
Por representar o princípio universal que liga os homens e o universo, o mito de Eros, o amor, tem várias versões apresentadas. Se Afrodite (Vênus) é a deusa do amor, Eros é o próprio
amor, a essência do sentimento criador de toda a vida, força poderosa
que não se tem domínio, muito menos origem, visto que ele é o próprio
princípio de tudo. Eros é um deus ordenador que surgiu do Caos,
definindo e harmonizando o universo, trazendo paz a ele, mas mantendo
aceso o fogo do conflito. É da sua inteligência voluntariosa que os
deuses e os mortais são gerados.
Eros não faz parte do conselho dos deuses do Olimpo, tão pouco se sabe ao certo, a qual geração de
deuses ele pertence, mas a sua influência é mais poderosa do que a do
próprio Zeus (Júpiter), visto que o amor muda o destino até do poderoso
pai dos deuses. A origem de Eros é contada pelas mais diversas lendas
dentro da mitologia grega. Nos primórdios do povo helênico, o deus era
cultuado em Tépsias, na Beócia, onde nasceu o poeta Hesíodo. Era
cultuado apenas como deus fecundador do gado e deus dos matrimônios.
Hesíodo, no século VII a.C., daria ao mito a dimensão universal do amor.
Às vezes tido como filho de Zeus e Afrodite, de Poros (Recurso) e Pênia
(Pobreza), da Noite e da Luz, de Zéfiro e Íris, ou ainda de Afrodite e
de Ares (Marte), a sua origem é sempre repleta de um grande significado
alegórico. O Amor era tido sempre como filho de duas forças antagônicas,
ou seja, Afrodite e Ares, ela deusa do amor e da beleza, ele o deus da
guerra e do horror.
Ou da Noite e da Luz. Não importa a origem, o importante é a alegoria
simbólica em torno do amor, princípio de todo o universo.
Afinal de qual geração dos deuses nasceu Eros? Se os povos primitivos da Grécia não lhe atribuíam uma árvore genealógica,
considerando-o filho do mistério e do infinito, cabe aos poetas efilósofos dar pais ao mito. Para Hesíodo Eros é uma divindade
primordial, que surgiu logo depois do Caos, no mesmo instante que surgiu
Gaia (Terra). Como o amor é fundamental para o princípio de todas as
criações, Hesíodo, em sua obra Teogonia, põe o nascimento de
Eros primeiro que o de todos os outros deuses, ele é filho do próprio
Caos, e virá, ao lado da força procriadora de Gaia, harmonizar e povoar o
universo.
Para o filósofo Parmênides de Eléia (século VI a.C.), Eros é filho de dois
princípios contrários, da Luz e da Noite, o que proporcionaria a todas
as coisas um equilíbrio mesclado pelas diferenças, antagônicos e
fundamentais um ao outro.
Em O Banquete, Platão descreve Eros como filho de Pênia, a Pobreza e de Poros, o Recurso. Na festa que o
Olimpo dava para comemorar o nascimento de Afrodite, Pênia decide
unir-se a Poros, ao encontrá-lo embriagado. Em um canto do Olimpo,
entrega-se a ele. Da união entre a pobreza e o recurso nasceria Eros, o
amor. Gerado no dia do nascimento de Afrodite, a deusa da beleza, Eros
será para sempre, companheiro e servo da beleza. Eros traz para si a
dualidade dos pais, de Poros herda a decisão e a coragem, ávido do belo e
do bom; de Pênia herda a carência perene e o destino andarilho. Eros, o
amor, germina e vive quando enriquece, morre e renasce quando tudo
parece perdido.
Alceu, poeta lírico do século VII a.C., descreve Eros como filho nascido de Zéfiro e de Íris,
sendo o mais temido dos deuses. Eurípides (480?-406 a.C.), descreve Eros
como um deus dúbio, que quando usa o seu poder moderadamente, leva os
homens e os deuses à virtude, ou, quando usa toda força do seu poder,
levo-os perniciosamente à ruína.
Aristófanes (448?-388? a.C.) descreve um Eros dotado de asas de ouro, veloz como o vento. É a partir
dessa figura alada de Eros, que na época alexandrina, passa a ser
descrito como um menino travesso, portando flechas e asas, que a todos
atinge com as suas setas. Eros passa a ser o inconseqüente Cupido, em
muitas versões, filho de Afrodite e Ares, ou de Afrodite e Hermes
(Mercúrio).
A mais famosa versão sobre o mito de Eros é a do poeta romano Apuleio, do século II d.C., que criou a história de Eros e
Psiquê, a Alma. É este relato belíssimo, romântico, épico, de profundo
significado alegórico, onde só o amor
pode fazer a alma feliz, que será contado a seguir. Eros e Psiquê, o
Amor e a Alma, encontro do princípio universal que rege o mundo.
do rei era mais bela do que a própria deusa do amor.
Tratava-se da princesa Psiquê (Alma). Logo o boato da sua formosuraespalhou-se por toda a Grécia. Homens de todas as partes vinham para
contemplar a beleza da mortal, abandonando de vez o templo de Afrodite.
Ao saber do abandono do seu templo às ruínas, em prol da beleza de uma
simples mortal, Afrodite é acometida de uma violenta cólera e desejo de
vingança. Decide que a princesa Psiquê, responsável pelo desvio dos
homens, deverá ser punida. A deusa pede ao filho Eros, que vá até a
mortal, que com a suas flechas do amor, fira-a de maneira que se
apaixone pelo ser mais desprezível de toda a Grécia, fazendo-a uma
mulher infeliz.
Eros desce do Olimpo, com a perversa missão de envolver Psiquê na mais triste e destruidora das paixões. Mas Eros, ao
deparar-se com mulher tão bela, é ferido pelas próprias setas,
apaixonando-se perdidamente por ela. Vencido pelo sentimento inesperado,
Eros volta ao Olimpo, mentindo para a mãe, dizendo à deusa que cumprira
a missão. Afrodite sente-se vingada.
Apaixonado pela bela princesa, Eros não sabe como viver o seu amor por ela sem que a mãe fique sabendo.
Envolto pela paixão, ele confessa os sentimentos ao deus Apolo, que
promete ajudá-lo.
De longe, Eros faz com que a amada não goste de mais ninguém. Apesar de ser a mais bela das três irmãs, Psiquê não se
apaixona por pretendente algum. Vê as irmãs desposarem homens ricos, mas
não se convence a amar ninguém. Ela não
sabe da existência do amor de Eros, mas pressente-o. A alma sente o amor
invisível e próximo, e mesmo sem o conhecer ou ver, aguarda e chama por
ele. A princesa torna-se prisioneira de uma solidão voluntária.
Preocupados com o destino da filha, os pais procuram o oráculo de Apolo. Ali vem a
revelação: Psiquê deverá ser vestida em trajes de núpcias, depois
conduzida para o alto de uma colina, aonde um terrível monstro, mais
poderoso que os próprios deuses do Olimpo, virá buscá-la e fazê-la a sua
esposa.
Diante de tão terrível revelação, os pais de Psiquê levam a filha ao local ordenado pelos deuses. Aos prantos e protestos das irmãs,
Psiquê é deixada sozinha no local indicado pelo oráculo. Corajosamente
espera que se cumpra o seu destino. Espera por horas que lhe venha
buscar o monstro que se tornará o seu marido.
Sozinha, Psiquê espera pelo monstro que a irá desposar. Cansada da espera, a princesa adormeceu. Zéfiro, o vento suave,
transportou a bela princesa adormecida para um bosque cheio de flores.Quando Psiquê despertou, viu à sua volta, um riacho de águas límpidas, as mais
belas flores, e um imenso e imponente castelo. De repente, uma voz
quente e agradável convidou a princesa para entrar no castelo. Conduzida
pela voz, ela percorre várias salas e corredores. Pára em uma sala,
envolvida por uma música suave. Senta-se à mesa, aonde um farto jantar a
espera. Não vê ninguém. Aparentemente está sozinha, mas sente-se
observada.
Assim, solitária, após alimentar-se e a banhar-se, vê a noite chegar. Recolhe-se ao leito e espera que o terrível monstro venha
fazê-la sua esposa. Protegido pela escuridão, Eros aproxima-se da bela
princesa. Envolve-a em ternas carícias, tomando-a para si de forma
ardente. Nos braços quentes do amante, Psiquê sente-se tranqüila,
dissipa-se o medo. Não lhe vê o rosto, mas sente-lhe o corpo viril e
apaixonado. Psiquê sente-se feliz como nunca ousara ser.
Assim passaram-se os dias. Psiquê recebe todas as noites a visita ardente do
amado. Não tem medo dele, pelo contrário, mesmo sem ver-lhe o rosto,
ama-o cada vez mais. No imenso castelo não há mais vestígios da solidão,
do medo ou dos conflitos dos sentimentos. No meio daquela felicidade,
Eros fez a mulher jurar que jamais lhe veria o rosto, teria que confiar
apenas no seu amor. Apaixonada, não foi difícil para Psiquê fazer o
juramento.
A bela mulher viveu feliz até o dia que pediu a Eros para que pudesse receber as irmãs no castelo,
pois as pobres mulheres viviam atormentadas com o triste destino que
pensaram, tinha ela seguido. Eros, mesmo contrariado, permitiu que as
cunhadas visitassem a mulher. Quando as duas irmãs encontraram Psiquê
tão feliz, baniram imediatamente dos seus corações, a tristeza pelo
destino da irmã. Sucederam-se outras visitas. A cada uma delas, as
princesas viam a irmã mais feliz. Esta felicidade passou a incomodá-las
profundamente. Tanto, que passaram a pôr dúvidas no coração de Psiquê.
Como poderia saber quem dormia ao seu lado, se nunca lhe tinha visto o
rosto? E se fosse o mais terrível dos monstros? Afinal o oráculo de
Apolo previra que ele seria um monstro. E se esse monstro a matasse um
dia? Apesar de garantir às irmãs que o marido não lhe parecia um
monstro, elas perguntava-lhe se ele era belo e jovem, por que não lhe
mostrava o rosto?

A cada visita das irmãs, uma nova dúvida era posta na mente de Psiquê, até que ela deixou o veneno da desconfiança
tomar-lhe o coração. Orientada pelas irmãs, Psiquê deveria preparar uma
faca afiada e uma lâmpada de azeite, esperar que o marido adormecesse,
iluminasse a sua face com a lâmpada, se fosse um monstro, matá-lo com a
faca. Invadida pela dúvida, assim agiu a atormentada princesa. Após uma
longa noite de amor, Eros adormeceu exausto. Psiquê aproveitou o sono do
amado, para acender a lâmpada e ver o seu rosto. Quando a luz iluminou a
face do amante, Psiquê pôde contemplar não um monstro, mas o mais belo
de todos os deuses, o
belo filho de Afrodite! Emocionada, lágrimas rolaram pelo rosto da
mulher. Sentia-se culpada por ter quebrado a promessa que fizera ao
marido. Sem querer, Psiquê entornou o azeite quente da lâmpada nas
costas de Eros. O deus do amor acordou com a dor que lhe causara o
azeite. Viu o seu rosto iluminado por Psiquê, percebendo o que se tinha
sucedido. Triste, Eros levantou-se e partiu, deixando a mulher. Psiquê
ainda correu atrás do marido, mas ouviu-lhe a voz, ao longe, a
dizer-lhe:
“O Amor não vive sem confiança.â€
saber da verdade, do amor do filho pela mortal, a deusa
sentiu-se traída, jurando que Psiquê jamais viria o filho outra vez.Abandonada por Eros, Psiquê percorreu todos os oráculos da Grécia, a procura do
paradeiro do amado. Mas todos os deuses, temendo à fúria de Afrodite,
nada revelaram à bela princesa. Por fim, Psiquê decidiu buscar a ajuda
da própria Afrodite. Foi recebida com escárnio pela deusa do amor. Para
dar notícias do filho, Afrodite impôs à triste mulher, várias tarefas
impossíveis de serem cumpridas. A primeira foi a de que,
até o fim do dia, Psiquê trouxesse um grande número de grãos de todas as
sementes do mundo. A infeliz mulher saiu desesperada em busca dos
grãos. Ao ver quão impossível era a tarefa para uma mortal, os deuses do
Olimpo ficaram comovidos. Apolo ordenou às formigas que juntassem os
grãos em volta da princesa. Assim, após a fadiga da tarefa, Psiquê
cumpriu o que lhe ordenara a deusa da beleza.
Afrodite ficou furiosa, pois tinha certeza que Psiquê fora ajudada. Como punição, fez com que
ela, a partir daquele dia, passasse a dormir no chão frio, sem qualquer
proteção, e como alimento, teria apenas a côdea de um pão duro e velho,
para que assim, definhasse e perdesse a beleza. Psiquê submeteu-se sem
pestanejar, a mais esta prova.
Sucessivas e perigosas tarefas foram impostas por Afrodite à pobre Psiquê, que cumpriu obstinada a cada uma
delas, sempre ajudada pela compaixão dos deuses, que veladamente vinham
em socorro da apaixonada
princesa.
Por fim, Afrodite ordenou que Psiquê fosse ao Hades, o mundo dos mortos, e pedisse a rainha daquele reino, Perséfone
(Prosérpina), que pusesse numa caixa um pouco da sua beleza, para que se
recuperasse a deusa do amor das longas noites de vigília a cuidar da
ferida do filho. Psiquê levou dias para descobrir o caminho dos
infernos. Com perseverança, contou com a ajuda de todos aqueles que lhe
cruzavam o caminho. Comovida com o sofrimento da jovem, Perséfone, a
rainha dos infernos, entregou a caixa da beleza a ela, para que a
levasse até Afrodite.
Quando voltou ao mundo dos vivos, Psiquê sentiu-se esgotada. Olhou-se em uma fonte. Estava fraca, envelhecida,
perdera a beleza. Pensou que Eros jamais voltaria a olhar para ela
vendo-a daquele jeito. Atormentada por esta idéia, Psiquê decidiu não
cumprir aquela tarefa imposta por Afrodite. Abriu a caixa que trazia um
pouco da beleza de Perséfone, para que pudesse recuperar um pouco
da sua, pensando assim, evitar que Eros a abandonasse quando a visse
outra vez. Ao abrir a caixa, uma grande maldição pousou sobre a infeliz
princesa, que foi acometida de um sono profundo, caindo adormecida sobre
as flores do bosque.
Recuperado da ferida, Eros fugiu à vigilância de
Afrodite, decidido a procurar pelo amor perdido. O deus encontrou Psiquêadormecida no bosque, ao lado de uma fonte. Aproximou-se dela,
aprisionando o sono da morte que a envolvia, dentro da caixa de
Perséfone. Depois tocou a amada com uma das suas flechas de ouro,
fazendo com que despertasse. Ao ver novamente o rosto do amado, Psiquê
sorriu-lhe emocionada,
atirando-se nos seus braços. Ao saber de todos os sacrifícios que ela
fizera pelo seu amor, Eros decidiu desposá-la para sempre. Pediu a Zeus
que tornasse a mulher imortal. O senhor do Olimpo atendeu ao pedido do
deus, dando ele mesmo a ambrosia da imortalidade para que a bela jovem
bebesse. Quando Afrodite quis impedir a união do filho, já era tarde.
Psiquê tornara-se imortal, e já nada se poderia fazer contra ela. O Amor
cobiçara a mortalidade da Alma, apaixonando-se por ela, fazendo-a
imortal. Amor e Alma estavam unidos para sempre, imortais que eram, só
um poderia fazer o outro feliz e completo. Da união dos dois nasceu a
Volúpia.
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