemplo, a mecânica quântica afirma basicamente a mesma coisa; a diferença é que, nesse caso, o espalhamento do pacote é imperceptivelmente pequeno (mas não-zero) entre observações. E concluímos, também, que, fora do espaço-tempo, isto é, no nível quântico, na consciência unitiva, não existe separatividade entre as coisas que observamos, pois “coisas” só existem no espaço-tempo. Fora desse domínio, tudo é Um.
Falar em objeto quântico sem falar sobre o ser que o observa é impreciso, porque os dois, observador e objeto observado, são inseparáveis (Como diz a Kabbalah judaica, “se o homem contempla as coisas em meditação mística, tudo se revela como Um”). A nova física veio provar essa inseparabilidade: o mundo manifestado, o mundo dos objetos, não existe separado de nossa observação. Nós e o mundo somos totalmente inter-relacionados, interdependentes, uma só e única coisa (O Espectro da Consciência, de Wilber; os Upanishads).
Os princípios exaustivamente comprovados da nova física fazem que abandonemos as suposições básicas principais da física clássica:
Suposição 1: Objetividade forte - suposição de que existe, lá fora, um universo material, objetivo, independente da observação de uma mente senciente. A física quântica diz que nós somos quem escolhe o aspecto - onda ou partícula - que um objeto quântico revelará em determinada situação (e há provas conclusivas a respeito). A observação feita produz o colapso do pacote de ondas, transformando-o em partículas localizadas. Sujeito-observador e objeto-observado estão inter-relacionados completamente. Portanto, a objetividade é fraca; não existe por si só, pois depende, inteiramente, de nossa observação.
Suposição 2: Determinismo causal – suposição de que tudo que precisamos conhecer são as forças (causas) que atuam sobre cada objeto para que saibamos os efeitos sobre ele (posição e velocidade), o que não mais prevalece em face da incerteza quântica dada pela imprevisibilidade.
Suposição 3: Localidade - cai também; as ondas quânticas se espalham por enormes extensões e, em seguida, sob observação, instantaneamente entram em colapso, prova de que há comunicação instantânea entre elas, não importando a distância em que se achem umas das outras; são, portanto, sinais não-locais, que transcendem o espaço-tempo (este é local).
Suposições 4 e 5: Materialismo e Epifenomenalismo - a ciência clássica afirma que fenômenos mentais subjetivos, consciência e mente, são produzidos pela matéria de que o cérebro é feito. Mas, sabemos agora que a consciência é que produz a matéria, ao produzir o colapso das ondas quânticas. Antes da observação não existe qualquer objeto; com a observação, passam a existir. E isto se aplica não só a objetos microscópicos, mas, também, aos macroscópicos, pois todos são constituídos por objetos quânticos.
O autor afirma que se o realismo materialista (a presunção de que tudo que é real é feito de matéria), adotado pela física clássica, não é uma filosofia adequada nem mesmo para essa física (muitos fenômenos, particularmente os mentais, não são por ela nem compreendidos, nem explicados), deve ser substituído pela filosofia do idealismo monístico (que define a consciência como a realidade primeira e única, como o fundamento de todo ser), única que pode acomodar consciência e mente e toda estranheza da física quântica, e mesmo aquilo que constitui a base de todas as religiões do mundo.
CIÊNCIA, RELIGIÃO E MISTICISMO
Enquanto a ciência clássica tem sido a base das dúvidas, descrença e falta de fé nas religiões, como ocorre nas populações em geral, a nova filosofia do idealismo monístico (decorrente da física quântica) fará com que ciência e religião trabalhem juntas na busca da verdade total (Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”).
Pelo idealismo monístico, não é a matéria, mas a consciência é que é fundamental, a essência de tudo. O mundo da matéria e o mundo mental (juntos constituem o mundo da manifestação) são criados pela consciência. Além disso, afirma a realidade de um reino transcendente, de arquétipos, de idéias, que são a origem de todos os fenômenos mentais e materiais. Que tudo está na consciência, a realidade única e final. Que nós apenas vemos sombras, pois a realidade está na luz e formas arquetípicas das quais nossa observação só percebe reflexos. As sombras são manifestações imanentes, irreais na experiência humana, das realidades arquetípicas de um mundo transcendente (o atemporal, não-local, o absoluto). Contudo, as sombras projetadas pela luz, que é a consciência una, são a única realidade para nossa mente, porque elas são tudo o que percebemos.
Essas mesmas idéias básicas estão contidas, com grande freqüência, na literatura religiosa de numerosas culturas. No hinduísmo: arquétipos e sua forma imanente (manifestada), e a luz (Brahman), a consciência universal, única sem segundo, fundamento de todo ser; o universo é Brahman; nada mais existe. No budismo: a luz da consciência única. No taoísmo: o Tao que permite, ora as trevas, ora a luz, e o uno que transcende suas manifestações complementares. No judaísmo: duas ordens de realidade, a transcendente e a imanente (esta, o mundo da separação, da manifestação) e tudo se revela como um. No cristianismo: o céu e a terra, o transcendente e o imanente, que não existem separados da Divindade, Deus. Ensinou São Dionísio: “Ela, a consciência está em nós, na alma e no corpo, está no mundo e, ao mesmo tempo, abaixo, acima e à volta do mundo, nas pedras, na água, no fogo, no céu, em tudo que existe” (o Espírito Santo que está em tudo. Na Bíblia: “Ele está acima e abaixo, à esquerda e à direita, à frente e atrás, dentro e fora”. E, “é ele que opera em nós o pensar, o querer e o fazer”).
A consciência una só nos chega através de manifestações complementares (às quais chamamos opostos: idéias e formas, céu e terra, corpo e mente, bem e mal, feio e belo, alto e baixo etc). E numerosos idealistas (místicos) sempre afirmaram que é possível experienciar diretamente o “céu” se o procurarmos além das experiências mundanas do dia-a-dia. De acordo com o idealismo monístico, a consciência do sujeito em uma experiência sujeito-objeto (eu aqui, o mundo lá), é a mesma que constitui o fundamento de todo ser (a consciência total). Logo, a consciência é uma só, unitiva; só há uma consciência, e somos essa consciência (Upanishads, do hinduísmo: “Tu és isso”). A nova física veio comprovar essa afirmação.
A separatividade que sentimos em nossa experiência comum, insiste o místico (e, hoje, a física quântica), é ilusão. Se meditarmos sobre a verdadeira natureza de nosso ser, descobriremos, como o fizeram os místicos de todas as eras, que há uma só consciência por trás de toda diversidade (somos uma só consciência indivisa). Essa consciência recebeu muitos nomes, conforme a cultura de cada povo: Atman, Brahman, Espírito Santo, Deus, consciência cósmica, Cristo, Buda, Tao, Alá etc. E todos concordam que a experiência (percepção) direta dessa consciência una é de um valor imensurável, porque traz felicidade e alegria sem fim àquele que a experimenta (iluminação).
Catarina, mística cristã, séc. XV: “Meu ser é Deus, não por uma simples participação (minha nele), mas por uma transformação autêntica de todo meu ser”.
Hui-Neng, séc. VI, fundador do Zen Budismo: “Nossa própria natureza do ser é Buda (desperto, iluminado, livre do sofrimento) e, fora dessa natureza, não há outro Buda”. (isto é, só há Um e somos esse Um).
Ibn al-Arabi, sufista, séc. XII: “Tu és Ele, sem qualquer limitação, se conheceres tua própria existência dessa maneira”. (Novamente, o ‘Conhece-te a ti mesmo’).
Moisés de Leon, cabalista, séc. XIV: “Deus, em sua manifestação suprema, na plenitude de seu ser, é chamado “Eu”. (Bíblia: “Eu sou aquele que sou“).
Padmasambhava, budista, séc. VII: “A única verdade está dentro de nós”.
Meister Ekhart, monge, séc. XIII: “Percebo que Deus e eu somos um só”.
Monsoor al-Halaj, sufista, séc. X: “Eu sou a verdade”.
Shankara, hindu, séc. VIII: “Não participo da ilusão ‘eu’ e ‘tu’, ‘isto’ e ‘aquilo’. Sou a realidade sem começo e sem fim. Sou Brahman, o primeiro sem segundo, a bem-aventurança sem fim, a verdade eterna e imutável. Resido em todos os seres. Agora, eu sei que sou Tudo”.
E Jesus: “Eu e o meu Pai somos um”.
Para o místico, o valor da experiência da unidade (isto é, de que toda diversidade é uma coisa só, aí incluídos todos os seres e coisas do universo) é que ela nos traz uma transformação que gera amor e compaixão universal, porque liberta o ser humano da ilusão da separatividade e dos apegos compensatórios (dinheiro, poder, beleza, sexo, crenças, drogas, opiniões) a que nos agarramos.
Os místicos alertam que todos os ensinamentos e a literatura espiritualista apenas apontam o caminho; não são o caminho, nem a verdade buscada. Esta só é encontrada, por cada um, no mais profundo de nossa própria consciência. (Em nós mesmos; e temos que percebê-la ali, por experiência própria).
O misticismo implica (tem função de) buscar a verdade sobre a realidade final. A função da religião é outra. Os seguidores de um determinado místico, geralmente após sua morte, reconhecem que a busca individual da verdade não é acessível a todos, que nem todos têm a possibilidade de compreender os ensinamentos do místico (Jesus: ‘Quem tem olhos de ver, veja! ’). A maioria das pessoas está perdida na ilusão da separatividade do ego, e ocupada nas atividades (em particular, as necessárias à sobrevivência) a que o ego se entrega; assim, não se sente motivada a descobrir por si mesma a verdade. Como pode, então, a luz da realização do místico ser partilhada com essas pessoas? Simplificando os ensinamentos (o que os torna, de certa maneira, deturpados e incompletos) para torná-los acessíveis à pessoa comum, que se acha presa às exigências da vida do dia-a-dia. Não têm nem o tempo, nem a religiosidade necessária para compreender a beleza e a liberdade que a transcendência proporciona (Jesus: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’) e, assim, não se interessam nem compreendem a tremenda importância da experiência mística. Dessa maneira, os divulgadores da verdade mística substituem a experiência direta da consciência una pela idéia de um ‘Deus’. Deus, o criador transcendente do universo, é transformado, na compreensão da pessoa comum, na imagem dualista de um poderoso (e, muitas vezes, terrível, vingativo, misericordioso, mas punidor etc., como apregoam as escrituras) Rei dos Céus, lá em cima, que governa a Terra, aqui em baixo. Inevitavelmente, a mensagem do místico é diluída e distorcida, na mente dessas pessoas, de acordo com a cultura popular local, limitada. (Por isso, também, as pessoas comuns não podem compreender a presença de ‘Deus’, a consciência una, em todos e em tudo).
Ainda assim, as religiões conseguem transmitir, em parte, o espírito da mensagem, fato que lhes dá vida e duração no tempo. Mesmo sem compreensão profunda da mensagem, as pessoas se agarram às religiões como a tábuas de salvação para os problemas do dia-a-dia e consolo paras as hipóteses do após-morte e, assim, as religiões não morrem facilmente.
O místico percebe, claramente, que a crença geral na separatividade entre os seres é o obstáculo ao amor incondicional a todos. Como é que não vamos amar o próximo se soubermos que só existe uma consciência e que nós e os outros não estamos separados pois somos essa única consciência? Mas como motivar a pessoa comum, que não vivencia essa verdade, a amar o próximo? O místico sabe que o resultado básico dessa falta de amor é conflito e sofrimento. Para evitá-los, recomenda que nos voltemos para dentro de nós mesmos (pela meditação) para iniciar a jornada da auto-realização. Nas religiões, esse ensinamento é traduzido no mandamento de que devemos amar a Deus sobre todas as coisas, para obtermos salvação. O método está num conjunto de práticas, baseadas nos ensinamentos originais, que formam o código moral das várias religiões (os dez mandamentos cristãos, os preceitos budistas, etc.).
Abaixo, os três aspectos universais de todas as religiões exotéricas:
1. A premissa (idéia inicial) de que há um erro em nossa maneira de ser (ignorância, pecado original, sofrimento, desobediência, expulsão do paraísoetc.);
2. A promessa da libertação desse erro (céu, reencarnação, ressurreição, vida eterna, paraíso, reino de Deus) desde que a “senda”, proclamada pela determinada religião, seja seguida;
3. A senda, que consiste em seguir a religião e cumprir seu código moral e normas sociais. (No código moral ou de ética, e nas normas sociais está parte da diferença entre as várias religiões - o que devemos e o que não devemos fazer para sermos salvos; pecados, virtudes, méritos e deméritos).
Há um dualismo evidente no primeiro aspecto: o certo e o errado, o bem e o mal, enquanto o ensinamento dos místicos consiste em transcender (ir além, superar) todas as dualidades, inclusive a do bem e do mal.
O segundo aspecto traz outro dualismo: o céu e o inferno. O místico não faz distinção entre céu e inferno; considera-os resultantes naturais da maneira como vivemos e até do fato de vivermos.
O monismo do idealismo monista, quando interpretado pelas religiões, torna-se cada vez mais confuso e se enche de idéias dualistas. Sobretudo no Ocidente, o dualismo das religiões monoteístas domina a psique popular, muito embora o dualismo Deus e Mundo não resista ao exame científico (como, também, não resistem os dualismos cartesianos mente e corpo, espírito e matéria, Deus e Diabo, etc.).
À pergunta se a ciência quântica é compatível com a filosofia do idealismo monístico a resposta é “sim”, e que a física quântica é até mesmo essencial para sua interpretação. Os paradoxos da nova física desaparecem quando examinados do ponto de vista do idealismo monístico do misticismo. Mesmo questões como transcendência e pluralidade de consciências advindas de uma única consciência (isto é, como de uma única consciência advêm muitas consciências, muitas almas, ou espíritos), são solucionadas pela nova física.
ONDA E PARTÍCULA
Nós nunca veremos o aspecto de onda de nenhum objeto quântico, porque, experimentalmente, uma ondícula isolada (os aspectos onda e partícula do objeto) só se revela como partícula localizada, e quando o observamos. O aspecto onda de uma ondícula isolada só existe no domínio transcendental, isto é, fora do espaço-tempo. Quando não está sob observação, o objeto não tem qualquer realidade no espaço-tempo. Entre observações, o objeto espalha-se (é, novamente, uma onda), permanecendo em “potentia” (o objeto existirá apenas potencialmente na consciência una). Uma vez que a onda, assim que observada, entra instantaneamente em colapso, a “potentia” não pode existir no domínio material do espaço-tempo. Neste domínio, todos os objetos obedecem ao limite de velocidade de Einstein. Como o colapso é instantâneo, só pode dar-se além do espaço-tempo, no domínio transcendental, da não-localidade, onde não há limites à velocidade.
Entre observações, o objeto existe como uma forma de possibilidade (em potentia), fora do espaço-tempo, no atemporal. Mesmo objetos macroscópicos, como a Lua (que é um objeto quântico porque inteiramente constituída por objetos quânticos), a nova ciência admite, não está lá em cima quando não está sendo observada. Entre observações ela se espalha, existindo como uma forma de possibilidade (em “potentia”) transcendente. Pensamos que a Lua está sempre ali, no espaço, mesmo quando não a olhamos. Mas, quando nenhum cérebro-mente a observa, a onda de possibilidades da Lua espalha-se, ainda que seja espalhamento mínimo. Quando a observamos, a onda entra, instantaneamente, em colapso e aos nossos olhos surge a Lua (e presumimos que ela esteve ali o tempo todo). Logo, ela não poderia estar no espaço-tempo. Não há objetos no espaço-tempo sem um sujeito senciente que os observe. Não há objetos no domínio transcendental, mas possibilidade de objetos, isto é, objetos em “potentia”.
As ondas quânticas são semelhantes aos arquétipos (processos psíquicos primordiais, de Jung; a física quântica as considerada os próprios arquétipos) no domínio transcendente da consciência; e as partículas (objetos, corpos), que se manifestam quando as observamos, são as sombras na parede da caverna platônica produzidas pela luz dos arquétipos (segundo Platão, vemos, de tudo, somente as sombras na parede, pois estamos de costas voltadas para a luz; isto é, não vemos a verdade da unidade, pois só percebemos a diversidade após o colapso no espaço-tempo; a verdade só nos é mostrada na meditação).
A CIÊNCIA DESCOBRE A TRANSCENDÊNCIA.
A física quântica também provou que, quando dois objetos quânticos correlacionados (uma relação que persiste mesmo quando eles já deixaram de interagir), se observarmos um deles (produzindo, assim, o colapso de sua função onda), a função onda do objeto correlacionado entra, simultaneamente, em colapso, mesmo que um esteja a uma distância macroscópica do outro, e mesmo que nenhum sinal de comunicação entre eles exista, no espaço-tempo, para lhes mediar a conexão. Como Einstein provou, todas as conexões ou interações no mundo material têm que ser mediadas por sinais que viajam no espaço-tempo (o princípio da localidade) e, portanto, são limitados pela velocidade da luz. Se a conexão entre objetos correlacionados é instantânea, essa conexão só pode estar fora do espaço-tempo, no domínio transcendental, na não-localidade. Assim, o processo fundamental da natureza reside fora do espaço-tempo, mas produz eventos que se localizam no espaço-tempo (quando sob observação de sujeito senciente). A realidade não-local está em toda parte e em parte alguma, em toda e em nenhuma ocasião. Ou, a não-localidade, a transcendência, está em lugar nenhum e em todo lugar, aqui e agora, como afirmaram os místicos em frases de difícil interpretação, mas agora facilmente compreendidas pela física quântica.
A NOVA FILOSOFIA E AS ESTRANHEZAS QUÂNTICAS
Todos os paradoxos (estranhezas, contradições) da física quântica são resolvidos pela filosofia do idealismo monístico, baseada numa consciência una, única, transcendente, que gera o colapso da onda quântica. Minha consciência provoca o colapso do estado quântico de meu cérebro-mente quando vejo conscientemente (com consciência de ver), isto é, mesmo meu cérebro, quando não observado por mim, (quando a consciência não está atenta), permanece em estado de onda (no domínio transcendental); quando lhe presto atenção (quando a consciência está atenta, quando observa, por meu intermédio, de mim, ser senciente), a função onda sofre colapso e meu cérebro assume a função de partículas, passando a ser um objeto no espaço-tempo. Quando vemos sem consciência de que vemos, não há colapso. Quando vemos com consciência de ver, a onda dos objetos quânticos, que constituem nosso cérebro-mente, entra em colapso, e o cérebro existe no espaço-tempo; quando vemos sem consciência de estarmos vendo (a observação indiferente, sem escolha, geral?) nosso cérebro-mente está, então, em estado de onda, em ‘algum lugar’ fora do espaço-tempo, na dimensão transcendental, não se diferenciando de qualquer outra onda; ali, tudo é um.
(Ver com consciência de ver = ver com percepção consciente do objeto; ver sem consciência de ver = ver sem percepção consciente do objeto).
A mecânica quântica, ao contrário de determinismo causal, localidade, objetividade forte, e epifenomenalismo, afirma probabilidade (logo, incerteza), complementaridade onda-partícula (e não polaridades opostas), não-localidade e entrelaçamento de sujeitos e objetos (isto é, dependência dos objetos aos sujeitos da observação, objetividade fraca), e que a consciência cria o mundo material.
UM OBJETO EM MAIS DE UM LUGAR AO MESMO TEMPO
Jamais podemos observar o aspecto onda de uma ondícula. Sempre que observamos, o que vemos são partículas localizadas. Duas ondas de elétrons ao passarem através de duas fendas, em experimento de laboratório, interferem entre si. Mas, o que parece absurdo: milhares de experimentos provam que um “único” elétron, não sob observação, ao ser projetado sobre um aparato de duas fendas, passa por ambas ao mesmo tempo (mesmo sendo um único objeto!) e interfere consigo mesmo. Explicação: uma só partícula não pode interferir consigo mesma mas, sendo onda, a interferência acontece e um elétron pode interferir consigo mesmo (aí está a prova de que, não estando sob observação, não há colapso, e o objeto permanece na função onda, fora do espaço-tempo).
Se o observador estiver atento às fendas através das quais o elétron está passando, o processo de observar destrói a interferência (porque a observação produz o colapso da onda) e surge o aspecto partícula, que só pode passar por uma fenda; se não há observador, o padrão de interferência se produz, provando que o aspecto onda persistiu, que a onda não sofreu colapso. São a posição e o momentum, mutuamente excludentes, que já vimos antes e que dão a incerteza do princípio de Heisenberg. Conhecemos, com precisão, ou um ou outro; os dois, nunca. Não havendo observação, existirá apenas o aspecto onda (momentum - velocidade da onda de possíveis elétrons), provado pela constatação da interferência; havendo observação, não há interferência, pois não existe o aspecto onda, mas somente o aspecto partícula (que nos dá a posição do elétron). Logo o aspecto onda de um objeto é transcendente, pois nunca pode ser visto manifestado no espaço-tempo, que é a dimensão na qual opera nossa percepção. (A física quântica, com esse experimento, prova que nada existiria se também não existissem seres sencientes (seres cerebrados e capazes de ter sensações). Não existindo o observador não ocorre o colapso das ondas de probabilidades de 'coisas' e, não ocorrendo o colapso, não existem partículas, ou melhor, não existe matéria e o universo como conhecemos também não existiria. Por tudo isso compreendemos a imensa importância do homem, de todos os seres sencientes, para completar a obra da criação. E que, também, devemos reinterpretar o papel e a posição do ser humano no universo e sua relação com aquilo que não conhecemos e a que denominamos Deus. A ciência moderna e as visões dos meditadores das escolas sérias e milenares de tradição mística nos ajudam nesse trabalho de reinterpretação.
A nova ciência provou, também, que a ondícula quântica se revela conforme a maneira como resolvemos observá-la. ‘Nossa escolha’ a revela como onda (não perceptível à nossa observação) ou como partícula. E mais ainda que quando, em laboratório, resolvemos detectar a ondícula no seu aspecto onda, e em seguida, no último momento possível do experimento, resolvemos observá-la sob o aspecto partícula, este se manifesta mesmo que a nova escolha exija uma mudança no movimento da ondícula muito maior do que a velocidade da luz. A ondícula se comporta exatamente de acordo com nossa escolha. A resposta que obtemos, nos experimentos, depende da pergunta que fazemos. Assim, estamos, sem qualquer sombra de dúvida, envolvidos em fazer com que aconteça aquilo que está acontecendo. No experimento fica provado que o colapso da onda é não-local, mas produz a manifestação de partícula no domínio local.
Pela visão da quântica, escolhemos (a consciência una escolhe) o resultado que se manifesta. O momento em que optamos por esse resultado é destituído de importância, isso porque a onda existe apenas em “potentia”, fora do espaço-tempo, podendo revelar, sempre, o aspecto que escolhermos. Parece que a ondícula obedeceu a uma escolha feita no último momento, mas a verdade é que estávamos apenas influenciando possibilidades em “potentia”, no domínio transcendental, onde não existe nem tempo nem espaço; ali, todo lugar é ‘aqui’ e todo tempo é ‘agora’ (o campo das infinitas possibilidades).
Conforme a nova física, tudo que percebemos nada mais é que ‘prolongamento’ de nós mesmos, de nossa consciência. Compreenderemos que não há absurdo nesse “experimento de opção retardada” se abandonarmos a crença de que existe um mundo fixo, objetivo e independente, fora de nós, mesmo quando não o estamos observando. Afinal, tudo se resume no que o observador (consciência), quer ver (ver somente, ou, também, realizar, produzir, concretizar?).
Na consciência una, as superposições coerentes (as miríades de respostas para cada problema ou estímulo recebido) são objetos transcendentes, fora do espaço-tempo (no campo das infinitas possibilidades, como diz Maharishi), não locais; não são objetos físicos (assemelham-se aos arquétipos mentais da visão de Jung) até que lhes provocamos o colapso, trazendo-os para o mundo da manifestação. Com o ato de observar, o mundo se torna objetivo. Há interferência do observador em relação aos acontecimentos no espaço-tempo, mas de maneira que a escolha dos eventos não dependa de qualquer observador em particular. Assim, qualquer que seja o observador, o evento será sempre o mesmo (isto é, a escolha definitiva é ‘aquele’ evento, o evento determinado pela consciência unitiva). Na consciência, as superposições coerentes (soluções coerentes possíveis) são objetos transcendentes, portanto. Só vêm, para a manifestação no espaço-tempo, pelo ato da observação, quando a consciência opta por uma das muitas facetas da superposição, escolha limitada pelas possibilidades e, logo, coerente e pelos condicionamentos. (A coerência do cosmos é fundamentada nas suas leis quânticas; não é uma anarquia arbitrária).
A CONSCIÊNCIA UNA É QUEM ESCOLHE
Se duas pessoas escolhem resultados diferentes, qual escolha prevalecerá? O mundo se transformaria num caos se cada pessoa decidisse o comportamento do mundo objetivo. O fato é que não é a pessoa, uma consciência localizada, individual, condicionada, quem escolhe. A escolha é da consciência una, não-local, incondicionada, transcendental, mas o resultado só se manifesta quando é feita observação (medição) por um cérebro-mente senciente, uma consciência localizada. Há um único sujeito, um sujeito-consciência unitivo; a minha consciência não é separada da consciência dos demais seres. Somos todos uma só consciência, embora não nos pareça assim. Por isso, Schröedinger disse: “A consciência é um singular para o qual não existe plural”. Logo que um ser consciente observa, a realidade torna-se manifestada no mundo material em um estado único (mas a ‘escolha’ de uma das superposições coerentes possíveis foi feita pela consciência una e não pelo ser senciente que faz, apenas, a observação, a chamada medição, o reconhecimento da escolha e, assim, provoca o colapso da onda do objeto transcendente).
A GRANDE ILUSÃO
Nós não estamos conscientes de nosso corpo o tempo todo. Normalmente, temos pouca consciência dele. De vez em quando nos sentimos conscientes de estarmos vivos; isto é, nesses momentos pensamos (voltamos a atenção) em nós mesmos, a função onda entra em colapso e, por ‘sorte’ (e por condicionamento), a escolha foi, em todas as ocasiões, o estado de estarmos vivos. Nos intervalos em que não estamos conscientes de nós mesmos, a nossa função de onda está expandida e transformada numa superposição coerente de morto ou vivo no domínio transcendente (o gato de Schroedinger). Aquilo que supomos uma continuidade sem interrupção (nosso corpo, estarmos vivos, o funcionamento dos órgãos etc.) é, na realidade, uma ilusão de nossos sentidos produzida por numerosos colapsos descontínuos (como num filme, no qual vemos as imagens aparentemente se movimentando na tela, quando, na realidade, o que se movimenta é apenas a fita que contém imagens fixas; a continuidade do movimento das imagens não passa de pura ilusão).
Não temos condições para estarmos conscientes o tempo todo; nossa atenção é, a todo instante, distraída, originando múltiplos colapsos, tanto que a nova ciência diz que as observações são eventos separados, descontínuos, entre elas havendo inúmeros intervalos que não podemos perceber (nesses intervalos estamos inconscientes). A ação da consciência transcendental escapa à nossa percepção comum. Ela escolhe entre alternativas (superposições coerentes) quando manifesta a realidade material objetiva. O colapso quântico é um processo de escolha pela consciência única e de reconhecimento por um observador senciente. Em última análise, só existe um escolhedor para todas as escolhas, mas muitos cérebros-mentes observadores para a realização do colapso de onda e do reconhecimento do evento escolhido (só há um observador; nós não escolhemos).
O cérebro, pelo fato de poder ser sentido ou observado por nós, só pode ser objeto. Como, então, a consciência, que é sujeito, pode estar num cérebro que é objeto? A resposta é que não pode. O cérebro não pode ter dentro dele o sujeito que faz as experiências, que faz as observações, que o sente. O sujeito é transcendente, é a consciência não-local, infinita, que não está no cérebro, mas em todo lugar. (Aparentemente, é algo dentro de nossa cabeça que faz as observações, pois que os sentidos da visão, audição etc., ali estão sediados, dando-nos essa ilusão. Porém, como afirmam os místicos, nossos olhos, ouvidos etc., são olhos e ouvidos do universo; ou, se quisermos, de ‘Deus’).
Voltando à onda de objetos quânticos, alguém perguntaria porque ela não está permanentemente em colapso se Deus está sempre olhando (a consciência unitiva, ou aquilo que denominamos Deus)? Porque o colapso não é produzido se não houver a inclusão, nessa operação, da observação de um cérebro-mente (disse Krishnamurti: a mente era vazia e, por isso, o cérebro existe no espaço-tempo). A mente não-local escolhe entre as superposições coerentes (apropriadas) e produz o colapso quando há percepção consciente de um cérebro-mente local. Este não percebe a descontinuidade do colapso e, assim, presume que os objetos sempre estiveram ali como os vê manifestados.
O objeto quântico tem a faculdade de se regenerar, enquanto que o objeto “clássico” (também quântico, pois todos os objetos o são, mas macroscópico, de volume maior, os objetos considerados pela física clássica), tem um período de regeneração muitíssimo lento. Por isso, os objetos clássicos (como, por exemplo, o cérebro) produzem memória (registro de sua história e dos eventos que neles deixam suas marcas), pois precisam de muito tempo para apagar tais registros, enquanto os micro-objetos quânticos, por se regenerarem instantaneamente, não têm memória, não guardam sua história.
CONSCIENTE E INCONSCIENTE
A consciência é onipresente, até mesmo, é evidente, quando estamos sem qualquer percepção, como no estado denominado “inconsciente”. Nosso self individual (o ego) permanece “inconsciente”, isto é, sem percepção de algumas coisas na maior parte do tempo e, de tudo, num sonho sem sonhos (num sonho sem sonhos, o ‘eu’ não interfere e a consciência unitiva, ou ‘Deus’, pode fazer seu trabalho). Ao contrário, o inconsciente (inconsciente coletivo, a consciência unitiva) parece permanecer consciente de tudo, durante todo tempo. Ele jamais dorme; está sempre desperto e atento. É o nosso self pessoal consciente que está inconsciente de nosso inconsciente coletivo (consciência una), e o inconsciente coletivo é quem está, o tempo todo, consciente de tudo.
O cego tem sua visão com percepção inconsciente, isto é, tem percepção sem consciência de ver. (Sempre há percepção de tudo, porque é a consciência una que percebe, mas essa percepção pode ser consciente ou inconsciente, conforme o estado de atenção ou distração do cérebro-mente que observa). Assim, a percepção inconsciente existe sempre sem sujeito local; o sujeito dessa percepção é o Sujeito Absoluto, a consciência não-local.
Na percepção inconsciente continuam a funcionar o pensamento (pois há pensamentos que surgem por correlação, por associação com idéias percebidas inconscientemente); há, também, sentimento (essas idéias podem despertar sentimentos e emoções; por isso, muitas vezes, estamos felizes ou infelizes sem nem mesmo sabermos o porquê). Nós percebemos tudo, mesmo aquilo que está escondido de nossa percepção consciente, isto é, percebemos sem consciência de perceber; inconscientemente. Há provas sobre este fato. Neste caso, é o cérebro-mente que não percebe. O cérebro só percebe quando usa sua atenção para observar. Quando desatento, o estado do cérebro-mente é indefinido; com a escolha, acontece o colapso do cérebro-mente que decorre da escolha de uma das superposições coerentes das múltiplas soluções possíveis em que se tornara o cérebro. (Tudo instantânea e simultaneamente). O sujeito que escolhe, contudo, é o sujeito único, universal, e não nosso ego pessoal limitado, o “eu”.
A SEPARATIVIDADE É ILUSÃO
A separação que vemos, entre nós e o mundo, é resultado do colapso; antes do colapso não há qualquer separação; tudo é Um. Só após o colapso há objetos independentes, separados. Antes do colapso, tudo existe em “potentia”, em possibilidades, na realidade não-local, fora do espaço-tempo. O que acontece no espaço-tempo é determinado pelo que acontece no domínio transcendente (no espaço-tempo não há escolhas. Por isso, Krishnamurti afirmou: ‘aquele que escolhe é imaturo’).
Nossa consciência não-local escolhe o resultado do colapso de onda de um objeto quântico, que só se produz quando observamos, mas não percebemos a ação da mente não-local quando produz a escolha e o colapso devido à instantaneidade deste. A consciência una, não-local, opera através de nós, cérebros-mentes sencientes (somos os olhos e ouvidos de Deus; Paulo: ‘É o Senhor que opera em nós o pensar e o fazer’). Nós somos a consciência sutilmente oculta por um véu que pode ser penetrado em extensões variadas, como testemunharam muitos místicos pelos séculos (e Krishnamurti, que se referiu à ‘mansão da morte’). (Penetrado o véu, percebe-se que a morte (absoluta) não existe, como também afirmam os místicos, e que a vida ou a morte do nosso corpo biológico em nada afeta a vida que somos).
A consciência não-local opera com descontinuidade (salto quântico, colapso), e com possibilidades criativas (em vista das múltiplas superposições coerentes). Para que a consciência se veja a si mesma, tenha experiência de si mesma, ou para que o universo se veja a si mesmo, é necessária a realização do salto quântico, a descontinuidade, o salto para fora do espaço-tempo, para o sistema incondicionado, pois neste tudo é Um (este é o objetivo da meditação).
O que ocorre com dois objetos correlatos que se comunicam por sinais não-locais, deve ocorrer entre dois cérebros-mentes correlatos (isto é, cérebros que interagiram por 30 a 40 minutos), na percepção extra-sensorial, como na telepatia, por exemplo. Nos experimentos, o cérebro do parceiro acusa, a qualquer distância que esteja do outro correlato, os estímulos que foram aplicados num sem o conhecimento de nenhum deles.
Cientistas materialistas admitem, com relutância, que os objetos quânticos têm conexões não-locais e que, se estudarmos a sério a origem do colapso, este será forçosamente de natureza não-local. Porém, eles se recusam a reconhecer a importância desse fato e, assim, ignoram esse aspecto mais importante da nova física: o fato de que ela prova a existência da consciência não-local, além do espaço-tempo, daquilo a que chamamos Deus, com todas suas implicações.
Na visão comum, sinais locais se espalham a partir da fonte emissora pelo espaço circundante e, por isso, a intensidade (‘nitidez’) diminui à medida que se distanciam da fonte. Na visão à distância, provas mostram que não existe qualquer diminuição da intensidade com o distanciamento da fonte, indicando que a percepção extra-sensorial tem de ser de natureza não-local. Conclui-se, assim, que fenômenos psíquicos, como visão à distância e experiências ‘fora’ do corpo, são exemplos de operação não-local da consciência, operações da consciência una. (Nestes casos, não é a mente ou espírito, que sai do corpo; é o individuo que tem a sua percepção ampliada através da consciência una).
A aceitação da objetividade fraca, isto é, do fato de que é a observação feita por um cérebro-mente que produz o colapso e faz surgir objetos materiais, leva o realismo materialista, e grande parte da física clássica, à condição de um amontoado de teorias ultrapassadas (como já ocorreu, no passado, com a teoria que afirmava que a terra era plana, e outra que dizia que, no espaço infinito, existiria o éter a conduzir a luz na sua propagação).
De acordo com o monismo idealista, as superposições coerentes existem num domínio transcendente como arquétipos informes de matéria (processos primordiais do inconsciente coletivo, possibilidades aguardando concretização). Realizada a escolha, é criada uma trilha causal no conjunto das possíveis soluções (superposições coerentes), no domínio transcendente da realidade. Então, todas, menos uma das possibilidades (isto é, menos aquela escolhida), são excluídas do mundo da manifestação, manifestação que ocorre com a observação de um cérebro-mente senciente.
COMO EXISTE O UNIVERSO
E como poderá ter existido nos últimos 15 bilhões de anos se, durante a maior parte desse tempo, não havia cérebros observadores sencientes para gerar o colapso de qualquer função de onda? A resposta é que o cosmo jamais existiu em forma concreta e tampouco, mesmo hoje, está em forma concreta. A sugestão dos físicos quânticos é que o universo existe (e sempre existiu) como “potentia” informe em miríades de ramos possíveis, no domínio transcendente, sem forma objetiva portanto, e que só se torna manifesto quando observado por seres sencientes. São as observações que tecem a trama da história causativa do universo, rejeitando outras miríades de alternativas possíveis que, por nunca terem sido escolhidas, nunca se manifestam no espaço-tempo. Uma vez que está reconhecido que a mutação (evolução?) biológica é um evento quântico (proveniente da escolha da consciência una e do colapso produzido pela observação de seres sencientes), compreendemos que o cosmo, no domínio transcendente, se desenvolve em miríades de possibilidades, em muitos ramos (superposições coerentes), até que, em um deles, há um ser senciente que olha com consciência e completa a medição quântica. Nesse ponto, a trilha causal, que é observada por esse ser senciente, instantaneamente entra em colapso e se transforma em realidade, dando lugar aos objetos do mundo objetivo. A participação do observador é o fechamento do círculo. O universo só adquire significado quando seres sencientes observam, “escolhendo” trilhas causais entre a grandíssima (infinita, Maharishi) gama de possibilidades transcendentes. Observadores são necessários para a criação do universo. As histórias da criação do mundo, contidas na Bíblia, no livro do Gênese, e em numerosas tradições religiosas, são compatíveis, portanto, com a física quântica.
Podemos, portanto, supor que o universo possui possibilidades infinitas de evolução de número infinito de seres super-inteligentes, auto-conscientes, em número infinito de corpos celestes por todo esse cosmo sem fim e em constante expansão.
(Na visão de Krishnamurti, “por ser a Mente vazia, o cérebro existe no espaço e no tempo”. Essa afirmação faz parecer que a consciência unitiva ‘criou’ seres dotados de cérebro para fazer a observação do universo pelo universo).
COMO PODE O UNIVERSO TER ESSA APARÊNCIA TÃO REAL
Como um universo idealista (ondas quânticas no domínio transcendente) pode ter essa aparência tão real? Em primeiro lugar, devemos compreender que tudo que percebemos pelos nossos sentidos são imagens ou percepções em nossa cabeça, em nosso cérebro-mente. Ninguém jamais viu um quadro numa parede. O que vemos é um quadro em nossa cabeça. Há mesmo, lá fora, um quadro? Tudo o que sabemos, com certeza, é que há algum tipo de imagem em nosso cérebro, uma imagem teórica (na psique) e não concreta (não material). Isso acontece em todos os casos de percepção: só a temos em nosso cérebro. Mesmo se os objetos existissem, lá fora, independentemente da percepção de um cérebro-mente senciente, nosso conhecimento sobre eles é sempre através de meios subjetivos e individuais, constituindo-se de idéias e imagens em nosso cérebro. Tudo que falamos sobre coisas físicas é, em última análise, sobre fenômenos mentais (percepções ou sensações). Tudo que sabemos do mundo, só o sabemos porque esses fenômenos formaram imagens em nosso cérebro e ali foram registrados.
Porque o mundo dos fenômenos nos parece esmagadoramente objetivo? A resposta é que os corpos clássicos, os objetos perceptíveis pelos nossos sentidos, possuem grandes massas, o que significa, conforme provas da nova física, que suas ondas se espalham com grande lentidão, produzindo espalhamento que não assume grandes dimensões. Esse pequeno espalhamento torna bem previsível a trajetória do centro da massa do objeto (sempre que olhamos, encontramos a Lua onde esperamos que ela esteja), criando, dessa maneira, uma idéia de continuidade, que é, também, imposta pela percepção (de nosso cérebro) que não percebe os saltos quânticos, a descontinuidade provocada pelos colapsos (como na percepção de imagens cinematográficas). Ainda mais, a complexidade do macro-objeto implica tempo de regeneração muito longo, fato que dá lugar à formação de memórias, ou registros, o que nos leva a pensar que o macro-objeto tem, realmente, continuidade no tempo. Por isso o mundo dos fenômenos parece tão objetivo, tão real, para nossa observação.
UMA ÚNICA CONSCIÊNCIA TORNA-SE MUITAS
Como uma única consciência torna-se muitas consciências localizadas, individuais, pois somos, apenas neste planeta, alguns bilhões de pessoas? Como um mundo de sujeitos e objetos surge de um ser uno? Como surge a experiência de nosso “eu” individual, pessoal? Como surge o sentimento de que somos todos separados?
Todos temos a intuição muito forte de que a mente é separada do corpo; ao mesmo tempo, temos intuição de que a mente não é separada, pois sentimos dor corporal. Além disso, temos a impressão, e mesmo a certeza, de que nosso self (o sujeito de nossa consciência) é separado do mundo e do self dos demais seres.
E como se forma a ilusão da individualidade pessoal, do eu? Este assunto é importante porque é daí que surge a ilusão da separatividade. Se o self pessoal é ilusório, porque ninguém conseguiu ainda explicar porque existe tal ilusão? Será, realmente, apenas uma ilusão a experiência do ‘eu’ individual, que é tão forte e constante em nossas vidas? Se é, o que é que cria essa ilusão? A experiência do ‘eu’ individual é a mais persistente de nossa vida. O componente quântico do cérebro-mente é regenerativo e seus estados são multifacetados (múltiplas facetas, múltiplas superposições coerentes). É o veículo da escolha consciente e da criatividade. No entanto, uma vez que precisa de longo tempo de regeneração (é um macrobjeto), o componente clássico do cérebro vem a formar memória e, dessa maneira, serve como ponto de referência para a experiência do self individual, a experiência da auto-referência, que é a capacidade de um sistema se sentir ‘separado’ do mundo, daí nascendo a ilusão de um “eu” pessoal que tem continuidade no tempo, um eu separado, o ego. Essa é a experiência mais inconfundível do “eu”, o ego, o “aparente” processador, executor e integrador de nossos programas. O ego é a imagem que formamos do experienciador aparente de nossos atos, pensamentos e sentimentos do dia-a-dia. Mas, é pura ilusão.
Para essa afirmação há provas numerosas (prova da não-localidade da ação da mente, como nas experiências paranormais e também nos experimentos sobre a coerência de ondas cerebrais); prova de descontinuidade, abundante nos fenômenos mentais, especialmente nos fenômenos de criatividade; prova de complementaridade: o pensamento sempre se comporta como objeto quântico e apresenta o princípio da incerteza; se nos concentrarmos no conteúdo do pensamento, perdemos de vista a direção para onde ele se dirige; se nos concentramos na direção, perdemos de vista o conteúdo (Faça o teste). Há, aí, duas variáveis conjugadas, complementares: aspecto (conteúdo instantâneo, semelhante à posição dos objetos quânticos) e associação (o fluir, o movimento do pensamento, semelhante ao momentum, velocidade, dos objetos quânticos). Assim, fenômenos mentais, como o pensamento, exibem complementaridade. Embora sempre se manifeste como forma, sendo descrito por atributos, como aspecto e associação, entre as manifestações o pensamento existe como arquétipos transcendentes, como acontece com o objeto quântico com suas superposições coerentes (onda) e o aspecto unifacetado manifesto (partículas).
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(Experimento: Se permanecermos atentos ao fluir dos pensamentos, sem nos fixarmos em nenhum deles, mas com atenção ao desfilar de todos - no percebimento sem escolha, portanto - perdemos de vista seu conteúdo (o próprio pensamento); como o conteúdo é que desperta nosso apego, não havendo conteúdo, cessa o apego e podemos nos tornar apenas testemunhas do fluir; nosso ego não interfere. Não havendo interferência do ego, é como se este não existisse e, ‘quando o eu não é, Deus é’, segundo Krishnamurti e, conforme ensina a Bíblia, ‘Aquieta-te e sabe: eu sou Deus’).
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Quanto à descontinuidade, há dela prova abundante - saltos quânticos - especialmente no fenômeno da criatividade (quando se foge do condicionamento e se consegue respostas ou soluções diferentes das de costume). Tchaikowsky afirmava: “em termos gerais, o germe de uma composição surge de repente e inesperadamente... lança raízes com extraordinária força e rapidez, irrompe da terra, projeta galhos e folhas e, finalmente, floresce. Não posso definir o processo criativo de qualquer outra maneira, a não ser por esta comparação”.
A ATENÇÃO
O psicólogo Posner menciona a atenção como o fator mais importante na diferenciação entre percepção consciente e inconsciente. A atenção ocorre com seletividade (escolha; sem atenção, não há escolha). Quando estamos atentos, selecionamos um de vários ou numerosos significados. Se não estamos atentos, não há seleção (não havendo atenção, não há escolha e não há colapso). Mas, quem liga e desliga a nossa atenção? Ninguém jamais encontrou, no cérebro, uma unidade de processamento central, um ‘homenzinho’ que ligue e desligue a atenção, que interprete e atribua significado a todas as ações dos dois hemisférios cerebrais, sintonizando os canais a partir de uma sala de controle. Assim, a existência do self individual, que nos dá a capacidade de nos referirmos ao ‘eu’ como sujeito de nossas experiências, é um problema extremamente difícil de ser resolvido para a ciência clássica (contudo, é solucionado pela física quântica, como veremos adiante).
Suponhamos que, quando alguém procura encontrar resposta para algum problema (estímulo recebido), o cérebro-mente torna-se uma superposição quântica que contenha todas as soluções coerentes possíveis. Há várias, ou miríades, de superposições coerentes relativas ao estímulo em questão. A mecânica quântica explica que, dentre essas inúmeras superposições, a percepção consciente, a atenção, extrai e projeta uma das respostas. A solução percebida conscientemente é a escolhida, ou melhor, sua função de onda entra em colapso e a resposta se manifesta no espaço-tempo (não esquecer que a escolha é sempre da consciência una). As respostas apenas inconscientemente percebidas não sofrerão colapso e, por isso, não se manifestarão no espaço-tempo.
Da mesma maneira que a matéria comum consiste, em última análise, de objetos quânticos sub-microscópicos, que podem ser denominados de arquétipos (modelos precursores) da matéria, a mente deve consistir, em última análise, de objetos quânticos que podem ser denominados de arquétipos mentais. O autor sugere, portanto, que tais arquétipos mentais sejam feitos da mesma ‘substância’ básica de que são feitos os arquétipos materiais e que obedecem às mesmas leis da mecânica quântica. Na concepção de Jung, psique e matéria são, na realidade, constituídas do mesmo estofo, portanto, dos mesmos arquétipos.
(Arquétipos: idéia platônica precursora das manifestações materiais e mentais; símbolos junguianos referentes aos processos psíquicos do inconsciente coletivo; portanto, existentes fora do espaço-tempo).
Nos últimos anos, os cientistas tentaram, com toda seriedade, invocar um mecanismo quântico no cérebro-mente para explicar seu funcionamento, como opera a inteligência, raciocínio etc. Ali, o acionamento de um neurônio tem que ser acompanhado do acionamento (instantâneo) de outros numerosos neurônios correlatos, situados a distâncias macroscópicas (até 10 centímetros, que é a largura do tecido cortical), coisa que só pode ser explicada através da existência de correlações não-locais nas sinapses, no nível molecular de nosso cérebro. Assim, até mesmo o pensamento comum depende de eventos quânticos.
É bem provável, então, que o cérebro abrigue a consciência porque dispõe de um sistema quântico, que divide esse trabalho com sua contraparte clássica, como afirmam muitos renomados biólogos e físicos da atualidade. Enquanto o componente clássico (macroscópico) do cérebro necessita longo tempo para sua regeneração e, portanto, forma memórias, o componente quântico (que se regenera rapidamente) relaciona-se às superposições coerentes no domínio transcendental. Sendo regenerativo, o sistema quântico pode lidar com o novo (porque os objetos quânticos permanecem sempre novos). O sistema clássico, no entanto, forma memórias, pois permanece, devido ao longo tempo de sua regeneração, com os resíduos ou traços dos eventos que sobre ele ocorreram, registrando os eventos resultantes dos colapsos, fato que cria uma idéia de continuidade no tempo.
Jung denominou o domínio não-local da consciência de ‘inconsciente coletivo’ (o aspecto de nossa consciência além do espaço, tempo e cultura, e do qual não temos percepção). Inconsciente porque, em geral, não estamos conscientes da natureza não-local dos eventos que ali ocorrem. Jung descobriu que, além do inconsciente pessoal, há um inconsciente coletivo transpessoal que tem de operar fora do espaço-tempo; não-local, portanto.
Descobriu, também, que os arquétipos mentais têm caráter e são independentes de cultura, raça, história e origem geográfica. Este fato universal ajusta-se muito bem à idéia do monismo idealista de que os arquétipos junguianos são conglomerados de ‘quanta’ (pacotes de ‘energia’) universais, estados mentais puros, porque estão no domínio transcendental e, portanto, não estão ainda “contagiados” com o que temos na memória cerebral. (São as mesmas superposições coerentes da mecânica quântica, e as infinitas possibilidades do campo da consciência, referidas por Maharishi).
O MECANISMO QUÂNTICO DO CÉREBRO
Um feixe de laser vai e volta da Lua mantendo sua forma de fino lápis porque seus fótons (unidade de luz) mantêm sincronismo (ordem) perfeitamente coerente, em decorrência das características quânticas do ritmo (vibratório?) do laser. Pode acontecer que um mecanismo quântico em nosso cérebro, operando com coerência semelhante à do laser, se torne acessível à consciência não-local, com as partes clássicas do cérebro representando o papel de aparelhos de medição, produzindo a amplificação e fazendo registros (memórias), ainda que temporários, dos estímulos recebidos da consciência não-local, através do mecanismo quântico (talvez aí esteja a explicação dos casos de iluminação e de vislumbres da consciência cósmica, relatados em todos os tempos).
Com rigorosas técnicas científicas, pesquisadores descobriram coerência idêntica à do laser nas ondas cerebrais de pessoas mergulhadas em meditação. Conforme relatos independentes de resultados de pesquisas acerca de meditação transcendental (Maharishi) cérebros de meditadores experimentados apresentam grande coerência (harmonia vibratória) entre suas diferentes áreas (anterior e posterior, esquerda e direita) durante a meditação e, muitas vezes, mesmo fora dela. Pesquisas concluíram, ainda, que, quanto maior a coerência cerebral, mais pura a percepção que os meditadores relatam. E, como vimos, a coerência é uma das notáveis propriedades dos sistemas quânticos. Tais experimentos, portanto, podem estar fornecendo prova direta de que o cérebro, na meditação, funciona como aparelho de medição (observação) para esses estados mentais puros, transcendentais, sempre percebidos pelo seu sistema quântico, que está sempre ligado à (ou que é a própria) consciência una à qual denominamos ‘mente-quântica’ (Deus).
Verificou-se, também, a existência de coerência das ondas cerebrais entre dois meditadores correlacionados, mesmo que isolados e colocados em gaiolas de Faraday, a grande distância um do outro, mais uma prova da ação da consciência não-local. Quando um dos meditadores responde a um estímulo externo, o cérebro do outro exibe um potencial de transferência semelhante, em forma e força, àquele que foi evocado no primeiro, mesmo que ambos desconheçam que tal estímulo foi oferecido a um deles, fato que é interpretado como exemplo da ação da não-localidade quântica, devido à ligação não-local entre os dois cérebros-mentes, o que só pode ser compreendido como operação de uma consciência transcendental.
Antes da superveniência da ação da consciência não-local, o cérebro-mente existe como ‘potentia’ informe (tal como qualquer outro objeto), no domínio transcendente da consciência (onde tudo é ‘indiferenciado’). Quando a consciência não-local produz o colapso da função de onda do cérebro-mente, ela assim atua por sua própria escolha, o que, obviamente, inclui a função do sistema quântico do cérebro, e a observação, com atenção, de uma mente senciente, através do sistema clássico do cérebro.
A forte interação (interatuação), do sistema quântico e sistema clássico (aparelho de medição) do cérebro é responsável pelo aparecimento da identidade do ‘self’ individual, como veremos; em conseqüência, produz a divisão sujeito-objeto, eu e mundo, eu e não-eu, que resulta na ilusão da separatividade.
A potência causal (força causadora) do sistema quântico do cérebro-mente tem origem na consciência não-local, que produz o colapso da função de onda do cérebro-mente, e que experimenta (sente, percebe, vê, através de nós) o resultado de tal colapso (a parte do universo que vê e a parte que é vista). O sujeito é não-local e unitivo. Os objetos surgem procedentes de um domínio de possibilidades transcendentes e se manifestam no domínio do espaço-tempo, quando a consciência não-local, unitiva, escolhe e produz o colapso das ondas de possibilidades, colapso que tem que ocorrer na presença da observação de um ser senciente para que a medição seja completada. No entanto, entramos num círculo vicioso: a medição não se completa sem a percepção, nem a percepção se completa sem a medição (são simultâneas).
Para compreender o circulo vicioso e como removê-lo, vamos aplicar a teoria da medição quântica ao cérebro-mente. O estado do sistema quântico passa, de duas maneiras diferentes e separadas, por uma mudança. A primeira é uma mudança contínua (no campo das infinitas possibilidades de Maharishi, tudo é imprevisível e o movimento é indiviso e permanente; também, conforme Krishnamurti). O estado espalha-se como uma onda, tornando-se superposição de todos os estados potenciais permitidos pela situação e, por isso, coerentes. Cada estado potencial tem certo peso estatístico, dado por sua probabilidade de amplitude de onda. Por outro lado, a medição (a observação) introduz uma segunda e descontínua mudança no estado. Faz com que, repentinamente, a superposição, o estado multifacetado existente em ‘potentia’, seja reduzido a uma única faceta concretizada em partículas. Pense no espalhamento do estado de superposição como o desenvolvimento de um conjunto de possibilidades, e no processo de medição que manifesta apenas um dos estados (de acordo com as regras da probabilidade), como um processo de seleção (escolha).
Muitos físicos consideram esse processo como aleatório, como ato de puro acaso (daí a declaração de Einstein de que Deus não joga dados). Mas se Deus (ou a consciência una) não faz isso, o que ou quem escolhe o resultado de uma medição quântica? (talvez, apenas para nós, seres do espaço-tempo, é que parece que a escolha da consciência una seja aleatória). De acordo com a interpretação idealista (da mecânica quântica) é a consciência não-local que escolhe; escolhe e produz o colapso da nuvem de probabilidades. Há complementaridade aqui. No mundo manifesto, o processo de seleção implicado no colapso parece aleatório, enquanto que, no domínio transcendental, esse processo é visto como uma escolha (o oposto, isto é, o complemento da escolha é a aleatoriedade). Portanto, a medição e a percepção são concomitantes, simultâneos (não esquecer que o domínio transcendental é atemporal, onde a simultaneidade pode ocorrer).
O sistema quântico do cérebro-mente se desenvolve, também, seguindo as regras da teoria da medição, e torna-se uma superposição coerente (como ocorre com todos os objetos). A maquinaria clássica do cérebro, que desempenha seu papel de mecanismo de medição, se transforma, também, em uma superposição coerente. Antes do colapso, o cérebro-mente existe como potencia em miríades de possíveis padrões (soluções coerentes referentes às possibilidades em que ele poderá se concretizar, no espaço-tempo, e às possibilidades coerentes relativas à questão ou respostas coerentes com o estímulo recebido). O colapso concretiza uma dessas possibilidades, uma dessas soluções, o que leva a uma experiência consciente (porque com percepção) ao ser completada a medição. E, o que se reveste de suma importância, o resultado da medição é um evento descontínuo (subitamente, aquilo que não existia no espaço-tempo, passa a existir ou, como diz o Zen: ‘subitamente salta um peixe na superfície tranqüila do lago’).
A consciência escolhe o resultado do colapso em todo e qualquer sistema quântico. Essa escolha tem que incluir, evidentemente, o sistema quântico do cérebro-mente. Portanto, nosso cérebro-mente é um sistema clássico/quântico interativo e é a consciência una que escolhe o resultado do colapso do estado quântico de nosso cérebro-mente. Uma vez que esse resultado é uma experiência consciente, pois é completada pela percepção de um ser senciente, nós (consciência una) ‘escolhemos’ nossas experiências conscientes, embora permaneçamos totalmente inconscientes do processo subjacente (oculto à nossa percepção). É essa inconsciência que leva à ilusão da separatividade, à identidade com o ‘eu’ referencial. A separatividade ilusória, portanto, ocorre em dois estágios, e o mecanismo básico envolvido é denominado ‘hierarquia entrelaçada’, assunto que veremos abaixo.
HIERARQUIAS E CONSCIÊNCIAS ENTRELAÇADAS.
A consciência não-local opera através de nós; nós somos a consciência não-local, apenas sutilmente oculta por um véu que pode ser penetrado em extensões variadas, como testemunharam místicos em todos os tempos. A consciência não-local opera, não com continuidade causal (nesta, um evento é causado por outro anterior, previsível, e assim por diante), mas com descontinuidade criativa; de repente, a resposta surge vinda de um domínio transcendental, como acontece em relação ao colapso da função de onda do cérebro-mente. A descontinuidade, o salto quântico, é o componente essencial da criatividade. E é precisamente o salto (proporcionado pela meditação) para fora do sistema que se torna necessário para que a consciência veja a si mesma.
O universo não veria a si mesmo e, portanto, não existiria como objeto no espaço-tempo, se não existissem cérebros-mentes sencientes que completassem a medição, isto é, que realizassem a observação com atenção (a percepção com escolha. A percepção sem escolha é aquela que pode levar à percepção do atemporal). E é a descontinuidade, produzida pelo salto quântico, instantâneo, que nos impede de ver através desse véu. A hierarquia entrelaçada (emaranhada, misturada), em nosso cérebro-mente, da consciência não-local e da consciência local (esta vem da ilusão de que somos nós que observamos), isto é, a interação dos sistemas quântico e clássico, produz, por suas oscilações infinitas (número infinito e instantâneos de colapsos), a ilusão que não nos deixa perceber a ação da consciência não-local, pois não permite a saída do circulo vicioso entre consciência não-local e consciência local e, dessa maneira, perpetua a atenção do observador em si mesmo (como se ele próprio é que escolhesse o que faz, e como se o mundo manifesto existisse, continuadamente e realmente, como o percebemos).
Tais afirmações indicam que o sistema quântico não é fechado e que essa abertura, ou incompleteza, é uma necessidade lógica da mecânica quântica. O matemático Kurt Gödel provou que qualquer sistema de grande riqueza está condenado a ser incompleto; podemos sempre encontrar nele uma afirmação que o sistema não consegue provar. O sistema pode, então, ser coerente, mas será incompleto, ou incoerente, mas completo; nunca coerente e completo ao mesmo tempo. Essa incompleteza significa uma abertura no sistema, abertura dada pela maquinaria quântica do cérebro (com sua consciência não-local que faz essa maquinaria entrar em colapso). Temos de saltar para fora do sistema, o que implica a existência de uma maquinaria quântica em nosso cérebro. Devemos, portanto, ter um sistema quântico em nossa cabeça mas, como já temos no cérebro-mente um mecanismo de medição/sistema clássico, isso faz com que ali exista uma hierarquia entrelaçada: o sistema quântico e o sistema clássico. Os sistemas se entrelaçam e se confundem, e temos a ilusão de que nós escolhemos e que estamos separados do universo. Devido aos dois sistemas, o quântico e o clássico, toda a realidade do mundo nos chega, manifestada através de uma hierarquia entrelaçada.
Numa cadeia de von Neumann, cadeia que inclui uma hierarquia inteira de máquinas de medição inanimadas (fotográficas, filmadoras etc.), cada máquina medindo a leitura da anterior, o colapso da superposição quântica não se produz, pois ele só ocorre com a observação de um cérebro-mente. Aí existe, portanto, uma hierarquia entrelaçada que impede a resolução do processo. Temos que saltar para fora do sistema e passar para o nível inviolado (puro, consciência não-local). Isso se faz com a colocação de um cérebro-mente senciente no fim da cadeia. Dessa forma, o colapso se produz e a indeterminação tem fim. Por quê? Porque o cérebro possui sua maquinaria quântica, sistema quântico que, como vimos acima, possui abertura, incompleteza, e que está conectada permanentemente com a consciência não-local. A abertura permite o colapso, a descontinuidade e, em conseqüência, a “criação” do mundo.
CÉREBRO-MENTE – REAÇÃO A ESTÍMULOS
Inicialmente, o estímulo é percebido pelos sentidos como sensação e é, imediatamente, apresentado ao sistema dual clássico/quântico do cérebro. O estado do sistema quântico se expande como uma superposição coerente, como também se expandem como superposições coerentes todos os mecanismos clássicos de medição que estão conectados ao cérebro. Mas não há um programa mental que escolha entre as diferentes possibilidades (superposições coerentes), pois a escolha é um ato descontínuo no domínio transcendente, ato de (nossa) consciência não-local. Em vez disso, há uma descontinuidade, um rompimento das ligações de causa e efeito dentro do espaço-tempo, o salto quântico, no processo de seleção de possíveis escolhas no conjunto de probabilidades fornecido pelo sistema quântico. A escolha é um ato descontinuo no domínio transcendental, ato da consciência não-local. O resultado é a referência ao ‘self’, a capacidade de nos referirmos a um “eu” como o sujeito de nossas experiências. A consciência produz o colapso do estado quântico do sistema dual (o cérebro e o mundo passam a existir no espaço-tempo), o que resulta na separação básica entre sujeito e objeto, nós aqui, o mundo lá (e o ego, portanto, existe por causa do cérebro e de sua memória, que produz a ilusão de continuidade no tempo, embora todos os eventos sejam descontínuos, pois decorrentes dos colapsos das ondas quânticas).
Portanto, devido à hierarquia entrelaçada, a consciência identifica-se com o ‘eu’ da auto-referência e vivencia a percepção primária pela qual afirma: ‘Eu existo’. Se não houvesse a abertura do sistema, não haveria colapso e, em conseqüência, não haveria ‘criação’, nem possibilidade de referência ao self pessoal, ao ego, pois esta somente ocorre pela percepção do mundo ao nosso redor. Nem mesmo haveria a percepção primária de ‘eu existo’ porque, sem colapso, somente existe o nível transcendental, onde tudo é Um.
Tudo é percebido na medição que produz o colapso, pelo cérebro-mente; supomos, então, que temos (ou somos) algo (o ego) que percebe, isto é, supomos que somos o sujeito, o cérebro-mente, que vê os objetos, e que percebe tudo que é percebido.
A POSIÇÃO DO HOMEM NO UNIVERSO
Aqui está a chave para se compreender nossa posição no universo: embora o ‘self’ de nossa auto-referência, o ego, seja conseqüência de uma hierarquia entrelaçada, a consciência que o cérebro possui é a consciência do Ser que está além da divisão sujeito-objeto, o Ser transcendental. Não há, no universo, outra fonte de consciência. O ‘self’ da auto-referencia e a consciência que temos da consciência original constituem, juntos, o que denominamos de autoconsciência (um entrelaçamento da consciência não-local com a ilusão da aparência do mundo da manifestação ao nosso redor, ilusão produzida pela consciência localizada, o ‘self’ pessoal). Isso nada mais é do que aquilo que os antigos simbolizavam com a serpente que morde a própria cauda. É a aparência do mundo da manifestação que nos leva à experiência de um ‘self’ individual, ego, eu, separado dos objetos aparentes. Isto é, sujeito e objeto manifestam-se ao mesmo tempo no instante do colapso inicial do estado quântico do cérebro-mente, e temos a ilusão de que o ego está ‘aqui’ e o mundo está ‘ali’. Se não houvesse o mundo manifestado ao nosso redor, não haveria um self, um sujeito que vivenciasse sua separação em relação aos objetos que percebe (por isso toda vida no espaço-tempo é vida de relação, como diz Krishnamurti); e não existiria a separação/divisão que só existe do ponto de vista da parte do universo que vê a outra parte que é vista. Somos, assim, a parte do universo pela qual este se vê a si próprio.
O entrelaçamento é produzido, de um lado, pela consciência não-local (estímulo primário) que é nossa (de todos); de outro lado, pela ilusão (estímulo secundário) de que somos o sujeito, o self, que percebe. Do entrelaçamento das duas nasce a referência ao self, a consciência do ‘eu’, a capacidade de nos referirmos ao “eu” como se fosse o sujeito de nossas experiências. Quando condicionados, só percebemos o estímulo secundário e, assim, a hierarquia entrelaçada se torna uma hierarquia simples, clássica; e nos esquecemos de que nós não somos o sujeito que escolhe, o sujeito que percebe o mundo ao nosso redor; isto é, passamos a acreditar que somos nós que escolhemos e que percebemos o mundo (mas somos, apenas, a parte do universo que vê a outra parte, que é vista). O sujeito que escolhe, o sujeito que percebe, é sempre o universo; melhor ainda, é a consciência total, absoluta, una, à qual as religiões dão o nome de Deus. (Podemos considerar assim: nossos olhos e ouvidos (todos os sentidos objetivos) são os olhos e ouvidos do universo, ou de Deus).
Em nós o universo se divide em dois: sujeito e objeto. O colapso, que é descontinuidade, salto quântico, produz a divisão sujeito-objeto, que impede, pela sua instantaneidade, a percepção primária de nosso estado real, o self quântico (o divino). Como não temos essa percepção, mas a temos do mundo ao nosso redor, a consciência, nessa hierarquia entrelaçada, é confundida e se identifica com a auto-referência que surge da ilusão, o ego. No entanto, mesmo no ego, a unidade do sujeito cósmico continua existindo, mas dela, como vimos, não temos percepção, pois ela nos foge com a descontinuidade dos colapsos.
O EU DA CONSCIÊNCIA
Segundo o matemático G. Spencer Brown, “não podemos escapar do fato de que o mundo que conhecemos é construído a fim de ver a si mesmo mas, para que isso aconteça, evidentemente ele tem que se dividir, pelo menos, em um estado que vê e em, pelo menos, outro estado que é visto” (tal afirmação deve guardar relação com a afirmação de Krishnamurti de que, ‘a mente total é vazia e, por isso, o cérebro existe no espaço e no tempo’. Como já vimos, entende-se, então, que, para preencher o vazio, foram criados os seres cerebrados que, assim, são os olhos e ouvidos da consciência absoluta).
Os mecanismos dessa divisão sujeito/objeto são as ilusões estranhas produzidas pela hierarquia entrelaçada e pela identidade do self com o centro de nossas experiências passadas, o feixe de memórias que chamamos de ego.
De que modo surge a identidade com o ego? Como já vimos, o mecanismo de medição do cérebro, tal como todos os demais do mesmo tipo, cria uma memória de cada colapso, isto é, memória de todas as experiências passadas que tivemos como reação a um dado estímulo, fato que traz e reforça a ilusão de que o ego tem continuidade no tempo. Além disso, se o mesmo estímulo ou um semelhante é reapresentado, o registro clássico do cérebro reproduz, como resposta, aquilo que já está na memória, que já é conhecido. O sistema clássico mede a nova resposta e assim por diante. Essa interação repetida de medições torna-se um estímulo secundário para o sistema clássico, fato que ocasiona uma mudança fundamental no sistema quântico do cérebro-mente, pois ele perde seu caráter regenerativo: não tinha memória; agora passa a ter. (Daí a ilusão de que o ego tem continuidade no tempo, como se já existisse realmente desde tempos atrás). Daí nasce, também, o condicionamento. (Não nos esqueçamos de que o cérebro é o local onde acontece a auto-referência de todo o universo, isto é, onde todo o universo se percebe a si mesmo. E de que o universo é auto-consciente através de nós, porque por nós o universo se divide em sujeito e objeto. Através dos cérebros sencientes todo o universo se observa).
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CHEQUES DA ABUNDÂNCIA
NA LUA NOVA.
«Que os Santos Seres, cujos discípulos aspiramos ser, nos mostrem a luz que
buscamos e nos dêem a poderosa ajuda
de sua Compaixão e Sabedoria. Existe
um AMOR que transcende a toda compreensão e que mora nos corações
daqueles que vivem no Eterno. Há um
Poder que remove todas as coisas. É Ele que vive e se move em quem o Eu é Uno.
Que esse AMOR esteja conosco e que esse
PODER nos eleve até chegar onde o
Iniciador Único é invocado, até ver o Fulgor de Sua Estrela.
Que o AMOR e a bênção dos Santos Seres
se difunda nos mundos.
PAZ e AMOR a todos os Seres»

A lente que olha para um mundo material vê uma realidade, enquanto a lente que olha através do coração vê uma cena totalmente diferente, ainda que elas estejam olhando para o mesmo mundo. A lente que vocês escolherem determinará como experienciarão a sua realidade.
Oração ao Criador
“Amado Criador, eu invoco a sua sagrada e divina luz para fluir em meu ser e através de todo o meu ser agora. Permita-me aceitar uma vibração mais elevada de sua energia, do que eu experienciei anteriormente; envolva-me com as suas verdadeiras qualidades do amor incondicional, da aceitação e do equilíbrio. Permita-me amar a minha alma e a mim mesmo incondicionalmente, aceitando a verdade que existe em meu interior e ao meu redor. Auxilie-me a alcançar a minha iluminação espiritual a partir de um espaço de paz e de equilíbrio, em todos os momentos, promovendo a clareza em meu coração, mente e realidade.
Encoraje-me através da minha conexão profunda e segura e da energia de fluxo eterno do amor incondicional, do equilíbrio e da aceitação, a amar, aceitar e valorizar todos os aspectos do Criador a minha volta, enquanto aceito a minha verdadeira jornada e missão na Terra.
Eu peço com intenções puras e verdadeiras que o amor incondicional, a aceitação e o equilíbrio do Criador, vibrem com poder na vibração da energia e na freqüência da Terra, de modo que estas qualidades sagradas possam se tornar as realidades de todos.
Eu peço que todas as energias e hábitos desnecessários, e falsas crenças em meu interior e ao meu redor, assim como na Terra e ao redor dela e de toda a humanidade, sejam agora permitidos a se dissolverem, guiados pela vontade do Criador. Permita que um amor que seja um poderoso curador e conforto para todos, penetre na Terra, na civilização e em meu ser agora. Grato e que assim seja.”
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