Anjo de Luz

Informação é Luz , ajude a propagar

(5)                     NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA                 (jan 2008)

(Baseado em ‘O Espectro da Consciência’, de Ken Wilber).

                              

       Um estudo de Wilber, um dos mais respeitados psicólogos do Ocidente, sobre a psicologia do Ocidente e das tradições místicas do Oriente, mostrando que não são antagônicas, mas complementares, e que as práticas místicas podem nos levar à ‘iluminação’.

..........................................................

       1. INTRODUÇÃO

       J. Fadiman afirma que ‘Wilber escreveu o livro mais sensível e abrangente sobre a consciência desde William James’, enquanto Deepak Chopra diz que as obras de Wilber estão sempre ao alcance de suas mãos.                                         

       Spencer Brown: ‘O universo que conhecemos é construído a fim de ver-se a si mesmo. Para fazê-lo ele precisa primeiro dividir-se, pelo menos, em um estado que vê e, pelo menos, em outro estado que é visto’. (Krishnamurti: ‘a mente é vazia e, por isso, o cérebro existe no espaço e no tempo’).          

       D.T.Suzuki: ‘Em sua natureza original, a consciência, tranqüila e pura, está acima do dualismo sujeito e objeto’ (tudo é um).

       W.James: ‘Nossa consciência normal é apenas uma forma de consciência. Em toda sua volta, separadas dela pelo mais fino véu, estão outras formas de consciência inteiramente diversas. Podemos passar a vida inteira sem suspeitar-lhes a existência; porém, aplique-se a elas o estímulo adequado e ei-las ali em toda sua inteireza. Não pode ser completa nenhuma explicação do universo que não considere essas outras formas de consciência. De qualquer modo, elas nos levam a um antecipado acerto de contas com a realidade’ (Krishnamurti: levam-nos àquilo que está após a morte biológica: um novo estado de existir).

       Os cientistas ocidentais, com importantes exceções, acham que a mente ‘oriental’ é regressiva ou atrasada, enquanto que o místico oriental afirma que o materialismo científico ‘ocidental’ é a mais grosseira forma de ignorância espiritual e de ilusão.

      Assim, afirma F. Alexander, psicanalista ocidental: ‘As semelhanças evidentes entre os sintomas da esquizofrenia e as práticas do Yoga e do Zen mostram que a tendência geral das culturas orientais é o recolhimento ao interior do eu, para fugir de uma realidade física e social terrivelmente difícil’.

      E D.T. Suzuki, grande autoridade no Zen Budismo: ‘O conhecimento científico do Eu não é um conhecimento verdadeiro. Este só é possível quando os cientistas abandonam seus instrumentos e confessam não poder continuar as pesquisas.’

       Devemos aplicar os métodos, em geral ‘ocidentais’, de reafirmar a auto-confiança, criar egos saudáveis, lidar com as neuroses, viver plenamente como indivíduos. Mas, se desejarmos ir além do eu individual e penetrar num nível de consciência muito mais rico e pleno, temos de aprender com os investigadores da Mente, da percepção mística, da Consciência Cósmica, na maioria ‘orientais’.

       (Qualquer método que ajude a produzir um estado de relaxamento e de tensão reduzida pode levar à experiência mística).

       Enquanto a psicologia ocidental procura corrigir a auto-imagem, integrar o ego, reafirmar a autoconfiança, criar metas realistas e práticas para a vida, objetivos que não garantem uma completa libertação dos sofrimentos nem a total cura dos sintomas perturbadores, mas apenas, e até certo ponto, a uma redução das ‘neuroses normais’, que são conseqüência natural de sermos um ego, a meta das abordagens orientais é o esquecimento e a transcendência do ‘eu’ para levar à ‘iluminação’. Esta abordagem afirma conhecer e explorar um nível de consciência que oferece total liberdade e completa extinção da principal causa de todo sofrimento do homem e põe fim às nossas incessantes buscas de felicidade e paz.

       As únicas autoridades dignas de confiança com as quais podemos contar cientificamente, são aqueles que perceberam os vários níveis da consciência, como o de ser um ego e o de ir além do ego. Suas opiniões sobre a natureza da Mente, da percepção mística, são impressionantemente idênticas e universais (uma ‘experiência de concordância universal’, segundo Einstein). Transcender o ego é um estado ou nível de consciência infinitamente mais rico, mais natural e mais gratificante do que podemos imaginar em nossos mais ousados vôos de fantasia.

       Há, assim, duas opções de julgar a verdade sobre a Mente: crer naqueles que a experimentaram, ou tentar experimentá-la nós mesmos; se não fizermos nem uma coisa nem outra, devemos evitar o julgamento de que isso é ilusão, alucinação ou doença mental. As disciplinas orientais, como o Vedanta e o Zen, não são teorias, filosofias, psicologias, nem religiões; são um conjunto de experiências no sentido rigorosamente científico do termo. Consistem de prescrições que, se seguidas à risca, resultarão seguramente no descobrimento do Nível da Mente pura (isto é, daquilo a que chamamos Deus). Recusar-se alguém a aceitar resultados de experimentos científicos dessa natureza, porque não gosta dos métodos usados, é um gesto profundamente anticientífico. Rejeitar um fato, ‘cuja prova experimental é possível’, é absurdo, pois existe um caminho prescrito para os que desejarem testá-lo. Quando falamos da percepção do Absoluto, não estamos falando de um ponto de vista apenas teórico. Falamos de dados obtidos pela prática, pela experiência, e o cientista que zomba de tais resultados, sem antes ter o cuidado de realizar o experimento, não passa de um cientista no sentido mais pobre do termo.

       W. James: ‘Todo o fluxo da minha educação convence-me de que o mundo de nossa consciência ordinária é apenas um dos muitos mundos de consciência existentes, e de que os outros mundos hão de conter experiências que também têm significado para a nossa vida; e de que, embora na maior parte das vezes suas experiências se mantenham discretas, elas e as deste mundo se mostram interligadas em certos pontos.’...‘O Nível da Mente pura é, de certo modo, mais real, mais básico e mais significativo do que os outros. Essa experiência é tão total e terrivelmente convincente que, quem a experimenta, sente que os outros níveis de consciência (aqui incluído nosso nível comum de consciência) são irreais, ilusórios e semelhantes a sonhos’

       Tennyson: ‘Um transe em estado de vigília me sucede ao repetir meu próprio nome em silêncio, até que, de repente, minha própria consciência individual parece dissolver-se no Ser sem limites; e não se trata de um estado confuso, mas do mais claro dos claros, do mais seguro dos seguros, do mais estranho dos estranhos, totalmente além das palavras, no qual a morte é uma possibilidade ridícula, e a perda da personalidade (do ego) não é uma extinção, mas a única vida verdadeira’.

       Para os incrédulos, a afirmação de que só o Nível da Mente é real, ou que é a única vida verdadeira, o que significa que o nosso ego é uma ilusão, produz estranheza total. Mas, todos os que investigaram esse nível (os místicos e, hoje, cientistas quânticos) afirmam: o ‘eu’ é uma ilusão. E a essência de suas revelações é: a realidade única e absoluta é a Mente pura. A Mente é o que é e é tudo o que é, infinita, eterna.

 

       2. OS DOIS MODOS DE CONHECER

       Quando o universo como um todo procura conhecer-se por meio da mente dos seres sencientes, como afirmam cientistas, místicos e filósofos, alguns aspectos seus permanecerão desconhecidos. Com o surgimento do conhecimento dualístico (eu e não-eu), simbólico, teria surgido uma divisão no universo, entre observador e coisa observada, entre conhecedor e conhecido, sujeito e objeto e, por isso, nossa consciência mais íntima, investigadora do mundo, continua desconhecida para nós, do mesmo modo que os olhos podem ver o mundo, mas não podem ver a si mesmos. (Krishnamurti afirma que ‘a mente (total, universal) é vazia e, por isso, o cérebro existe no espaço e no tempo’, concordando com as afirmações acima de que o universo procura conhecer-se por meio da mente dos seres sencientes).

       Eddington, físico: ‘Não podemos fugir ao fato de o mundo que conhecemos ter sido construído com a finalidade de ver-se a si próprio. É evidente que, para isso, ele precisa primeiro cortar-se em um estado que vê e em outro estado que é visto. Nessa condição mutilada, o que quer que ele veja nunca é totalmente ele’.

       Esse tipo de conhecimento dualístico, parcial e ilusório (pois deixa sempre alguma coisa de fora, sem ser vista) e que divide o mundo em sujeito e objeto, por mais surpreendente que pareça, é a base de toda filosofia, teologia e de todas as ciências ocidentais da atualidade. Assim, os dualismos do bem e do mal, cujo estudo é a ética, o da verdade e da falsidade, cujo estudo é a lógica etc. No correr da historia, o pensamento ocidental gerou outros numerosos dualismos: instinto e intelecto, matéria e energia, onda e partícula, espírito e matéria, tese e antítese, mente e corpo, destino e livre-arbítrio etc.

       Até 1.600, os únicos sistemas de pensamento desenvolvidos estavam nas organizações religiosas ou filosóficas. As observações sobre a natureza estavam desorganizadas. Por dois mil anos o homem tentou classificar os fenômenos que observava no chamado mundo objetivo, até que, ali por 1.600, Kepler e Galileu estabeleceram a regra de que as leis da natureza deveriam ser descobertas pela mensuração (medição). A nova tecnologia prometia o que até então não se havia conseguido: a descoberta da Realidade Final e Absoluta. Agora, todas as descobertas tinham que se limitar ao que fosse mensurável. Caso contrário, a coisa ou não existia, ou não merecia ser conhecida.

       Aí por 1.900, a ciência estava convencida de que nada mais havia a ser medido; que chegara ao fim da busca da Realidade, certa de que já havia descoberto, pela mensuração e verificação objetivas, todas as leis universais e absolutas do ‘Grande Relojoeiro’ que construíra o universo. Só faltava medir o próprio Relojoeiro.

       Porém, a ciência não conseguia explicar dois importantes fenômenos: o fotoelétrico e a radiação de energia de certos corpos. Num estudo genial, que solucionou o problema, o físico Planck provou que a energia não é contínua como se supunha, mas que ela vem em pacotinhos, ou ‘quanta’ (nome dado por Einstein) e, com isso, compreendeu-se que a estrutura sólida da matéria é pura ilusão. Broglie, outro cientista, provou que também a matéria, como a energia, produz ondas. Essa descoberta levou Schroedinger, outro físico, a formular a monumental mecânica quântica. Essas descobertas resultaram numa conclusão devastadora: o Princípio da Incerteza, do físico Heisenberg, de implicações tremendas (o fluir dos eventos é imprevisível e, portanto, totalmente incerto).

       Mas, a ciência insistia na suposição de que a Realidade era aquilo que podia ser verificado objetivamente (visto, pesado, apalpado, etc). Contudo, quando a investigação chegou à física subatômica, os cientistas desejaram localizar e medir (observar) as partículas, como os elétrons, que eram julgados a realidade das realidades, as coisas finais e indivisíveis que compõem toda a natureza. Não havia, porém, como fazê-lo, pois o próprio ato de medir fazia o elétron mudar de posição. Não era um problema técnico, mas um problema da própria construção do universo. Os físicos concluíram então que a suposição de que o observador está separado do universo que ele observa, de que podemos observar o universo, nós aqui, o universo lá, sem afetá-lo, é impossível. Sujeito (observador) e objeto (coisa observada) se acham intimamente unidos, e todas as teorias que supunham o contrário ruíram. Para a física atual, é inadmissível a idéia de que o observador está separado do fenômeno que está observando. Essa incapacidade de localizar de forma definitiva as últimas realidades do universo foi matematicamente proclamada como o Princípio da Incerteza e marcou o fim da visão da ciência clássica e dualística sobre a realidade, de tal modo que a ciência passou a exigir total re-interpretação, conforme afirmou Einstein.

       Whitehead: ‘Os velhos alicerces da ciência se partiram e as bases estão ficando totalmente incompreensíveis. Tempo, espaço, matéria, eletricidade, mecanismo, organismo, estrutura, modelo, função, tudo requer re-interpretação’.

       Broglie: ‘No dia em que os ‘quanta’ foram apresentados, o vasto e grandioso edifício da física clássica viu-se abalado nos próprios alicerces. Na historia da ciência poucas mudanças comparáveis a esta se registraram’.

       A mecânica quântica foi um desastre para a física clássica porque destruiu a própria base sobre a qual ela havia sido construída: o dualismo (separação, divisão) sujeito-objeto. Até então, supunha-se que era real tudo que podia ser objetivamente observado e medido. Mas, como a nova física exaustivamente provou, as realidades finais em nenhuma circunstância podem ser precisamente observadas ou medidas. O simples ato de observar modifica a realidade.

       Sullivan: ‘Não podemos observar a natureza sem perturbá-la’.

       Andrade: ‘Observar significa interferir naquilo que estamos observando; a observação perturba a realidade’.

       Tornou-se claro para os físicos que a mensuração e a verificação objetivas já não podiam ser, como se supunha, a marca da realidade absoluta, porque o ‘objeto medido’ nunca está separado do ‘sujeito medidor’; o medidor e o medido, o verificador e o verificado, o sujeito e o objeto são, em última análise, uma só e a mesma coisa. (Krishnamurti: ‘o observador é a coisa observada’).

       Quase na mesma ocasião em que a física clássica desabava, Kurt Gödel, matemático, elaborou aquilo que é considerado o mais espantoso tratado do seu gênero e que, durante mais de cinqüenta anos, tem suportado todas as tentativas para derrubá-lo: o Teorema da Incompletude, um tipo equivalente ao Princípio da Incerteza de Heisenberg. Comprova, com todo rigor, que, quando se divide o universo em sujeito e objeto, num estado que vê e num estado que é visto, alguma coisa sempre fica de fora, isto é, a observação sempre é incompleta, o universo ‘sempre se oculta parcialmente de si mesmo’. Nenhum sistema observador pode observar-se enquanto observa. Assim, na base de todas as ciências encontramos: no mundo físico, um Princípio de Incerteza; no mundo mental, um Teorema de Incompletude; sempre haverá uma dúvida, o universo se oculta de si mesmo, alguma coisa sempre fica de fora.

       Anteriormente, com o dualismo mente e matéria, se tentara descobrir de que substância básica se compunha o universo. Para uns, a mente não passava de ilusão, ou era redutível a partículas físicas, isto é, mente é matéria. Para outros, como as sensações relativas à matéria só existem na mente de alguém, isso mostrava que matéria não passa de uma idéia, isto é, matéria é mente. Mas, nenhum cientista tinha ainda conseguido provar a mente, diziam os adeptos de que tudo é matéria. Os novos físicos quânticos não discutiam isso; eles também não podiam encontrar qualquer substância mental, mas, e aqui vai o importante, também não podiam encontrar qualquer substância material. Um físico chegou a dizer: ‘Nossa concepção de matéria só é clara enquanto não a analisamos. Quando a analisamos, começa a se desfazer. A substância sólida da matéria é total ilusão. Perseguimos a substância sólida do líquido ao átomo, do átomo ao elétron, e aí a perdemos’ (a partir daí não existe mais nada material).

       Bertrand Russell: ‘O mundo pode ser chamado físico ou mental, ou ambos, ou nenhum, como quisermos; na verdade, as palavras não servem para propósito nenhum’. (Krishnamurti: ‘A palavra não é a coisa’). A física quântica destruía o dualismo mente e matéria.

       O dualismo primário, sujeito e objeto, mostrou-se insustentável pela opinião da própria autoridade da física. Bronowski: ‘A relatividade deriva da análise filosófica que insiste em que não há um fato e um observador, mas uma junção dos dois numa observação; que o evento e o observador são inseparáveis’. E Schroedinger, pai da mecânica quântica: ‘O sujeito e o objeto são apenas um. Não se pode dizer que a barreira entre eles caiu, como resultado das recentes descobertas da ciência; essa barreira nunca existiu’.

       Assim, os novos físicos tiveram de abandonar o dualismo ilusório de sujeito e objeto, onda e partícula, mente e corpo, espírito e matéria e, com ajuda de Einstein, o de espaço e tempo, energia e matéria, espaço e objetos. A nova física provou que tudo isso é ilusão. Como as costas e a frente são apenas modos diferentes de ver um mesmo homem, nenhum modo sendo mais real do que o outro, assim sujeito e objeto, psique e corpo físico, energia e matéria, são apenas modos diferentes de ver a mesma realidade.

       E os cientistas re-descobriram e comprovaram a existência de um outro modo de se obter conhecimento, um modo que não separa o observador da coisa observada, o sujeito do objeto, um modo não-dual, portanto.

       Eddington: ‘As formas mais costumeiras de raciocínio foram desenvolvidas apenas para o conhecimento simbólico (dualístico). O conhecimento íntimo não se sujeita à codificação, conceituação e à análise; quando tentamos analisá-lo, perde-se a intimidade, que é substituída pelo simbolismo’. 

       ‘Íntimo’ porque o sujeito e o objeto estão intimamente unidos na mesma operação. Assim que surge o dualismo, a intimidade se perde e é substituída pelo simbolismo, e caímos no mundo do conhecimento simbólico. Sendo apenas ilusão a separação entre sujeito e objeto, o conhecimento dualístico e simbólico que essa ilusão proporciona, é também ilusão.

       Schroedinger: ‘O avanço atual não está no fato de haver o mundo da física adquirido caráter incerto; ele existe desde... e até antes, mas nós não tínhamos consciência dele; pensávamos estar lidando com o próprio mundo.’ Isto é, a física e a maior parte das disciplinas intelectuais ocidentais não estavam lidando com o mundo real, pois trabalhavam com o modo dual de conhecer, isto é, com representações simbólicas do mundo. Nossas palavras, idéias, pensamentos, conceitos, teorias e nossa linguagem do dia-a-dia, são apenas mapas, símbolos do mundo real, do ‘território’, e assim como um mapa da América não é o verdadeiro território, nossas idéias cientificas e filosóficas acerca da Realidade não são a verdadeira Realidade. Os problemas surgem quando nos esquecemos que o mapa não é o território e confundimos nossos símbolos da Realidade com a própria Realidade. A Realidade está além dos símbolos; estes são apenas uma cópia mal feita da Realidade.

       Conforme Heisenberg, Einstein e Schroedinger, no íntimo da Realidade, observador e observado, conhecedor e conhecido, não são separáveis. Há, então, um segundo modo de conhecer, cuja natureza é não estar o conhecedor separado daquilo que ele conhece. Em face das recentes descobertas da física, o clássico e habitual modo de conhecer, dualístico e simbólico, revelou-se totalmente inadequado para o conhecimento daquilo que é Real, conhecimento que a física clássica prometera mas não trouxera. Essa inadequação levou muitos físicos a aceitarem o segundo modo de conhecer, o modo não-dualístico, que não divide nem mutila o mundo.

       Esses dois modos de conhecer são universais, pois foram conhecidos, numa ou noutra forma, em várias épocas em todo o decorrer da história, do Taoísmo ao Vedanta, ao Cristianismo, ao Sufismo, ao Hinduísmo, ao Zen-Budismo.

       Taoísmo: ‘O segundo modo de conhecer é o não convencional que visa à direta compreensão da vida, em vez de compreendê-la nos termos abstratos do pensamento representativo e simbólico’, que é fruto do convencionalismo dos homens.                               

       Hinduísmo: ‘Há dois modos de conhecer: um superior e um inferior. O inferior corresponde ao que chamamos de mapa simbólico, um conhecimento comparativo, baseado na diferença entre sujeito e objeto. O modo superior não se alcança por meio de um movimento progressivo através das ordens inferiores do conhecimento, como se fosse a evolução até o termo final de uma série, mas repentina, intuitivamente, imediatamente’.

       Berdyaev, teólogo cristão: “Não podemos deixar de lado o simbolismo na linguagem e no pensamento, porém ele não existe na consciência pura. Ao descreverem sua experiência, os homens utilizarão sempre símbolos espaciais (e opostos), como altura e profundidade, luz e sombra, belo e feio, bem e mal etc. Mas, na verdadeira experiência mística, esses símbolos desaparecem... essa experiência é realista e não simbólica; e está livre da elaboração conceitual’.

       Eckhart, teólogo cristão: ‘No modo não-dual as criaturas são percebidas sem distinções; rejeitam-se todas as idéias, todas as comparações naquele Um que é o próprio Deus’... ‘essa é a maneira divina de conhecer’.

       Budismo Mahayana: ‘Utilizamos o modo de conhecer, em nosso mundo dos sentidos e do raciocínio, caracterizado pelo dualismo no sentido de que um vê e o outro é visto, os dois se mantendo em oposição. No modo divino de conhecer essa divisão não existe; o que é visto e o que vê são idênticos; o vedor é o visto e o visto é o vedor’.   

       Enquanto o modo dualístico divide o universo em dois, mutilando, tornando falso e incompleto o que se procura conhecer, o modo não-dual mantém o universo uno, íntegro, não-dividido.

       William James: ‘Há dois modos de conhecer: conceptual ou simbolicamente e imediatamente ou intuitivamente’. No conhecer imediatamente não existe interferência de pensamentos, memórias, associações, do ‘eu’, enfim (é o que a meditação produz). O modo simbólico ou representativo é o modo ao qual estamos condicionados: considera-se o objeto como se estivesse separado do sujeito; é o estabelecimento de uma cadeia de intermediários físicos ou mentais (associações, lembranças) que ligam nosso pensamento à coisa. O segundo modo de conhecer, porém, não contém duplicidade semelhante, pois ‘no conhecer imediatamente ou intuitivamente, o conteúdo mental do observador e o objeto observado são idênticos’.

 

       3. A REALIDADE ÚLTIMA É A CONSCIÊNCIA

       A conclusão inequívoca e unânime de vasto número de cientistas, filósofos, psicólogos, teólogos e físicos quânticos, que compreenderam profundamente esses dois modos de conhecer, é que só o modo não-dual nos dá o conhecimento da Realidade. O modo dual mutila, divide o universo e por ele só conheceremos aquilo que é pura ilusão. Entretanto, para a maioria dos ocidentais é muito difícil compreender isso, pois nossa civilização, identidades pessoais, filosofias, idéias e objetivos de vida se baseiam de forma tão profunda no modo dual de conhecer, que qualquer sugestão de que esse modo produz ilusão e não realidade, desperta, em todos, total descrença. O modo dual é ainda mais danoso quando o universo, por ele dividido e simbolizado, é considerado como se fosse o universo real.

       Com esta nova visão, verificamos que os conhecimentos que temos do mundo desmoronam completamente, pois vemos, na base do mundo físico, não garantia de certeza, mas um Princípio de Incerteza; na base do mundo mental, um Teorema de Incompletude. Descobrimos, até, que ‘toda observação perturba a realidade’. E, apesar disso, não estamos inclinados a conhecer as descobertas (da física quântica) que exigem que reinterpretemos a própria ciência, o mundo e a nós mesmos. Em outras palavras, não queremos conhecer e, desse modo, nos defender, daquilo que é a origem de todas nossas ilusões, conflitos e sofrimentos. Preferimos enfiar a cabeça na areia.

       Para muitos essa afirmação parecerá exagero, pois a maioria de nós nem concorda em questões políticas, quanto mais na questão da Última Realidade. Os antigos budistas Zen tinham uma ‘concepção’ da Realidade muito diferente da de um cientista moderno, e a concepção deste deve ser diferente da de um teólogo da Idade Média. Contudo, há dois modos diferentes de conhecer a Realidade. É verdade que as imagens do mundo dadas pelo conhecimento do mapa simbólico sempre diferiram muitíssimo de cultura para cultura, em todo o correr da história. Além disso, a imagem que temos do mundo mudará à medida que atualizarmos nossas idéias científicas, históricas, culturais. O modo não-dual de conhecer, porém, não tem como conteúdo quaisquer idéias ou imagens. Seu conteúdo é a própria Realidade, uma Realidade que é, em toda parte e em todos os tempos, a mesma, de maneira que o modo não-dual de conhecer resulta numa concordância filosófica única de extensão universal, uma compreensão da Realidade que ‘tem sido sustentada por homens que relatam as mesmas introvisões e ensinam a mesma doutrina essencial, quer vivam hoje, quer tenham vivido há milhares de anos’. Assim, a Realidade experimentada pelo budista Zen, pelo teólogo e pelo cientista moderno, utilizando o modo não-dual de conhecer, é idêntica em todos os casos.

       Portanto, o conhecimento dualístico e simbólico, do primeiro modo de conhecer, produz diferentes imagens do mundo, enquanto o conhecimento não-dual e não-simbólico produz só uma imagem, ou melhor, uma só compreensão, já que é não-verbal, isto é, é sem palavras e sem imagens. Existe apenas uma Realidade, mesmo que      possa ser descrita de diferentes maneiras conforme os mapas simbólicos das diferentes culturas. Em todas as épocas, houve homens que tiveram percepção dessa Realidade, pelo abandono temporário do conhecimento simbólico. Deixaram de falar ou de ler sobre ela e, em vez disso, experimentaram-na, e é o conteúdo dessa experiência que universalmente se proclama ser a Realidade Absoluta.

       A prova não consiste na demonstração lógica, mas em experimentar o fato e, somente empenhados em despertar o modo de conhecer não-dual, saberemos por nós mesmos se ele é verdadeiro ou não. Ele nos revela a Realidade porque evita diretamente as mutilações associadas ao modo dualístico de conhecer, já que não divide o universo, não o deixa mutilado nem falso para si mesmo.

       Teilhard de Chardin, monge e cientista: ‘Temos considerado a matéria de acordo com suas qualidades e em qualquer volume dado, como se fosse possível cortar um fragmento e estudar a amostra separada do resto. Já é tempo de saber que isso não passa de um truque intelectual. Considerado em sua realidade física, o universo não pode dividir-se, mas, como uma espécie de átomo gigantesco, forma um todo indivisível. Quanto mais profundamente penetramos na matéria, com métodos cada vez mais poderosos, mais se revela a interdependência de suas partes. Cada elemento do cosmo é positivamente tecido de todos os outros... É impossível cortar essa rede, isolar-lhe uma porção sem que ela fique puída e desfiada nas bordas. Em toda a nossa volta, o universo permanece uno, e só é realmente possível um modo de considerá-lo, a saber, encarando-o como um todo, uma só peça’ (o modo não dual de conhecer).     

       E como nossa identidade pessoal está intimamente relacionada com o nível de consciência no qual operamos, a mudança de nosso modo de conhecer traz mudança de nosso sentido de identidade. Por isso, quando utilizamos o modo dualístico, que separa o sujeito que conhece do objeto que é conhecido e, em seguida, atribui ao objeto um símbolo ou nome apropriado, isso faz com que nos sintamos totalmente separados do universo, dando-nos uma identidade expressa pelo nosso papel e por nossa auto-imagem (falsa, portanto), a imagem símbolo que formamos de nós mesmos ao nos tornarmos, por esse modo de conhecer, um objeto para nós mesmos, um objeto ‘separado’ do mundo.

    O conhecimento não-dual, entretanto, não opera assim pois, como já vimos, é de sua natureza estar unido (ou ser) ao que se conhece, o que, evidentemente, requer mudança em nosso sentido de identidade. Afirmamos que o conteúdo do modo não-dual de conhecer é a própria Realidade Absoluta, porque revela o universo como ele é realmente e não como convencionalmente julgamos que seja. Contudo, não existe uma coisa chamada Realidade e uma outra coisa chamada conhecimento da Realidade. O conhecer a Realidade ‘é’ a própria Realidade. O conhecer não-dual e a Realidade são uma coisa só, pois se fundem na Experiência mística (isto é, só conheceremos a Realidade sendo, nós mesmos, essa Realidade; afirma Krishnamurti: ‘o observador é a coisa observada’, e Meister Eckhart: ‘ao conhecermos Deus, nós nos confundiremos nele, pois vamos perceber que somos um só’ e, como Jesus que disse: ‘eu e o Pai somos um’).

       E chegamos a uma conclusão surpreendente: já que os modos de conhecer correspondem a níveis de consciência, e já que a Realidade é um modo de conhecer, daí se segue que a Realidade é um nível de consciência. A Realidade não é material nem espiritual; a Realidade é um nível de consciência, e só esse nível é Real. A Realidade é aquilo que se percebe e se sente pelo conhecer não-dual e não-simbólico. Embora um tipo de filosofia costume estar baseado nessa experiência fundamental, a experiência não é, por si mesma, uma filosofia; é, ao contrário, a suspensão de todas as filosofias; não é uma visão entre muitas, mas a ausência de todas as visões, sejam elas quais forem. É o que o hindu chama ‘percepção sem imagens’ ou o budista tibetano de ‘mente liberta de todos os conceitos’ (ou conteúdos), e o Zen de ‘estado de não-pensamento’ (mente não poluída por qualquer pensamento, seja bom ou mal, certo ou errado). O pensamento dualístico, isto é, formulado pelo ego, sempre adotado por nós todos, impede que conheçamos a Realidade Final e, portanto, o ego (que condiciona e interpreta erradamente) precisa ser afastado para que a Realidade se revele para nós.

       Assim, ao afirmar que a Realidade é um nível de consciência, ou que a Realidade é só-Mente, estamos nos referindo a um estado de percepção em que o observador é a coisa observada, em que o universo não está dividido num estado que vê e noutro que é visto. Não está dividido em seres vivos, homens, animais, vegetais, pedras, ar, objetos, mares, terra, sóis, planetas etc; o universo é Um Todo indiviso. Utilizando-se o modo não-dual de conhecer, o conhecedor entra em comunhão com tudo o que ele conhece, de modo que sua identidade se transfere do indivíduo, que ele supõe que é, para o Todo, pois conhecer a Realidade é ‘ser’ a Realidade (Isso pode ser comprovado pela meditação).

       ‘Por mais inconcebível que pareça à razão comum (ao nosso modo de conhecer dualístico), nós e todos os seres conscientes somos tudo em tudo. Daí que a vida que estamos vivendo, não seja apenas um fragmento da existência inteira, mas, em certo sentido, é o Todo (a vida total)... Assim, podemos atirar-nos ao chão, estender-nos sobre a Mãe Terra, com a convicção absoluta de estarmos em comunhão com ela e ela conosco. Estamos firmemente estabelecidos e somos tão invulneráveis como ela; na verdade, mil vezes mais firmes e mais invulneráveis. Tão certo quanto ela nos engolirá amanhã, trar-nos-á outras vezes novas lutas e novos sofrimentos. E não somente ‘algum dia’. Agora, hoje, todos os dias, ela nos traz à vida, não uma só vez, mas milhares e milhares de vezes, exatamente como nos engole, todos os dias, milhares e milhares de vezes’.

       Essa afirmação não vem de um ‘místico’ confuso, mas da clareza da mente de Schroedinger, o cientista que formulou a mecânica quântica, a ciência mais avançada e mais bem arquitetada do planeta.

       Para mostrar que a experiência da Realidade Absoluta obtida pelo modo não-dual de conhecer é universal, vamos ao que segue, embora a Realidade somente possa ser comunicada por modos simbólicos, compreensíveis ou imaginativos, os quais contêm significados que nos farão, mais facilmente, compreender aquilo para o que não há palavras para descrever, e que dão a entender a Realidade em termos do que ela parece ser, do que ela não é e do que pode ser feito para alcançá-la. Nenhum meio existe para se dizer o que ela é.

       O modo que ensina o que fazer para alcançá-la constitui a própria essência do Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, Sufismo (as grandes tradições orientais) e é sempre um conjunto de instruções sobre como fazer despertar o modo não-dual de conhecer e, assim, conhecer, diretamente, a Realidade (Jesus: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’). Essas instruções variam muito de cultura para cultura, cada uma tendo seu próprio grupo particular de regras, porque seus símbolos são sempre diferentes. Mas, sempre e onde quer que as instruções levem ao modo não-dual de conhecer, a Realidade experimentada é idêntica, é a mesma, tanto que Einstein e outros famosos a chamaram de ‘concordância universal’.  

       James Jeans: ‘No espaço e no tempo, nossas consciências são indivíduos separados. Mas, além do espaço e do tempo, elas talvez formem uma única e contínua corrente de vida. O que acontece com a eletricidade e o magnetismo pode acontecer com a vida: os fenômenos podem ser indivíduos carregando existências separadas no espaço e no tempo, enquanto que, na realidade mais profunda, além do espaço e do tempo, podemos ser todos nós membros de um só corpo’ (‘Eu e o Pai somos um’; ‘somos todos membros de Cristo’. O espectro-teclado das vibrações cósmicas, embora uma ‘única e continua corrente de vida’, nos apresenta existências aparentemente separadas: ondas de rádio, calor, som, luz, eletricidade, magnetismo, corpos químicos, sensações de tato, visão etc. Isso pode estar ocorrendo com as diferentes formas de vida: eu, você, os animais, vegetais, minerais, embora indivíduos de existências separadas quando no espaço-tempo, numa realidade mais profunda, além do espaço-tempo, podemos ser um só corpo, uma única vida, uma única Mente).

       Schroedinger afirmou, referindo-se a esse ‘um só corpo’, que ele é ‘essencialmente eterno e imutável e numericamente um em todos os seres sensitivos... Por mais inconcebível que isso possa parecer à razão comum, nós e todos os outros seres conscientes somos de suprema importância. Daí que a vida que estamos vivendo não seja só uma peça da existência inteira mas, em certo sentido, é o todo.’, ‘Todas as consciências são fundamentalmente uma. O mundo externo e a consciência (mundo interno) são a mesma coisa’, ‘A multiplicidade das mentes individuais é apenas aparente, pois na verdade só existe uma Mente’. E: ‘A ciência, em sua fase atual, indica a indestrutibilidade da Mente pelo tempo’, ‘A única alternativa possível é... o fato de ser a Mente, ou consciência, um singular cujo plural não se conhece; que existe apenas uma coisa e o que parece ser uma diversidade não passa de uma série de aspectos diferentes da mesma coisa, produzidos por uma ilusão. Idêntica ilusão se produz numa galeria de espelhos, e identicamente Gaurisankar e o Monte Everest se revelaram o mesmo pico visto de vales diferentes’. (igual à história dos cegos que apalpavam diferentes partes de um elefante e, assim, imaginavam como seria o animal). Os fenômenos, seres e objetos são apenas diferentes aspectos de uma mesma coisa. É o que acontece quando se coloca um objeto na frente de um espelho - obtemos dois objetos onde, na verdade, só existe um).

       Arthur Eddington: ‘Temos tão somente um enfoque verdadeiro, a saber, através do conhecimento direto, não-dual. O modo dual conduz tão-só ao mundo da física, onde corremos em roda como um gatinho perseguindo a própria cauda’ (o enfoque dualístico não leva à nada; é apenas ilusão).

       Budismo Mahayana: ‘O que se pode compreender pelo intelecto não é a verdade. A verdade é a compreensão de si mesmo (auto-conhecimento) experimentada interiormente através da introvisão não-dual, e não pertence ao domínio das palavras, da dualidade ou do raciocínio (é indizível, como disse Paulo). O mundo é apenas Mente. Tudo é Mente’. ‘A Mente é o Reino da Realidade, a essência de todas as fases da existência em sua totalidade. A Mente é não-nascida e imperecível, além do tempo e do espaço. É somente através da ilusão que todas as coisas vêm a ser diferenciadas. Todas as coisas, desde o começo, transcendem todas as formas de verbalização, descrição e conceituação e são, em última análise, não-diferenciadas. Todas as explicações dadas com palavras são provisórias e, finalmente, sem validade. A Realidade (ou a divindade, como queiram) não tem atributos. Todas as coisas são apenas Mente Una’.

       Budismo Zen: ‘Os Buddhas e todos os seres sencientes nada mais são do que Mente Una, ao lado da qual nada (mais) existe’.

       Chang-Ching: ‘Quão enganado estava eu, que tentei alcançar a Mente através do intelecto. Ergue a tela (afasta o intelecto) e vê o mundo! Se alguém me perguntar qual é minha filosofia, bater-lhe-ei diretamente na boca com o meu bastão’. (Não há filosofia, não há raciocínio... e só algo superior ao intelecto, além do ego, pode nos levar à percepção da Mente).

       Conforme as diferentes culturas, essa Realidade recebeu outros nomes: o Absoluto, o Caminho, Tao, Vazio, Espírito Santo, Divindade, Deus, Alá; consciência crística, Cristo, Buda, samadi, satori, nirvana, reino dos céus; ‘é que chamam muitos a quem é realmente um’ (O sufismo diz que a divindade tem mais de ‘mil’ nomes, pois nomes são apenas símbolos e nenhum a representa adequadamente).

       Cristianismo: I Coríntios, 16:15-17: ‘Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele’. (Jesus: ‘eu e o Pai somos um’). João, 17:21: ‘A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, também sejam eles um em nós’.

       Plotino, místico, aconselha a ‘redução de todas as almas a Um’.

       Eckhart, teólogo cristão: ‘Tudo na Divindade é Um, e a respeito disso não há o que dizer’, e nos estimula a ‘sermos, portanto, esse Um, para podermos conhecer Deus’.

       Para sermos esse Um precisamos abandonar o dualismo, como sugere o Evangelho de Tomé: ‘Eles lhe perguntaram: Nós, sendo filhos, entraremos no Reino? E Jesus lhes respondeu: Quando fizerdes de dois um, e quando fizerdes o interior como o exterior, e o superior como o inferior, e quando fizerdes o macho e a fêmea um só, então entrareis no Reino’; e ‘Jesus disse: Eu sou a luz que está acima de todos eles, Eu sou o Todo,... Racha um pedaço de pau, Eu estou ali; ergue a pedra e ali Me encontrarás’.    

       Pedro, nos seus Atos: ‘És meu pai, mãe, irmão, amigo, escravo, administrador; tu és o Todo e tudo está em ti; e tu És, e nada mais é senão tu’.

       Hinduísmo: ‘Assim como o ar, embora uno, assume novas formas no quer que penetre, o Espírito, embora Uno, assume novas formas no que quer que viva. Ele está dentro de tudo e fora de tudo... Há um Soberano, o Espírito que está em todas as coisas, que transmuda Sua forma em muitas. Somente os sábios que O vêem em suas almas conhecem a alegria eterna’; e ‘D’Ele vem toda vida e a mente e os sentidos de toda a vida. D’Ele vem o espaço, a luz, o ar, o fogo e a água, e esta terra que a todos sustenta... uma infinidade de seres vem do Espírito supremo’... ‘Todo este universo é, na verdade, Brahman’...‘Acima do tempo, tudo é Brahaman, Uno e Infinito. Ele está além do norte e do sul, do leste e do oeste, de cima ou de baixo. Para a unidade de Brahaman vai aquele que sabe disso’, isto é, aquele que teve a percepção. (O Velho Testamento diz que em Deus vivemos e respiramos e que Ele está acima e abaixo, à frente e atrás, à direita e à esquerda, dentro e fora de nós).

       Taoísmo: ‘Não há nada que não seja este; não há nada que não seja aquele... Por isso digo que este emana d’aquele; e aquele emana d’este. Eis aí a teoria da interdependência deste e daquele... a vida vem da morte, e vice-versa; a possibilidade vem da impossibilidade, e vice-versa; a afirmação baseia-se na negação, e vice-versa, o certo baseia-se no errado e vice-versa. E, assim, o sábio rejeita todas as distinções (dualismos) e refugia-se no Céu. Isto é aquilo e aquilo é isto. Isto tem seu ‘certo’ e ‘errado’ e, aquilo também tem seu ‘certo’ e ‘errado’ (no entender comum). Existe pois diferença entre isto e aquilo? Quando isto (subjetivo) e aquilo (objetivo) estão ambos sem os seus correlativos (atributos, qualidades), esse é o verdadeiro ‘Eixo do Tao’... as afirmações e negações igualmente se fundem no Um Infinito’... ‘O Sábio, desse modo, apreende a Unidade Original’.

       D.T.Suzuki: ‘As formas de dualismo são ignorantemente forçadas pela própria mente; parecem visões de flores no ar. Porque nos daríamos ao trabalho de pegá-las, se são apenas visões? Quando o dualismo já não prevalece, nem a própria identidade permanece como tal (Percebe-se que somos a divindade). A Verdadeira Mente não é dividida e quando nos pedem uma identificação direta, só podemos dizer: ‘Não dois’ (não-dual)’.

       São Dionísio: ‘Não existe qualquer afirmação ou negação total que se possa fazer em relação àquilo que chamamos Deus’.

       Sutra Lankavatara: ‘A Realidade é o eternamente impensável’.

       A dualidade e os opostos, em suma, são termos de relação e de pensamento, mas não da Realidade. Quase todos nós, entretanto, obscurecemos a Realidade com os termos com que a representamos (ou conceituamos) e, assim, o objetivo dessas tradições mais profundas é nos mostrar a completa impossibilidade de aplicar o raciocínio dualista à Realidade.

       T.R.Murti, budismo: ‘O real está obscurecido pelo véu de nossas emoções, associações e concepções’... ‘O método Madhyamika consiste em livrar nossa mente de todos os conceitos, pensamentos e idéias’ (a meditação produz essa liberdade). ‘Nossa percepção da Realidade é sempre deformada por nossa interpretação (mesmo que esse processo permaneça inconsciente para nós)’.

       Quando olhamos para alguma coisa, uma palavra nesta página, o que realmente vemos não é apenas a palavra, pois o campo visual abrange a palavra, toda a página e, ainda, parte da área circundante. Mas, em geral, lemos a palavra e ignoramos a área circundante, o fundo à sua volta; isto é, inconscientemente ficamos alheios a todo o continuum visual, e desse modo criamos coisas. Inconscientemente, damos atenção para o aspecto do campo visual que nos interessa e ignoramos tudo o mais ao redor.

       William James: ‘Daquilo que é em si mesmo um ‘continuum’ (ininterrupto) indistinguível, formigante, destituído de diferenças, nossos sentidos fazem para nós, atentando para este detalhe e não para aquele, sem o perceber, um mundo cheio de contrastes, de mudanças abruptas, de luz e sombras. Só notamos as sensações que são para nós sinais de coisas (importantes). Mas, o que são coisas? Nada, como veremos abundantemente, senão grupos especiais de qualidades sensíveis que, por acaso, nos interessam e às quais, por nos interessarem, designamos como substantivos e elevamos ao status privilegiado de  independência e dignidade’ (como se fossem coisas).

       Bérgson conhecia essa falsa realidade das coisas pois dizia, ‘o pensamento cria coisas cortando a realidade em pequenas fatias que ele capta com facilidade’. O pensamento não descreve coisas; deforma a realidade para criar coisas e, ao fazê-lo, permite que escape aquilo que é a própria essência do real. Assim, na medida em que imaginamos um mundo de coisas distintas e separadas, estamos interpretando erradamente aquilo que percebemos, e povoamos nosso universo de interpretações equivocadas (interpretamos o que vemos e acreditamos que foi aquilo que percebemos). A Realidade, além de ser vazia da elaboração de conceitos, é também vazia de coisas separadas. Por isso o Absoluto é chamado de o Vazio, o Nada. Mas, não é o nada; é simplesmente a Realidade antes de ser fatiada pelos nossos conceitos. E estamos olhando para esse Vazio, agora, e enchendo-o de coisas pelo nosso raciocínio que interpreta, associa, compara, conceitua e apresenta percepções falsas. (Krishnamurti: ‘Veja tudo como vazio, sem distinções de objetos’).

       Budismo Mahayana: ‘No Vazio, cada coisa simultaneamente inclui todas as outras coisas em perfeita completação, sem qualquer deficiência ou omissão, em todos os momentos. Ver um objeto é ver todos os objetos. Isso quer dizer que uma minúscula partícula, dentro do diminuto mundo de um átomo, contém os objetos e princípios dos universos do passado e do futuro completos e sem omissão’ (Buda, ao deixar a arvore onde obtivera a iluminação, é retratado com um colar de gemas, no qual cada gema reflete a cor e o brilho de todas as outras).

       Ou, como disse Blake (‘Consciência Cósmica’, de Bucke): ‘Ver o mundo num grão de areia, e o Céu numa flor silvestre, prender o Infinito na palma da mão, e a Eternidade numa hora’.        

       O Vazio, no Mahayana, não é uma filosofia, mas uma experiência baseada no ver não-dual; a Realidade é revelada como ‘só-Mente’. No Bramanismo, ‘um sem segundo’. No Cristianismo, ‘não há ninguém que se compare comigo’. Na só-Mente tudo é apenas Mente; é a interpenetração e interdependência de todas as coisas num todo único. E a ciência ocidental, com a mecânica quântica, está caminhando rapidamente para uma visão do universo idêntica a essa.

       Bertalanffy, físico: ‘Afirmamos, como característica da ciência moderna, que o modelo de unidades isoladas revelou-se insuficiente. Daí o aparecimento, em todos os campos da ciência, de noções como totalidade, organísmico, holismo, gestalt etc., o que significa, em última análise, que precisamos pensar em termos de sistemas de elementos em mútua interação’ (que agem entre si, todos interdependentes).

       E Scott afirma que o único enfoque significativo da ciência moderna é o estudo da ‘organização como sistema de variáveis interdependentes’. A ‘interação mútua’ e a ‘dependência mútua’ nada mais são do que a doutrina do Budismo Mahayana da interpenetração mútua. Recorde-se o exemplo de ler-se uma palavra (figura) nesta página (pano de fundo). A figura é diferente do fundo mas, sem o fundo, nunca veríamos a figura. Figura e fundo são diferentes mas não-separáveis, expressando unidade na diversidade; há, entre elas, ‘dependência mútua’.

       Whitehead, filósofo da ciência moderna: ‘A unidade de todas as coisas envolve alguma doutrina de interdependência mútua... significa que cada fenômeno concorre para a existência de todos os outros fenômenos... nós estamos no mundo e o mundo está em nós’. (Jesus: ‘Eu estou no Pai e o Pai está em mim.’).

       Joseph Needham: ‘A visão do Budismo Mahayana depende de uma linha de pensamento completamente diferente (da visão ocidental de um universo governado externamente por um Criador). A cooperação harmoniosa de todos os seres não surgiu das ordens de um ser superior (Deus) externo a eles mesmos, mas do fato de serem todos eles partes de uma hierarquia de totalidades interdependentes que formam um modelo cósmico e obedecem a imposições internas de sua própria natureza. A ciência moderna e a filosofia do organismo, com seus níveis que se interligam e se completam uns aos outros, voltaram a essa sabedoria, fortalecida pela compreensão da evolução cósmica, biológica e social’.

       O Budismo Yogacara destaca o papel do dualismo sujeito/objeto para criar a ilusão, assim tornando o universo falso para si mesmo.  Todas as tradições sustentam que esse dualismo é a principal fonte de ‘criar dois mundos de um’. A introvisão central do Yogacara é: ‘toda objetivação é ilusão, ou simplesmente, todos os objetos são ilusórios; e todos os objetos são mentais’. O Yogacara afirma que a separação entre mim como sujeito ‘aqui’ (em minha cabeça), e esta página como objeto ‘lá’, é uma tremenda ilusão. Podemos compreender melhor isso com a introvisão de Whitehead de que ‘minha experiência deste momento presente é o que eu sou agora’, isto é, minha ‘experiência do momento’ e o meu ‘eu’ (o conteúdo de minha mente) são duas expressões que indicam a mesma coisa. Para os ocidentais, isso parece estranho porque o conhecimento dual não nos leva a perceber que somos a experiência que estamos tendo neste momento, e sim que estamos tendo uma experiência neste momento. Porém, se não houver nenhuma experiência não há o ‘eu’ (esse o propósito da meditação). Não havendo em meu cérebro memórias, pensamentos, imaginações, percepções, sensações, emoções, não há o sentimento de ‘eu’. ‘Eu’ só existo porque a experiência (os objetos da visão, audição, memória etc.) existe; logo, eu sou minha experiência (conforme Krishnamurti, não tenho medo; sou o medo; não tenho dor; sou a dor; não tenho ódio, sou o ódio). Não há, de início, nenhuma sensação chamada ‘eu’. As sensações visuais, auditivas etc, ou criadas pela imaginação, memória, emoções, é que criam a ilusão de que existe um ‘eu’ dentro de mim, percebendo tais sensações.

       Enquanto leio esta página há somente uma sensação, isto é, a sensação de todo o campo visual tal como existe em meu cérebro. Porém, quando, desse campo visual separo a ‘página’, formando um conceito mental dela, esse conceito parece separado de mim como um objeto lá fora, porque todas as imagens mentais parecem estar desfilando diante de mim como objetos. Embora, num sentido, pareça que essas idéias ou imagens são minhas, eu me sinto separado delas, estou-as observando como objetos lá fora. Mas, não existe uma sensação chamada ‘eu’ que perceba outra sensação chamada ‘página’! Existe só uma sensação que, focalizada subjetivamente, denominamos ‘eu’ e, focalizada objetivamente, denominamos ‘página’. Portanto, ao nos sentirmos separados, estamos sendo vítimas de tremenda ilusão.

       A afirmação de que a sensação ‘eu’ é a mesma sensação chamada ‘página’ nos parece estranha, como se produzida por uma mente desequilibrada. Mas, William James afirma: ‘Se nossa visão particular desta página for considerada separada de qualquer outro fenômeno (de qualquer outra visão, de qualquer outra sensação), como se por si mesma constituísse todo universo (isto é, como se nada mais existisse, além dela), então a página vista e o vê-la serão apenas dois nomes dados a um fato indivisível, a uma mesma experiência ou fenômeno. A página e a área circundante estão na mente e a mente está na página e em torno dela, porque mente (sujeito) e página (objeto) são apenas dois nomes dados à mesma experiência’. Se não houvesse qualquer um deles, não haveria experiência. (Krishnamurti, assim como Benoit, diz que num primeiro momento são a mesma experiência, uma mesma e única sensação, que, num segundo momento, deixam de sê-lo porque o ‘eu’ interfere objetivando e conceituando, comparando e associando).

       Conforme o Yogacara, quando se compreende profundamente que sujeito e objeto são uma coisa só e não duas, desperta-se em nós o ver não-dual e, dessa forma, e só dessa forma, nos é revelada a realidade da só-Mente. Como a Realidade foi perdida pela divisão do universo em sujeito e objeto, somente será reencontrada pela reunião de sujeito e objeto em um.

       Usualmente, quando o mestre de uma tradição instrui o estudante, começa com a abordagem analógica (analogia, semelhança) ensinando que existe uma realidade onipresente, onipotente e onisciente, cujo percebimento trará uma paz insuperável. Isso ajuda o estudante a iniciar sua busca. Porém, ele não chegará a parte alguma, porque está se agarrando apenas a conceitos acerca da Realidade. Nesse ponto, talvez o mestre enfatize outra abordagem, a negativa, explicando que, embora os conceitos acerca da Realidade sejam úteis, a Realidade não é um conceito nem uma idéia, e assim o estudante prosseguirá negando todas as idéias a respeito da Realidade, pois essas idéias, em última análise, não passam de estorvos.

       Coomaraswamy: ‘Resta sempre um último passo, no qual se abandona o ritual e são negados os conceitos relativos da teologia... o que implica na dissolução de todos os valores anteriores’.

       Ramana: ‘Tempo virá em que teremos de esquecer tudo o que já tivermos aprendido’. Isso, talvez, seja semelhante ao que Jesus disse: ‘Em verdade vos digo, a menos que um grão de trigo caia ao chão e morra, ele permanecerá só; mas, se morrer, produzirá muitos frutos’, e a Nuvem do desconhecimento diz ‘esquecendo, esquecendo’.

       Lao Tzu: ‘O aprender consiste em acrescentar (conhecimento, como diz Krishnamurti) dia após dia; a prática do Tao consiste em subtrair (conhecimento) dia após dia’. E, aqui, a essência do Zen Budismo numa única palavra: ‘Esvazia-te!’.

       Para esvaziar-se, ao estudante é dada uma série de instruções que, se ele as realizar corretamente, o farão experimentar a Realidade como ela é, e não como se diz que ela é. Todas as tradições desenvolveram experimentos com os quais é possível essa experiência. São exercícios mentais nos quais todas as idéias, afirmativas ou negativas, elevadas ou baixas, maldosas ou boas são deixadas de lado por algum tempo (é o que a meditação faz) a fim de se experimentar diretamente a Realidade. Em resumo, nossa idéia comum do mundo como um complexo de coisas estendidas no espaço e sucedendo-se umas às outras no tempo, não é mais do que um mapa simbólico, apenas uma representação da Realidade - não é a Realidade. Nossas idéias e imagens convencionais, simbólicas, dualísticas, deturpam a Realidade que elas procuram explicar.

       Perdido nesse mapa dualístico, o homem não sabe o que é o mundo em sua realidade. Mas, se foi pela divisão em sujeito e objeto, em observador e coisa observada, que o universo se fez diferente e falso para si mesmo, será pela compreensão de que, como disse Schroedinger, ‘sujeito e objeto são apenas um’ que nascerá a compreensão do mundo real; e só essa compreensão pode ser chamada de verdade absoluta. A realidade não pode ser definida, porque todos os símbolos só têm sentido em função dos seus opostos (pela comparação), ao passo que o mundo real não tem qualquer oposto. Por isso é chamado o Vazio, o Nada, o que quer dizer que quaisquer pensamentos ou afirmações a seu respeito são vazios e sem valor; vazio de coisas separadas, visto que coisas são produto do nosso pensamento e não da realidade.

       Mesmo que nada se possa dizer a respeito da Realidade, ela pode ser experimentada. Mas, como nossas idéias e suposições a seu respeito obscurecem essa experiência, porque se baseiam na divisão entre o sujeito que conhece e os objetos ou conceitos que são conhecidos, todas as tradições declaram energicamente que só se pode experimentar a Realidade pela visão não-dual, visão que afasta todos os pensamentos e associações (o que se consegue pela meditação), e assim destrói a ilusão que nos oculta o universo. Isso significa que a “Realidade e a percepção (pura, sem associações) que dela temos são uma só coisa” (o que R.Blyth chamou de ‘a experiência do universo pelo universo’). Essa percepção só é obtida pelo modo não-dual de conhecer, que nos leva a perceber que o universo experimenta a si mesmo (Nós somos os olhos do universo olhando o universo). E, como já vimos acima, esse modo de conhecer corresponde a um estado ou nível de consciência, que denominamos ‘só-Mente’, e já que conhecer a Realidade é ser a Realidade, podemos resumir a essência dessas tradições numa frase: ‘a Realidade é a só-Mente’, ou ‘a Realidade é o mais completo nível de consciência’, isto é, a Realidade é a Consciência pura (é aquilo que chamamos de Deus).

       E esse nível não está longe de nós, nem é difícil de descobrir. Está bem próximo e sempre presente, pois a Mente, nem mais nem menos, é aquilo que, neste momento, está lendo estas linhas. O ‘eu’ é uma ilusão causada pelas sensações produzidas pela visão, audição, tato etc. com as quais nossos sentidos objetivos percebem o mundo. Inexistindo sensações, não há o ‘eu’ e ‘o universo percebe o universo’ (Krishnamurti: ‘quando o eu cessa, Deus é’; e o Velho Testamento: ‘Aquieta-te e sabe: Eu sou Deus’. Tudo isto significa: meditação).

 

      4. ETERNIDADE E INFINITO

      A Realidade é um nível de consciência. Por ser livre de conceitos, pode ser descrita, parcialmente, em qualquer um dos modos, analógico ou negativo, mas não pode ser descrita inteiramente por nenhum deles. Assim, os conceitos de Tao, de Divindade, de Vazio são tentativas de descrever a Realidade como ela é, a Realidade sem-nome, sem conceitos (as crenças lhe dão o nome de Deus), como é experimentada em sua pureza depois que as portas da percepção estiverem limpas de todas as ‘invenções’ intelectuais acrescentadas pelo homem, devido aos dualismos.

       Nós sempre achamos que os objetos, esta página, por exemplo, não têm consciência; que a consciência é própria do eu-sujeito que tem consciência desta página-objeto Esta compreensão é totalmente dualística. Como a consciência é a Realidade não-dual, é mais exato encará-la, não como sujeito em relação ao objeto, mas como a Subjetividade Absoluta, acima do dualismo sujeito-objeto. Assim, a consciência não é própria nem do sujeito nem do objeto, mas abrange os dois. Deste modo, a Realidade é a Subjetividade Absoluta, o Sujeito Absoluto, o Eu, ou aquilo a que denominamos Deus.

       Berdyaev, teólogo cristão: ‘O espírito nunca é um objeto, nem a realidade espiritual é uma realidade objetiva. Daí a facilidade com que se nega a realidade do espírito. Deus é espírito porque não é objeto, porque é sujeito. Na objetivação não há realidades, apenas símbolos. O Sujeito Absoluto é real, ao passo que tudo mais, o mundo e toda diversidade são simbólicos. Não existe no objeto realidade alguma; apenas o símbolo da realidade. Só o sujeito é Real’.

       A Subjetividade Absoluta está além do eu-sujeito. Chamamos o ‘eu’ de sujeito porque supomos que quem vê, ouve e sente é o sujeito que está naquilo que parece ser na direção para dentro de nós. Mas, assim que alcançamos esse centro, percebemos que ele não contém qualquer dualismo, nem de sujeito e objeto, nem de interior e exterior, nenhum, e que ele é o centro do próprio Deus (é ali que Deus é percebido).

       Berdyaev: ‘Nos (nossos) mais profundos abismos, vem-nos a revelação de que a nossa experiência está contida nas profundezas da própria vida Divina. Mas aí reina silêncio, pois nenhuma linguagem ou conceito humano pode expressar essa experiência. Esse é o reino da espiritualidade livre e pura. Deste lado existem o dualismo, o conflito, a tragédia, o diálogo entre o homem e Deus, o mundo da diversidade, mas somente se pode alcançar o Divino do outro lado, penetrando nas profundezas da nossa personalidade’ (na direção do eu).  

       Por isso atribuímos a Deus o sentido de profundeza, que é exatamente a Subjetividade Absoluta dentro de cada um de nós, não identificada nem como sujeito nem como objeto, mas que inclui a ambos.

       Ramana: ‘O Eu, a pura Consciência, tem conhecimento de tudo, é o Vedor Final. Tudo o mais: ego, mente, corpo etc. são simplesmente seus objetos; cada um deles é um objeto exteriorizado e não pode ser o verdadeiro Vedor. O Eu não pode ser objetivado, nem ser conhecido por qualquer outra coisa, e já que o Eu é o Vedor que vê tudo o mais, a relação sujeito-objeto, a aparente subjetividade do eu, só existe no plano da relatividade, no espaço-tempo, e se desvanece no Absoluto. Não há outro senão o Eu’ (nada mais além de Deus).

       Este ponto é muito importante, pois mostra a razão de nossa eterna geração de dualismos. Todo indivíduo sente habitualmente que seu ‘eu’ é o sujeito de suas experiências, sentimentos, pensamentos; que é seu eu quem percebe e reage ao mundo externo; que seu eu está agora lendo estas linhas. E diz: ‘Estou consciente do meu eu lendo’. Mas o fato de que alguma coisa em mim pode perceber meu eu subjetivo lendo, isto é, de que existe em mim, neste exato momento, uma consciência de que meu eu está lendo estas linhas, mostra-me, com clareza, que meu eu é apenas outro objeto da percepção! (pois está sendo percebido). Não é, absolutamente, um sujeito real, porque é percebido como objeto. Mas, o que é que existe em mim que percebe meu eu lendo estas linhas? Não podemos dizer que é apenas outro eu, pois, nesse caso, quem é que percebe esse outro eu, pois que ele também está sendo percebido?

       Quem é em mim que olha, vê, ouve, pensa? Não pode ser o meu eu que está olhando, pois este pode ser percebido e Huang Pó, o maior dos mestres Zen, afirmou: ‘O percebido não pode perceber’. Isto é, se pode ser percebido, o meu eu não pode ser quem está percebendo. Então, o que é que em mim está percebendo? 

       Bassui, Zen: ‘Meu corpo é como um fantasma, como bolhas na água. Minha mente, olhando para dentro de si mesma, é tão sem forma quanto o vasto espaço vazio; no entanto, em algum lugar, lá dentro, são ouvidos sons. Quem está ouvindo? Para perceber esse sujeito precisamos sondar profundamente nosso interior, indagando: ‘Quem é que pensa em termos de bom e de mau, que vê, que ouve?’. Se nos interrogarmos séria e profundamente dessa maneira, sem dúvida nos iluminaremos e, instantaneamente, seremos um Buddha. A Mente que os Buddhas percebem em sua iluminação é a mente de todos os seres sencientes. Essa mente, como o espaço, é oniabrangente. Não começa a existir com a criação de nosso corpo, nem termina com sua morte. Conquanto invisível, espalha-se pelo corpo, e cada ato ‘nosso’ de ver, ouvir, cheirar, falar, respirar, pensar ou mover as mãos e as pernas é simplesmente atividade dessa Mente’ (Como disse Paulo, ‘É o Senhor que opera em nos o pensar e o fazer’).         

       Shankara: ‘Vou falar da natureza da Testemunha Absoluta. Se vocês a conhecerem, estarão livres da ignorância e atingirão a iluminação. Há uma Realidade que existe por si mesma; é a base e a testemunha dos estados de consciência do ego e do corpo. É a testemunha na vigília, no sonho e no sono sem sonhos. Percebe a presença e a ausência da mente e de suas funções. Em razão de sua presença, o corpo, os sentidos, a mente, o intelecto executam suas respectivas funções, obedecendo-lhe o comando. Sua natureza é Mente Eterna. Esse é o verdadeiro Eu, o Ser Supremo. Aquele que o percebe nunca deixa de sentir alegria infinita’. (Pascal: ‘Alegria, alegria, lágrimas de alegria!’)

       A Subjetividade Absoluta está unida a seus objetos de percepção. Mas nós, erradamente, confundimos nosso eu com o Sujeito real por nos acreditarmos separados dos objetos externos devido ao modo dualístico de conhecer. Esse é o resultado psicológico de todos os dualismos e essa é a raiz de todas as ilusões, males e sofrimentos do mundo.

       A Subjetividade Absoluta não pode ser pensada porque ela é quem está pensando; não pode ser olhada porque ela é quem está olhando; não pode ser conhecida porque ela é quem está conhecendo.

       Shankara: ‘É possível um conhecimento distinto e definido em relação a tudo o que pode tornar-se objeto de conhecimento; mas não é possível no caso daquele que não pode ser objeto de conhecimento. Tal é Brahman, porque ele é o Conhecedor, e o Conhecedor pode conhecer todas as coisas, mas não pode fazer-se objeto de seu próprio conhecimento, do mesmo modo que o fogo pode queimar todas as coisas mas não pode queimar-se a si mesmo. Também não se pode dizer que Brahman é capaz de tornar-se objeto de conhecimento de qualquer coisa que não seja Ele mesmo pois, fora de Si mesmo, nada existe’ (o eu-sujeito, individual, é ilusão; o nosso verdadeiro eu é a Divindade).

       Se quisermos conhecer a Realidade como objeto ela, aparentemente, mas não realmente, divide-se em duas, num conhecedor e num conhecido. Quando fazemos conceitos acerca do universo, estamos, aparentemente, tornando-o objeto; quando já não confundimos os conceitos com o próprio universo, este já não aparece como objeto, e é despertada a percepção da Realidade (o satori).

       Berdayev: ‘No objeto nunca há realidade, apenas o símbolo da realidade’.

       Huang Po: ‘Nossa natureza original de Buddha é destituída de qualquer traço de objetividade’, e isso ficará evidente ‘se nos livrarmos da conceituação’.   E, diz o Despertar da Fé: ‘a ignorância e a ilusão ocorrem quando, de repente, surge a conceituação’. E é verdade que, depois de termos compreendido que sujeito e objeto não são dois, mas um só, poderemos voltar à conceituação, pois já não seremos enganados pelos dualismos.       

       (Aquilo em nós que vê, ouve, tem e exercita a vontade e o fazer e o querer, é Deus em nós. E a Bíblia afirma: ‘O Senhor é quem opera em nós o pensar, o querer e o fazer’, ou melhor, aquilo em nós que está realizando o ato de ler esta página é a própria Divindade; somos os olhos com que Deus vê o universo).

       Ao pensar no infinito geralmente imaginamos que está além do finito, o que prontamente tira do infinito sua natureza absoluta e infinita, pois, sendo oniabrangente, o infinito não tem oposto e não está separado de nada, pois é sem limites. Para pensarmos no infinito, temos de usar metáforas, e os conceitos de sem-tamanho, sem-dimensão ou sem-espaço são os mais próximos a que nossa imaginação pode chegar. Assim, o Infinito ‘sem espaço’, em sua totalidade, está presente em cada ponto particular do espaço e, portanto, para o Infinito, cada ponto do espaço é AQUI (pois o infinito está exatamente ali naquele ponto do espaço; para ele nada é lá nem ali; TUDO é AQUI. Se eu fosse infinito, como chamo de ‘aqui’ o lugar onde estou, se estou em todos os lugares no mesmo instante, todos os lugares são ‘aqui’ para mim. O infinito é todos os lugares).

       Nagarjuna: ‘O absoluto (infinito, atemporal) não é uma totalidade colocada frente a outra (o finito, o temporal). O absoluto, encoberto pelas formas de pensamento (verbo, logos), é fenômeno. O fenômeno, livre das formas de pensamento superpostas, é o absoluto. Portanto, não há nenhuma diferença entre o mundo e a Realidade” (a diferença está na colocação de formas de pensamento, na nossa interpretação, portanto. Pela meditação é possível fazer cessar o pensamento e a Realidade se mostra em toda sua pureza).

       Hsin Ming: ‘Quando não antagonizas os sentidos (isto é, não interferes no que os sentidos percebem), isso é igual à iluminação completa’. Portanto, as tradições orientais não evitam o conhecimento dado pelos sentidos; evitam, sim, o conhecimento dado pelos sentidos quando contaminado pela conceituação (a interferência no que os sentidos percebem é a interpretação feita pelo ‘eu’, com suas lembranças, emoções, expectativas, associações, crenças, suposições etc.).

       Não confundir o que estamos dizendo com o panteísmo, sistema filosófico segundo o qual todas as coisas são Deus. Primeiro, coisas não existem. Segundo, isto não é uma filosofia, mas um nível de consciência. Terceiro, o infinito e o finito não podem ser opostos porque isso levaria o infinito para o mesmo nível do finito, pois o que pode ser separado de seres finitos é finito também.

       Rollo May: ‘Deus não é um ser ao lado de outros seres. Dizer que ele é um ser acima ou abaixo dos outros faz dele um ser separado dos outros seres, um ser maior que colocamos no universo. Se ele é uma coisa, outras coisas no universo hão de estar fora de seu controle, e ele estará sujeito à estrutura (do cosmo) como um todo. Abre-se, assim, um vespeiro de problemas absurdos.’

       Ao falar do infinito sem-espaço, é bom lembrar que o espaço que lhe falta é, essencialmente, o espaço entre sujeito e objeto, entre nós e esta página, entre nós e os objetos da nossa percepção (não esquecer que espaço é ilusão). É esse espaço que parece nos colocar como sujeito ‘aqui dentro de mim’ separado do resto do universo como objeto ‘lá fora’; mas esse espaço é pura ilusão. Parece real porque estamos convencidos de que nosso eu subjetivo é real e que está separado dos objetos que percebe à sua volta. Mas não existe espaço para o infinito pois, para ele, todo lugar é aqui; assim, não existe espaço entre o observador e a coisa observada; o infinito está, também, entre um e outro; logo o infinito é um, é o outro e é o espaço entre eles. O Vedor está aqui, está ali, está entre aqui e ali. Como pode haver espaço entre aqui e ali, entre observador e coisa observada, se todo lugar é aqui?

        Nosso eu subjetivo não é, absolutamente, um eu real, um sujeito real, nem um observador real. O ‘eu’ é simplesmente um complexo de objetos percebíveis (e guardados na memória) com os quais, por alguma estranha razão, nós nos identificamos (a física quântica explica). E, se formos para dentro de nós mesmos a fim de encontrar quem realmente está percebendo, o que encontraremos?

       David Hume: ‘Quando entro intimamente naquilo que chamo eu mesmo, sempre encontro uma ou outra percepção particular de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer. Nunca me deparo sem uma percepção, e nunca posso observar coisa alguma além da percepção’ (só encontra ali objetos, objetividade, percepções; a coisa procurada, o ‘eu’, não é encontrada porque não está ali, não existe; e aquilo que existe está além da capacidade de percepção do cérebro, é o próprio Percebedor, é o Eu Real (Deus) que é inobservável, que observa tudo e está em tudo, o infinito).

       ‘Toda vez que procuro o meu verdadeiro eu, tudo o que percebo são objetos de minha percepção’. Isto é a mais segura demonstração de que o espaço entre sujeito e objeto está ausente na Subjetividade Absoluta pois, para esta, todo lugar é Aqui e não pode haver espaço entre Aqui e Aqui, isto é, ali só há objetos de percepção; mas a Subjetividade Absoluta, que está percebendo, é quem está ali onde eu supunha estar meu eu, mas ‘o percebedor não pode ser percebido’.

       Ramana: ‘A idéia de que o observador é diferente do observado está na mente. Para aqueles que estão na Subjetividade Absoluta, o observador é o observado’. Em suma, a Subjetividade Absoluta se acha em comunhão (pois é o próprio)  com seu universo de conhecimento, de modo que nós somos aquilo que observamos (Krishnamurti: ‘o observador é a coisa observada’).

       Assim, a divisão, ou o espaço, entre o sujeito, aqui dentro, e o objeto lá fora é apenas ilusão. O verdadeiro Eu não conhece (não vê) o universo à distância; conhece o universo por ser ele o próprio universo, sem qualquer vestígio de espaço entre o Eu-Vedor e o Eu-Visto. E o que é sem espaço é infinito.

       O tempo é para a Eternidade o que o espaço é para o Infinito, isto é, assim como o Infinito está, em sua totalidade, presente em cada ponto do espaço, a Eternidade está, em sua totalidade, presente em cada momento do tempo. Então, do ponto de vista do Infinito, todo lugar é AQUI e, do ponto de vista da Eternidade, todo o tempo é AGORA.  E, como todo o tempo é agora, disso se conclui que passado e futuro são ilusões e que a única realidade é o Momento presente.

       Hume: ‘O momento-agora em que Deus criou o primeiro homem e o momento-agora em que o último homem haverá de desaparecer, e o momento-agora em que leio isto, são todos um em Deus, no qual só existe Agora. A pessoa que vive na luz de Deus não tem consciência do tempo passado, nem do tempo futuro, mas só da eternidade’.

       Não importa se a um milhão de anos atrás ou a um segundo atrás; para a Eternidade qualquer instante é AGORA; portanto não há ontem nem amanhã, nem antes nem depois, nem passado nem futuro e, em conseqüência, nem causa nem efeito; há somente o Momento presente (o resto é ilusão).

      Meister Eckhart: ‘Um dia, seja ele seis dias atrás ou seis mil anos atrás, está tão próximo do presente quanto ontem. Todo o tempo está contido no Momento atual’. Como denomino o momento presente, o tempo em que estou, de ‘agora’, se estou em todos os momentos, todos são ‘agora’, e a Eternidade é todos os momentos. Por isso Jesus disse: ‘Antes que Abraão fosse, eu sou’.

       Plotino: ‘Existe apenas um dia. A série não tem lugar; nem ontem, nem amanhã’.

       Ramana: ‘Fora de nós, onde está o tempo e onde está o espaço? Se somos corpos, estamos envolvidos no tempo e no espaço, mas será que o somos? Somos uma só e idêntica Mente neste Agora, para sempre, aqui, ali e em toda parte. Por conseguinte, nós, seres sem tempo e sem espaço, estamos sós. O que digo é que o Eu está aqui e agora, e só’.

       No Budismo, a meta de todas as práticas é o ‘despertar’. Buddha significa ‘o Desperto para o Presente Eterno’. Assim, Huang Po diz: ‘O tempo sem princípio e o momento presente são o mesmo’. E o budismo declara que a Realidade é ‘a morada dos que são capazes de perceber os bilhões de anos que estão no momento, percebendo nesse momento todo o passado, o presente e o futuro’. E, em O Despertar da Fé: ‘A percepção de que a Mente é Eterna se chama Iluminação’. O trabalho dos mestres Zen é despertar os alunos para essa compreensão.

       Zen: ‘A realidade final reside bem no centro da existência diária’. Para agarrar esse momento, o Zen se vale da ação direta e imediata, pois só essa ação espontânea não conhece passado nem futuro.  No Sufismo, um verdadeiro sufi se chama ‘filho do Momento; ele não é do tempo; o passado, o futuro, o tempo sem começo e sem fim não existem’. Isso muito se parece com a recomendação de Jesus: ‘Não te preocupes com o dia de amanhã; a cada dia basta seu cuidado.’ E Krishnamurti afirma que a compreensão é agora, nunca depois.

       Mesmo os modernos físicos quânticos abandonaram para sempre a noção clássica de tempo e a substituíram pelo Aqui-Agora absolutos.

       Schroedinger: ‘Aventuro-me a chamar a Mente de indestrutível, pois ela tem uma escala peculiar, isto é, a Mente é sempre Agora. O presente é a única coisa que não tem fim. Afirmo que a moderna física sugere, de maneira vigorosa, a indestrutibilidade da Mente pelo tempo’.   

       A Mente não pode ser destruída pelo tempo porque, conforme Parmênides: ‘Nunca foi, nem será, pois Agora é, tudo ao mesmo tempo’, e esse Agora, no dizer de Dante, é ‘o Momento em que todos os tempos estão presentes’ (os iluminados compreenderão).

       A teoria da relatividade de Einstein e a física quântica trouxeram uma nova revelação: espaço, tempo e objetos, em certo sentido, são um continuum. O espaço não é um nada vazio e sem características, mas é aquilo que encerra os objetos. Logo, o espaço não existe sem objetos, visto que, por definição, é o que os contém. Por outro lado, os objetos precisam estar encerrados no espaço, ter um limite, senão o que os conteria? Nesse sentido, portanto, espaço e objetos são um. E mais: os objetos para existirem precisam ter duração no tempo; logo o tempo é necessário à sua existência. Daí que espaço, tempo e objetos são mutuamente dependentes e inseparáveis, um continuum. Se um deles não é real, os demais também não são. Sem espaço não há objetos, sem tempo não há objetos e, como tempo e espaço são ilusórios, os objetos também são ilusórios.            

       Aristóteles: ‘Se o antes e o depois estão no mesmo Agora, então aquilo que ocorreu há dez mil anos é simultâneo com o que ocorre agora, e nada seria antes ou depois de qualquer outra coisa (talvez, isso explique o que a física quântica tem afirmado: ‘há efeitos que antecedem suas causas’). Assim, tudo estaria em qualquer coisa, e o universo num grão de painço’. Comentando esse trecho, Coomaraswamy diz: ‘Se o grão de painço e o universo não são considerados em sua extensão (no espaço-tempo), mas no que se refere à sua essência comum e imutável no Agora absoluto, pode-se dizer que o universo está contido num grão de painço, assim como um grão de painço contém o universo’.

       A afirmativa de que o mundo real ‘tem a totalidade da sua existência simultaneamente’ faz-nos ver que nossa razão é incompetente para compreender a Realidade. O pensamento é unidimensional, seqüencial e sucessivo, enquanto o mundo real é multidimensional, simultâneo, e não-sucessivo, de riqueza e variedade infinitas. Fazer com que a razão compreenda isso é quase impossível (só é possível pela meditação).

       Não esquecer que as coisas que compõem o universo não são reais, mas produtos do pensamento. Isto é, uma coisa é apenas um fragmento limitado produzido pela atenção seletiva (com seleção, escolha). Para William James, uma coisa é o produto de reparar nisto e ignorar aquilo. Tais fragmentos de atenção seletiva são então representados por conceitos, palavras substantivas ou outros símbolos e, após, elevados à condição de coisas reais como se fossem independentes e existentes por si mesmas.

       E, pelo fato de reduzirmos habitualmente nossa atenção para fragmentos limitados do extenso campo visual da nossa percepção, é que o pensamento nos apresenta a ilusão convincente de que o mundo é um múltiplo de coisas lá fora separadas e independentes. Como nos é impossível pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, o pensamento arruma, com ajuda da memória, esses pedaços de atenção seletiva ao longo de uma linha que ele cria com esse propósito, sobre a qual ele estende seus conceitos-objetos, linha que nada mais é que o tempo. Assim, tempo é a maneira sucessiva usada pelo pensamento para encarar o mundo. E, como nos acostumamos a crer nesse modo sucessivo, temporal e linear, acreditamos que a própria natureza segue numa linha, do passado para o futuro, da causa para o efeito, do antes para o depois, ignorando totalmente que a suposta linearidade da natureza é, toda ela, produto da maneira como a interpretamos; ilusão, portanto.

       A natureza, contudo, não segue numa linha, pois tudo acontece simultaneamente. Os fenômenos não precedem nem se sucedem uns aos outros no tempo - estão todos acontecendo em toda parte ao mesmo tempo. Dizer que a natureza não segue uma linha é o mesmo que dizer que a natureza não segue no tempo, que ela tem toda sua existência simultaneamente neste momento, e essa é a natureza da Realidade. Na verdade, toda a noção de uma coisa que sucede outra coisa no tempo, depende diretamente dos nossos processos de memória, pois, sem memória, não teríamos nenhuma idéia do tempo, nem passado, nem futuro. Imaginamos que a memória nos informa acerca de um passado real. Pensamos que podemos conhecer não só os fragmentos de atenção seletiva atuais, mas também os fragmentos passados, guardados na memória. Daí concluímos que deve ter havido um passado e, assim, geramos um sentido muito forte de tempo e imaginamos estar-nos movendo, do passado para o futuro. Entretanto, entrou nesse raciocínio uma ilusão sutil, anunciada por S. Agostinho e confirmada, hoje, pelos físicos quânticos: nunca podemos perceber o passado real. Apenas temos uma imagem-memória do passado, e essa imagem-memória existe apenas no presente e como presente! 

       Allan Watts: ‘Por me lembrar, posso conhecer o que é o passado? Lembro-me de ter visto um amigo na rua. Não estou observando o verdadeiro fato. Não posso apertar-lhe a mão, nem obter resposta a uma pergunta que me esqueci de lhe fazer nesse passado de que estou me lembrando. Em outras palavras, não estou olhando, de forma alguma, para o passado real. Estou olhando para uma lembrança presente e dela concluo que houve acontecimentos passados. Mas não percebo nenhum acontecimento passado. Só conheço o passado no presente e como parte do presente’ (como memória).  

       Assim, ao me lembrar de qualquer acontecimento passado, não estou, de fato, me lembrando de alguma coisa real. Estou me lembrando apenas de imagens do passado, e essas imagens só existem como experiência no presente. Também, qualquer pensamento sobre o futuro é um pensamento no presente. Por conseguinte, o único tempo de que, realmente, temos consciência é o Agora. Por isso Schroedinger afirmou: ‘Mente é sempre agora. Não existe para a Mente nenhum antes e nenhum depois. Existe apenas o agora, que inclui lembranças (do passado) e expectativas (acerca do futuro)’.

       S. Agostinho: ‘O passado e o futuro só podem ser pensados como presente: o passado identifica-se com a memória e o futuro com a expectativa, sendo tanto memória quanto expectativa fatos presentes’. O momento presente contém todo o tempo e é, portanto, sem fim, e este presente sem fim é a própria Eternidade.                             

       Coomaraswamy: ‘A natureza da Divindade é a do agora eterno, do qual nós, que só podemos pensar em termos de passado e futuro, não podemos (não conseguimos) ter qualquer experiência’.

       Este momento presente, o agora, que não conhece passado nem futuro, é sem fim, eterno. Assim, a vida eterna pertence àqueles que vivem no presente. À pergunta: ‘Como é que Deus pode conhecer o futuro?’ a resposta é: ‘Porque todos os tempos, aos quais chamamos passado e futuro, existem neste presente eterno’.

       Meister Eckhart: ‘Falar sobre o mundo como tendo sido criado por Deus ontem ou amanhã seria disparatar. Deus cria o mundo e todas as coisas neste presente agora’.

       Suzuki: ‘A criação prossegue continuamente, sem cessar, sem começo nem fim. Não é um acontecimento de ontem, nem de hoje, nem de amanhã; procede do intemporal, do nada, do Vazio Absoluto. A obra de Deus sempre se realiza num presente absoluto’... ‘Em outras palavras, Deus está sempre criando o mundo, agora, neste instante, e é apenas a criaturas do tempo que a criação se apresenta como uma série de eventos, ou evolução’. A criação, agora e sempre, vem do Vazio deste Momento infinito, e não é criação de coisas, de matéria, de substância, mas a criação de dualismos. Assim, se acabarmos com todos os dualismos em nossa mente, o tempo deixa de ser e veremos o mundo como ele é (como assegura, também, Freud).

       Ver o mundo como ele é, experimentar a Subjetividade Absoluta, conhecê-la como Infinita e Eterna, não é só uma questão de abolir o dualismo temporal de passado e futuro, nem o espacial de sujeito e objeto. Tentar aboli-los não tem sentido simplesmente porque eles não existem; são apenas ilusões. Assim se, neste instante, atentarmos com todo o cuidado para ver se encontramos o menor vestígio de tempo, não encontraremos. Pois, como disse S. Agostinho, o passado é apenas uma lembrança, e o futuro apenas uma expectativa, sendo ambos fatos presentes. Pensar no passado é um fato presente; antecipar o futuro, também é um fato presente Qualquer evidência do passado só existe no presente, e qualquer razão para acreditar no futuro só existe no presente. Quando aquilo que chamamos passado aconteceu, não era passado e sim presente; e quando o que chamamos futuro acontecer, não será futuro e sim presente.  Assim, o único momento do qual temos consciência é o momento presente, que inclui lembranças e expectativas.

       Este momento, porque contém e abrange todo o tempo, é intemporal. Isso significa que o tempo é apenas uma vasta ilusão e que este momento é a própria Eternidade. Assim, a Eternidade não é um tempo que dura para sempre; é o Presente real, intemporal. Como disse Schroedinger, ‘O presente é a única coisa que não tem fim’ (é a Eternidade e estamos nela).

       E o dualismo de sujeito e objeto é tão ilusório quanto o de passado e futuro. Podemos, uma vez que seja, encontrar um eu-sujeito separado de seu objeto? A sensação denominada eu ‘aqui’ e a sensação denominada objetos ‘lá’ são uma só e a mesma sensação. Não havendo objetos, ou sensações, não há o eu.  Como vimos antes, neste momento somos esta página que se lê a si mesma! É o Todo que lê esta página, que se lê, pois o Todo é também esta página e é, também, nós que a estamos lendo, e é o espaço entre nós e a página. (‘O observador é a coisa observada’). O sujeito, na realidade, nunca se desprende do objeto, nem este daquele; os dois são um só.

       Lembremo-nos do fato indiscutível de que, quando vamos para dentro de nós mesmos para procurar o eu-sujeito, só encontramos objetos de percepção, o que é a mais segura indicação de que o Conhecedor está em comunhão com o universo que conhece. O sujeito ‘aqui’ e o resto do universo como objeto ‘lá’ fora não passam de ilusão, pois o universo nunca se divide em observador e coisa observada; estes estão sempre unidos no processo de ver ou observar.

       Como os dualismos de passado-e-futuro e de sujeito-e-objeto são ilusórios, conclui-se que já estamos vivendo no mundo real, infinito, intemporal e eterno, e que somos esse mundo pois a Consciência e a Realidade são a mesma coisa. Assim sendo, as descrições dualísticas sobre a Realidade são apenas descrições metafóricas de um estado de coisas já existente. Quer o compreendamos, quer não, nosso problema não é promover essa Realidade algum dia, mas tão somente percebê-la como um fato já presente (Krishnamurti e Huxley: o percebimento ou a atenção sem escolha).  

       Em suma, existe dentro de nós Aquele que conhece, a própria Divindade, a Subjetividade Absoluta. Mas essa Subjetividade não é o sujeito separado que nos sentimos ser, pois este é apenas ilusão, porque onde quer que o busquemos só vamos encontrar objetos de percepção. Desse modo, o verdadeiro Sujeito está em nós, está em tudo, está em comunhão com seu universo de conhecimento: tudo quanto observamos não é outra coisa senão nós mesmos, que o (nos) estamos observando.

       Quando penetramos no íntimo de nossa consciência (pela meditação), encontramos, não o falso universo de objetos lá fora, mas o verdadeiro universo não mais dividido em sujeito e objeto. Penetrando em nosso mais profundo interior, caímos fora de nós mesmos e nos transformamos na Realidade.

       Monoimus: ‘E se investigares com cuidado, encontrarás Deus em ti mesmo, um em muitos, descobrindo, dessa maneira, em ti, um modo de saíres de ti’.

       S. Agostinho: ‘Como uma ovelha desgarrada procurei-te em todos os lugares, Senhor e, afinal, fui encontrar-te dentro de mim mesmo’.

       No mundo real, onde o observador é a coisa observada, torna-se evidente que nós e o universo nunca fomos, não somos e nunca seremos separados. ‘Assim’, repetindo Schroedinger, ‘podemos jogar-nos ao solo, estender-nos sobre a Mãe Terra, com a convicção certa de que estamos em comunhão com ela e ela conosco...’. Em outras palavras, o espaço entre nós, como sujeitos observadores aqui, e os objetos observados ali, não existe na Subjetividade Absoluta, no mundo real, e o que não tem espaço é Infinito. Do mesmo modo, o tempo passado e o futuro simplesmente não existem na Subjetividade Absoluta, pois, nesta, só existe o agora, o intemporal, e o que é intemporal é Eterno.

       Resumindo, a Subjetividade Absoluta conhece o universo, não numa seqüência chamada tempo, nem numa distância chamada espaço, mas porque é o próprio universo. Por isso, afirmam os budistas que a Mente é o ‘inatingível’, pois não podemos atingir o que já somos. A vasta maioria, contudo, não percebe isso. Assim, precisamos iniciar uma profunda viagem para nosso interior, para recordar o que somos de fato; uma viagem na qual procuremos acabar com todos os dualismos que ocultam a Identidade Suprema que somos, só para descobrir, afinal, que dualismos nunca existiram (a não ser em nossa ilusão).

 

       5. EVOLUÇÃO DOS NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA

       A evolução do espectro da consciência a partir do Nível da Mente, a infinita e eterna Subjetividade Absoluta, o primeiro nível de consciência, isto é, a partir da geração dos principais dualismos criadores das ilusões que escondem a Realidade é, também, ilusão. Na verdade, só existe a Mente Una, não-dual, oniabrangente, base intemporal dos fenômenos temporais. Na só-Mente, nós nos identificamos com o Todo, somos o Todo. Porém, com o pensamento dualístico, produzimos divisões ilusórias criando dois mundos de um. Embora essas divisões sejam irreais, o homem se comporta, sempre, como se fossem reais. Agarra-se ao primeiro dualismo, de sujeito e objeto, eu e não-eu, organismo e meio ambiente e transfere-se, da identidade com o Todo, para uma identidade pessoal com o organismo, e desse modo é gerado o segundo nível de consciência, o Nível Existencial, onde o homem existe identificado apenas com seu organismo total (mente e corpo).

       E continua a divisão do homem através de dualismos, de tal modo que a maioria não se identifica nem com o organismo total. Não dizemos ‘eu sou um corpo’, mas ‘eu tenho um corpo’; e a esse eu que tem um corpo chamamos ‘meu eu’. A identidade se transfere do organismo para o ego e gera-se o terceiro nível de consciência, o Nível do Ego, no qual há um eu e há um corpo, mente e soma (um eu separado do corpo).

       Aí, o homem chega a repudiar certas facetas do ego, recusando-se a admitir, em sua consciência, aspectos de si mesmo que não lhe agradam. E a identidade se reduz ainda mais, transferindo-se para as facetas restantes do ego, e gerando o nível seguinte do espectro, o Nível da Sombra (a Persona é o que resta do ego quando este projeta sua Sombra, isto é, as facetas repudiadas do ego).

       Cada nível representa a aparente identificação da Subjetividade Absoluta (nós) com um grupo de objetos como se estes estivessem contra todos os outros, e, em cada novo nível, a identificação se torna mais estreita e exclusiva. Este é um estudo daquilo a que hindus e budistas chamam maya, estudo das distinções sobrepostas à Realidade. Maya é o poder da Divindade de assumir aparência objetiva e, dessa forma, criar todas as coisas. O mundo de maya (ilusão) é tão somente o mundo da mensuração, dos mapas simbólicos, que, convencionalmente, dividem e medem o universo. É o mundo da matéria, pois as coisas materiais são apenas produto da mensuração e divisão mental. E, como toda divisão é omissão de parte da verdade, o mundo material é um mundo de ilusão. É preciso não confundir o mundo real com o mundo representado pelo espaço, pelo tempo, objetos, limites particulares, universais, individuais ou categorias de qualquer tipo, pela simples razão de que toda mensuração é produto do pensamento; não é a realidade. Na Realidade, o mundo não se compõe de coisas separadas, estendidas no espaço e se sucedendo no tempo. Isto só acontece quando vemos através da ilusão de maya. 

       Ora, não podemos dar uma razão do surgimento de maya, pois a própria razão, por estar dentro de maya, não pode explicá-la. Pela concepção do misticismo, as ações da Divindade são sem propósito ou objetivo, esforço ou vontade, motivo ou desejo, causa ou efeito - pois tudo isso supõe um alvo futuro e a Divindade não conhece passado nem futuro, mas apenas o Eterno Presente. O que devemos fazer é conhecer o mundo de maya para que, compreendendo o engano em que caímos, dele fiquemos livres e despertemos da ilusão.

       Spencer Brown: ‘O universo começa a existir quando se corta ou se tira um espaço’. É esse ato original de divisão que cria o universo de fenômenos: cortamos um espaço, criamos dois mundos a partir de um, e caímos diretamente num mundo de aparências (de ilusões). É o dualismo primário, a separação do observador da coisa observada; separação entre finito e infinito; teologicamente, é o que as religiões chamam de pecado original (a passagem bíblica de comer da fruta da árvore do conhecimento), a ilusória divisão entre sujeito e objeto. O verdadeiro território permanece escondido; dele só ficamos com representações simbólicas, dualísticas’. ‘Por nenhuma razão aparente, pois a própria razão não existe aqui, ocorre um dualismo; daí se seguem outras cortadas do vazio’. Cada faixa cortada é uma faixa diferente do Espectro (partindo do Nível da Mente, que é o todo, para o Nível Existencial, o Nível do Ego, o Nível da Sombra etc).

       Do Despertar da Fé: ‘A Mente, conquanto pura e imutável, é seguida pela ignorância. Quando o mundo Real ainda não é compreendido, a Mente parece mutável e sem perfeita unidade. De repente, surge um pensamento: a isso se chama ignorância’. Lembrar que, em Gênese 1:4, o Logos ‘fez separação entre a luz e as trevas’, ‘águas e terras, dia e noite’. Também em Provérbios 8:27, vemos que ‘quando ele preparava os céus, aí estava eu, quando ele colocou um compasso sobre a face do abismo’. Separação e compasso mostram a divisão e a mensuração, o desmembramento pelo qual o Todo, em toda criação, ‘se divide indivisivelmente’. Isso é maya, da mesma raiz das palavras m

Exibições: 3

Responder esta

Seja um apoiador de Anjo de Luz

Para mantermos os sites de Anjo de Luz, precisamos de ajuda financeira. Para nos apoiar é só clicar!
Ao fazer sua doação você expressa sua gratidão pelo serviço!

CHEQUES DA ABUNDÂNCIA

NA LUA NOVA.

CLIQUE AQUI

 
Visit Ave Luz

 

PUBLICIDADE




Badge

Carregando...

Co-criando A NOVA TERRA

«Que os Santos Seres, cujos discípulos aspiramos ser, nos mostrem a luz que
buscamos e nos dêem a poderosa ajuda
de sua Compaixão e Sabedoria. Existe
um AMOR que transcende a toda compreensão e que mora nos corações
daqueles que vivem no Eterno. Há um
Poder que remove todas as coisas. É Ele que vive e se move em quem o Eu é Uno.
Que esse AMOR esteja conosco e que esse
PODER nos eleve até chegar onde o
Iniciador Único é invocado, até ver o Fulgor de Sua Estrela.
Que o AMOR e a bênção dos Santos Seres
se difunda nos mundos.
PAZ e AMOR a todos os Seres»

A lente que olha para um mundo material vê uma realidade, enquanto a lente que olha através do coração vê uma cena totalmente diferente, ainda que elas estejam olhando para o mesmo mundo. A lente que vocês escolherem determinará como experienciarão a sua realidade.

Oração ao Criador

“Amado Criador, eu invoco a sua sagrada e divina luz para fluir em meu ser e através de todo o meu ser agora. Permita-me aceitar uma vibração mais elevada de sua energia, do que eu experienciei anteriormente; envolva-me com as suas verdadeiras qualidades do amor incondicional, da aceitação e do equilíbrio. Permita-me amar a minha alma e a mim mesmo incondicionalmente, aceitando a verdade que existe em meu interior e ao meu redor. Auxilie-me a alcançar a minha iluminação espiritual a partir de um espaço de paz e de equilíbrio, em todos os momentos, promovendo a clareza em meu coração, mente e realidade.
Encoraje-me através da minha conexão profunda e segura e da energia de fluxo eterno do amor incondicional, do equilíbrio e da aceitação, a amar, aceitar e valorizar  todos os aspectos do Criador a minha volta, enquanto aceito a minha verdadeira jornada e missão na Terra.
Eu peço com intenções puras e verdadeiras que o amor incondicional, a aceitação e o equilíbrio do Criador, vibrem com poder na vibração da energia e na freqüência da Terra, de modo que estas qualidades sagradas possam se tornar as realidades de todos.
Eu peço que todas as energias e hábitos desnecessários, e falsas crenças em meu interior e ao meu redor, assim como na Terra e ao redor dela e de toda a humanidade, sejam agora permitidos a se dissolverem, guiados pela vontade do Criador. Permita que um amor que seja um poderoso curador e conforto para todos, penetre na Terra, na civilização e em meu ser agora. Grato e que assim seja.”

© 2026   Criado por Fada San.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço