Anjo de Luz

Informação é Luz , ajude a propagar

 

 

                     

 

 

 

 

 

Pedro de Souza Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Busca

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTA IMPORTANTE

 

 

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Dedicado às minhas filhas,

 

Andréa

Rosana

  Rosângela

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índice

 

 

 

 

Ao Leitor                                  7

 

Prefácio                                   9

 

Capítulo I                               11

O Incompreensível

 

Capítulo II                              15

A Trilha para o Mar               

 

Capítulo III                             19

O Portal

 

Capítulo IV                              29

A Contestação

 

Capítulo V                                35

As Respostas

 

Capítulo VI                              51

A Energia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AO LEITOR

 

 

Caro leitor(a), esta é uma estória ficcional(?) onde o(a) leitor(a) terá dois caminhos a seguir; ou jogá-la no lixo, de imediato, por considerá-la um non-sense, uma blasfêmia, ou, movido pela curiosidade ou pelo real desejo de conhecê-la, ir até o final. O resultado poderá ser inócuo ou negativo no sentido comum da palavra, se você julgar que foi um tempo perdido em lê-la, ou extremamente útil, se você procurou refleti-la com seriedade e em profundidade.

No início, quando terminei esta estória e passei a relê-la, e comecei a enriquecê-la com alguns outros detalhes, senti que ela poderia tornar-se longa, o que não era a minha intenção para com este livro; mas ao contrário, desejava que a mesma fosse apenas a centelha de um pensamento, e que devia estar contida em poucas páginas, para não cansar o leitor.  Desta forma, o que está aqui, acredito que seja o suficiente para embarcarmos nesta realidade que é toda nossa, e assim passamos a discutir tal assunto em profundidade e com seriedade junto aos nossos semelhantes, sem nenhum receio, mas com toda a naturalidade que o assunto requer.

Quero lembrá-lo(a), antes de tudo, que o assunto na verdade não é um pensamento exclusivo do autor, pois se refletida em profundidade e com o desejo sincero, certamente você irá chegar às mesmas conclusões.

Seja como for, receba as minhas boas vindas a esta Busca interminável.

 

 

O Autor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

 

O autor de mais esta obra, Pedro de Souza Silva, meu amigo Pedro desde os anos 70 quando desempenhava suas atividades no Lloyd’s Register of Shipping, sempre envolvido com os navios que ao mesmo tempo em que lhe davam o sustento eram sua paixão. Apesar de homem da área tecnológica, por sua sensibilidade e inteligência dedicou parte de seu tempo livre ao conhecimento das ciências humanas.

Para quem teve a oportunidade de ler “Caminhos uma Viagem ao Passado” como eu, fez uma grande excursão no tempo, pela vida deste homem. Para mim que já conhecia algumas das passagens ali colocadas, foi um grande prazer ver a maneira clara e rica em detalhes com que este autor narrou os fatos. Com sua habilidade no trato com as palavras e preciso encadeamento de idéias, passou para o leitor entre outras coisas, toda aquela tensão e suspense que viveram ele e sua tripulação, quando comandante do navio Lucio Meira, nos momentos críticos sob uma fortíssima e prolongada tempestade no litoral norte do Brasil.

Em sua trajetória de vida escreveu uma segunda obra “O Homem Só”, outra deliciosa leitura onde mostrou entre outras coisas a problemática de vida das pessoas do interior do Brasil. Pedro, homem de origem humilde, que nasceu em cidade de poucos recursos no Nordeste do Brasil, na época viveu e viu pessoas atravessando momentos de muito sofrimento. Tudo isto ao invés de acabrunhá-lo, foi para ele como se abastecesse de energia para cumprir sua existência na terra, levando-o sim a se preocupar com o lado humanitário e fraternal da vida, isto apesar das lidas e aquisições de conhecimentos profissionais que o mundo técnico lhe cobrou durante os anos.

Nesta sua nova obra que tive prazer de ler em primeira mão, Pedro nos presenteia com suas vivências adquiridas em seu mundo de estudos e experiências ligadas aos seres existentes no universo e suas trajetórias, nós humanos principalmente com nossas angustias e dúvidas durante este curto espaço de tempo que é a nossa existência. O que muito acertadamente conferiu à obra o titulo de “A Busca”. Através da apresentação de fatos o autor nos dá uma grande explanação sobre o existencialismo que gera tantas perguntas para nós humanos. É esclarecedora na medida em que fala da relação do ser com a natureza. Esclarece também quando encara de maneira objetiva a questão do dogmatismo colocado nas religiões e sua relação com o desenvolvimento dos indivíduos.

         Desta obra em seus seis capítulos, além do que foi dito no parágrafo anterior eu saliento que ela mostra o traço característico do escritor Pedro, isto é, a clareza e a riqueza de detalhes sem tornar a leitura cansativa. Destaco os episódios da observação por parte do personagem Amrel da caça a uma mosca selvagem por uma aranha e, de um cão solitário pranteando a morte de seu dono com uivos que se perdiam no espaço infinito. Estes fatos que são aparentemente simples estão perfeitamente encadeados com o contexto da obra que ao mesmo tempo em que é séria, conduz o leitor aos momentos ora de suspense ora agradavelmente relaxantes. O exemplo disto é a fantástica passagem do personagem Amrel da terra de Ankar (de sofrimento) para a terra de Grom (de luz).

         Em seu fechamento com sabedoria, através do diálogo entre os personagens atinge o seu objetivo, que é mostrar o porquê de “A busca”. O que os seres humanos buscam, porque buscam, em que caminhos buscam, para onde levam estes caminhos. Finalmente indica um caminho seguro que leva à paz, à felicidade e realização plena do ser Humano. 

 

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 2004.

Jorge Augusto Salles Pereira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO  I

 

 

O Incompreensível

 

 

A morte do seu irmão mais velho em um acidente aéreo há algum tempo atrás, alteraria por completo o estilo de vida e o bom humor de Amrel.

Era uma manhã de sábado, quando o irmão voltava da salina, em Iupací, a bordo do pequeno Cessna, com o piloto Amiz, já próximo ao pouso em Nurabe, quando, não se soube por qual motivo, a pequena aeronave se chocara de encontro aos cabos de alta tensão da rede elétrica que alimenta a cidade.  Amrel soubera da notícia logo, e partira às pressas com o motorista da firma, para ainda ver os bombeiros tentando resfriar com jatos de água o que restara do material carbonizado do pequeno avião.

Amrel, com um olhar perplexo, fita aquele resto de fogueira, onde mesmo sem acreditar no que via, levado pelo brutal choque emocional, buscava vagamente alguma forma humana por entre as cinzas, que ali já se encontravam numa mistura de corpos humanos, metal e parte dos galhos de uma grande árvore que ainda ardia. A alguns metros de distância dali, salva das chamas, uma parte de uma das asas da aeronave, onde se podia facilmente ler o seu prefixo e, por conseguinte, a identificação da mesma, achava-se ainda com a ponta levemente sulcada na areia fofa da praia, de onde curiosos já iriam retirá-la para levá-la como souvenir, se não fossem impedidos pelos bombeiros ali presentes.

H:\PEDRO\A BUSCA\DESENHOS\Meus documentos\Música Clássica\Mozart - ...

Os negócios estavam indo bem naquela época e os planos para o futuro dos dois irmãos iam de vento em popa, levando-os a se deslocarem constantemente, para contatos pessoais e fechamento de novos negócios. Além da produção de sal, a exportação de cauda de lagosta já ia muito bem, apesar da proibição legal na época do defeso para o desenvolvimento do crustáceo, mas isto já era calculado e não os afetava em nada, diante de um bom gerenciamento do serviço que eles possuíam.

Tantos projetos ambiciosos em sua cabeça agora pareciam que se esvaíam com o desaparecimento do seu irmão Almir, que, além do relacionamento fraterno que havia entre os dois, Amrel via naquele irmão mais velho a figura do seu próprio pai, o qual perdera quando ainda era criança, em circunstância trágica.

Diante de uma realidade que não havia como contornar ou fazê-la desaparecer de sua vida, Amrel, sem o notar, se veria aproximar-se de pessoas que tentavam através de suas próprias tendências religiosas, lhe explicarem o inexplicável. Como se pudessem com isso amenizar a infinita dor pela perda do seu querido irmão. Espíritas, protestantes, católicos ou umbandistas, todos tinham a sua própria explicação para abrandar-lhe a dor e levá-lo para os seus cultos.

As noites quase insones o levavam, em alguns instantes de cochilo, a sonhos que o transportavam muitas vezes para o convívio do seu querido irmão, como se quisessem turvar a realidade que se apresentava. Ali ele via ao seu lado, o seu melhor amigo, a ajudá-lo, ainda adolescente, a resolver os problemas de física ou matemática que os professores lhe passavam para fazer em casa; sempre com aquelas exigências e um certo rigor nas cobranças, para que ele estudasse e tivesse um grande sucesso, e fosse muito respeitado na comunidade. A figura de Almir, naqueles momentos, se tornava mais real para Amrel que a realidade antes vivida, fazendo-o acreditar que o breve sonho era o real, e o verdadeiro pesadelo seria a sua morte.

A não aceitação da cruel realidade levara o homem a muitas indagações que, sem encontrar respostas, o levaram a um estado de morbidez por um longo tempo, o que afetara muitos em volta, mesmo aqueles mais próximos de sua convivência de trabalho ou amizade.

 

O passar do tempo não lhe abrandaria a dor da perda, mas como se um lenitivo fosse para este fato, Amrel passara a ter aqueles sonhos continuados com a presença do irmão morto, onde conversavam e viviam fatos tão reais, que o deixavam por vezes atônito durante a vigília que sucedia.

 

Os anos se passaram, e a descrença em seu coração tomara o lugar da cultura religiosa em que havia nascido, daquilo que seus pais e avós haviam lhe ensinado. A luta pela sobrevivência e pelo progresso material criara em sua mente uma visão prática e bem objetiva para a solução dos problemas do dia a dia, diante dos seus negócios e, com uma vida sentimental sem maiores envolvimentos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO II

 

 

A Trilha para o Mar

 

 

A aconchegante casa de madeira que ele e o irmão construíram no sítio, lá da praia do Cury, há muito que não a visitava.  Ali, quando o irmão ainda era vivo, os fins de semana eram bem movimentados, onde se reuniam com amigos para animadas  festas com muita comida e  bebida, que não tinha hora para terminar. Agora os tempos mudaram, o que o levara a pensar em vender a propriedade pela melhor oferta que encontrasse.

Azmar, um velho morador dali daquelas bandas, era o que mantinha a limpeza da residência e dos arredores, não deixando o mato tomar conta do caminho por onde se passava para chegar até a casa.

Certo dia, antes de tomar a decisão de vender a propriedade, Amrel decidira ir para lá, a fim de passar uns dias, longe do seu dia a dia de empresário e da agitação da cidade, a fim de repensar melhor os fatos. 

 A primeira noite, sozinho naquela casa chega lenta, com as sombras aos poucos vindo da espessa mata que a circundava.  Dali da rede na varanda, ao apreciar o esvanecer do dia, reluta em sair para ligar  o pequeno gerador a diesel que mantinha a residência  com o conforto da cidade.  Assim, mais algum tempo se permite ali ficar, apreciando algo que já esquecera há muito que existia – a luz prateada e piscante dos vaga-lumes que esvoaçavam  em sua volta na varanda, vindos da floresta próxima.

Os odores da mata permeiam todo aquele espaço e o desejo de continuar naquela rede, envolvido pela escuridão da noite, apreciando o céu noturno pontilhado de estrelas, lhe atiça a mente.  Como se levantar dalí,  que parecia agradavelmente grudada ao seu corpo – se auto questionava.

Naquela semi-escuridão, lhe parece que os sentidos se aguçavam; sons nunca antes ouvidos e odores nunca antes percebidos, vindos da floresta próxima criavam ao seu redor,  uma atmosfera de expectativa e emoção. Poucas vezes em toda a sua vida tivera momentos em que pudesse sentir-se livre da presença de outros, no agitado da vida de um homem de negócios, como era o seu caso. Neste lugar, nenhuma solicitação, nenhuma cobrança de quem quer que fosse, nenhuma ordem para ser dada a alguém, pois não havia alguém à sua disposição para lhe ouvir e atendê-lo. 

 Um pequeno universo dentro de outro universo, onde,  apesar da inexistência de outro ser humano para dialogar, não deixara de altercar consigo mesmo pontos de vista conflitantes que continuavam a existir, isto como se duas pessoas fossem, mas sem a aspereza e o desconforto de um diálogo real. 

A brisa noturna, agora mais acentuada, trazia um frescor com odores vários, quer da floresta, quer do mar ali próximo, dando uma sensação de conforto e relaxamento total, como se um pouco anestesiado estivesse ali naquela rede; pois lhe parece que forças não teria para dali levantar-se.

Caindo num profundo sono, aquela noite passa como um breve hiato em sua memória, entre o anoitecer e o próximo alvorecer, quando tomado por um susto, desperta com o seu rosto banhado pelo clarão dos primeiros raios de sol que atravessavam por entre as folhagens das frondosas árvores que rodeiam a casa.

O velho Azmar não demora a aparecer lá pelo caminho que o leva de sua humilde casa até o antigo poço de água, a fim de se abastecer para as primeiras necessidades do dia.

Amrel agora se dá conta de que dormira ali fora, na varanda da casa, e que até alguns apetrechos que trouxera no utilitário, havia esquecido de retirá-los para guardá-los dentro da casa.

Após um breve desjejum que ele mesmo prepara, toma o caminho por entre os bambuzais em direção à casa do seu vizinho, a fim de cumprimentá-lo.

   _ Bom dia Azmar!, - cumprimenta Amrel o velho lavrador ali em frente a casa, se dirigindo até ele para apertar-lhe a mão.  – Bom dia Seu Amrel, - responde o homem com um estampado sorriso de satisfação pela presença do seu velho amigo que há muito não o via.  Discreto e educado, o lavrador procura falar sempre amenidades, evitando tocar no assunto da venda da casa que Amrel estava com a intenção de fazê-la, pois sabia que tal decisão por parte dele havia sido por um motivo muito pessoal, e que certamente estava ligado à morte do irmão há algum tempo atrás.

Em seguida, Azmar o convida para tomar um copo de café que acabara de preparar em seu fogão a lenha, o que o homem aceita, como se quisesse assim acompanhá-lo, agradecendo no entanto o aipim cozido que o lavrador lhe oferecera em seguida para acompanhar o líquido.

Amrel encosta-se por algum tempo ao tronco da enorme jaqueira ali ao lado da rústica casa, enquanto toma o café e ouve o lavrador falar de suas colheitas, despedindo-se algum tempo depois para tomar o rumo da praia através uma acidentada trilha pela floresta.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO III

 

 

O Portal

 

 

Na volta da praia, o cansaço lhe chegara após tantas subidas e descidas íngremes do caminho. O barulho da arrebentação das ondas nas rochas ainda chegava até aos seus ouvidos como um rumor constante, numa mistura de sons que jamais havia notado.  Os seus pés, por vezes, durante a caminhada, tropeçavam em pedregulhos que lhe atrapalhavam os passos que, descadenciados, continuavam em frente.

 Com o olhar disperso para as árvores em volta, imagina alguma forma curiosa que lhe lembrava algo, mas sem uma  lógica, criado pelo acaso em sua mente. À sua frente, uma forma estranha  surge de uma árvore esguia, que se assemelhava  a uma enorme  figura humana com os braços estendidos para o alto, como se estivesse a suplicar aos  céus em uma  permanente prece. O tronco para baixo lhe parecia o corpo da imaginária criatura, com a cabeça  formada por uma reduzida copa, por entre os braços em preces a menear de um lado para ao outro. A forma, por alguns instantes, lhe parecia viva e assim começara a julgar que aquilo fosse agora o efeito da exaustiva caminhada por entre as estreitas e acidentadas trilhas do caminho. Após algum tempo, resolve então sentar-se ao pé de uma enorme mangueira, por cima de sua folhagem caída há tempo, bastante fofa e confortável, e recostar-se ao seu tronco, a guisa de descansar as pernas, para depois continuar o seu caminho de volta para a casa.

 

Ali ao seu lado, no chão, próximo ao tronco, num galho já caído e ressecado, uma pequena aranha construíra a sua teia.  O olhar de Amrel se detém por algum tempo para apreciar aquela  simples e bela obra do aracnídeo que, sem nenhum instrumento de medição, produzira aquela  armadilha  perfeita. Notara que além da beleza estética da teia, a mesma era funcional, pois para os insetos voadores que por ali transitassem, a chance era enorme de ficarem grudados naquelas pegajosas e transparentes linhas da teia. O homem pára agora para observar que a proprietária daquela construção se prostrara bem no centro desta, em atitude totalmente imóvel, como se morta estivesse, a fim de não despertar suspeita de algum inseto que dali se aproximasse. De repente, uma mosca do mato durante o seu vôo se choca na pegajosa malha a uma certa distância do centro de onde se encontrava a aranha. Ao sentir a vibração da teia, a atenta aranha se desloca célere para o local onde se debatia a mosca, na tentativa infrutífera de soltar-se da armadilha. O golpe é rápido e, em poucos segundos, a infeliz mosca já estava envolvida por dezenas de voltas de fios sedosos que a aranha vomitava do seu interior, ajudada por suas habilíssimas pernas, para o empacotamento da presa. Neste ínterim, a aranha , após uma pequena pausa ali abraçada ao casulo que continha a mosca ainda viva e se mexendo, perfura com a sua língua estilete o corpo empacotado da vítima.   Suga-lhe então tudo que possa fluir para o seu corpo, restando no final de alguns  minutos, uma casca oca no interior do casulo, que logo após, a própria aranha lançaria para fora da teia, deixando-a limpa para a próxima presa.

O homem, ali observando tudo aquilo, quase pasmo, procura entender este particular universo, ao mesmo tempo tão distante e tão próximo dele. Tentava imaginar, naquele momento, como poderia tão pequenino cérebro tomar tantas decisões relativamente complexas e realizar  um trabalho absolutamente perfeito de captura, utilizando aquela armadilha que ela própria construíra. E, aliado a uma paciente espera, alcançar o seu objetivo final, que era o de alimentar-se de outro ser vivo para manter-se viva. Esta observação levava-o, no entanto, um pouco mais à frente, ao analisar a  imparcialidade das leis da  natureza ao prover a aranha de tal comportamento. Pois sendo mosca e aranha, ambos elementos vivos, esta cessava a vida da outra para continuar viva. Isto então era a essência das leis naturais, as quais parecem abranger todo o universo.

  

Certo tempo se passara e, absorto e contemplativo, o seu corpo suavemente desfalece em sono, com a cabeça e costas apoiadas ao enorme tronco. A sua mente, no entanto, alheia ao fato físico que lhe levara ao sono, mas alerta e consciente, passa a vislumbrar  uma paisagem estranha; onde no início uma névoa a brotar do solo, lhe lembrava os fumígenos que eram colocados nas formigas que atacavam as roças, os quais eram injetados por um tosco fole nos buracos dos formigueiros na terra.  Esta visão aos poucos se transformara em uma grande névoa, agora, levemente azulada que também lhe envolvia, por entre a qual começara a aparecer um caminho que em nada se assemelhava à estreita trilha por onde se dirigia de volta para a casa. Uma sensação estranha de leveza física lhe tomava o corpo, que o faz sentir-se flutuando acima da folhagem fofa.  As árvores em volta, agora lhe pareciam vivas,  mas num sentido amplo do que significava um indivíduo, do que significava a vida. Como entender aquilo que por alguns instantes lhe parecia estranho, mas ao mesmo tempo real e natural, onde a vida parecia pulsar em toda a sua volta? – questiona o homem sobre isto.

O tempo não flui mais como antes, e a certeza de estar em sua perfeita consciência lhe traz uma sensação de tranqüilidade.

 

Não, as coisas eram reais, e na verdade isto agora era o despertar de um breve sonho, – assim pensava.

 

No entanto, algo inesperado surge à sua frente, era a visão do seu próprio rosto como se um espelho ali estivesse.

No início, apenas o rosto lhe parece visível, mas, aos poucos, todo o seu corpo se mostrava. Um temor lhe enche o coração, as palavras se prendem em sua garganta.  Outro ser ali à sua frente com a sua aparência, era inexplicável para Amrel.

Por instantes pensa que o seu corpo físico podia estar sendo refletido em algo à sua frente e, como se quisesse  disto tirar a prova, levanta levemente o braço esquerdo  a fim de constatar que a figura que julgava ser o seu reflexo, tal movimento também o faria. Amrel agora ainda mais atento à visão é tomado por um total espanto ao notar que a imagem que admitira ser sua, não se movera da postura anterior. A garganta seca lhe dificulta a fala, mas mesmo assim, com um maior esforço, pergunta àquele Ser o que ele era e o que desejava dele. O silêncio fora a sua resposta e, os únicos sons que ouvira foram os da sua própria voz embargada pela emoção.

Estático ficara por algum tempo, tentando julgar de forma racional o fato, sem, no entanto conseguir encontrar algo para uma razoável explicação.

 

O caminho em frente se alargara, e aquela projeção física agora lhe voltara as costas, movendo-se suavemente do lugar como se deslizasse acima do chão, mostrando com um gesto de sua mão direita que Amrel devia seguir em frente pelo caminho que  ali se estendia.

Assim, tomado por um pouco de coragem, prossegue em frente, mantendo, no entanto alguma distância da figura silenciosa. Agora já não estava sentindo tanto receio como antes, pois algo no fundo do seu coração lhe dizia que não havia perigo em segui-lo, mesmo sem entender o que estava acontecendo naquele momento.

As plantas às margens do caminho agora se tornaram mais nítidas à sua vista, notando que a espessa neblina azul que as envolvia estava aos poucos se dissipando, mas como se integrasse à floresta em volta. Por algum tempo a visão se mantinha à sua frente num lento caminhar que, por vezes, lhe parecia mais distante, mas em seguida, o percebia ainda mais próximo. Por algum tempo Amrel segue aquele Ser sem nenhuma contestação, quase que levado por uma força que ele mesmo não desejava resistir.

Algum tempo se passara nessa estranha caminhada, onde nenhuma palavra era ouvida como  forma de comunicação vinda daquela criatura; quando aos poucos Amrel percebe que as suas formas aos poucos foram se transformando em névoa e se dissipando ao longo do caminho.

Sons passam a serem ouvidos, vindos da mata, como se fossem de pássaros tagarelando nos galhos das copas das árvores que ladeavam o caminho. Aquela visão física do Ser, agora desaparecera por completo, ficando, no entanto uma sensação estranha da presença de algo por ali. Por vezes  Amrel pára de caminhar, a fim de perceber melhor algum movimento ao redor, como se quisesse por esse meio descobrir aquela presença que agora parecia existir apenas em sua imaginação. Mas a sensação  de algo próximo se tornava cada vez mais forte e assim quase que sentia que poderia tocar aquele ser, ou ser tocado por ele em qualquer pequeno gesto que fizesse, pois a sua vibração em volta era real.

Neste momento lhe retorna aquela sensação estranha de que as plantas à sua volta eram seres vivos, não como ele conceituava essas coisas no passado, mas que agregavam uma vida mais complexa do que admitira antes.  O seu andar pelo caminho lhe parecia suave, sem cansaço em suas pernas, nem mesmo a sensação de peso ao pisar no chão seria a mesma. Agora era suave e delicado como se todo o caminho fosse feito de um espesso e extenso tapete de veludo prata.

Amrel tinha certeza de que não estava sozinho a trilhar por este caminho e, por que não questionar àquele ser que os seus olhos não conseguiam perceber, mas a sua mente tinha plena consciência desta existência? - assim pensava. Mas como perguntar algo a alguém que não podia ver ? – Parecia uma loucura, um homem fazer qualquer pergunta a uma imaginação, a um vazio de forma e densidade.

Os sons da floresta em volta por vezes diminuíam e até desapareciam por instantes, o que criava um imenso vazio à sua volta, como se não pudesse o homem conceber o mundo sem aqueles sons. A presença, no entanto, do invisível continuava bem ao seu lado ou por todos os lados, pois como aquilo se comportava, ele não conseguia ter a sua direção.

Amrel, por um instante, diminui o passo e percebe a pouca distância à sua frente, um velho tronco de árvore caído à beira do caminho. Instintivamente chega até o tronco e ali se senta como se fosse descansar por algum tempo, apesar de não sentir nenhum cansaço em seu corpo. 

- Agora, assim parado, poderei observar melhor o que me segue ou o que estou seguindo – mentalmente cogitava.

Os sons da floresta mais uma vez se acalmam e por um momento sente algumas passadas à sua volta, e  teme ao perceber a presença do invisível ao seu lado, como se sentado também estivesse naquele mesmo tronco.

- Uma alucinação talvez esteja ocorrendo comigo - assim pensou. _Antes era aquela figura com o meu rosto a quem acompanhei por algum tempo, mas que me parecia real, mas depois se evaporou; agora esta sensação de algo invisível ao meu lado. Não consigo vê-lo nem tocá-lo. O que está acontecendo? – questiona o homem, já com a alma angustiada pelo mistério.

De repente ouve uma voz como se viesse de todas as direções.

- Jovem andarilho poderás considerar-me como o teu guia nesta  dimensão em que nos encontramos; para que não andes a esmo, estou aqui para ajudá-lo. Sou o mesmo que há pouco moldado no teu corpo físico, lhe indiquei os primeiros passos. A minha energia nesta dimensão tem a liberdade de tomar um grande número de formas e a tua forma foi a escolhida por mim no início.

Amrel, perplexo, agora ali próximo à criatura invisível, ouve com atenção cada palavra, tentando compreender o incompreensível naquele momento, sem saber a que dimensão ele se referia.

No entanto não se dá por vencido pelo medo e, num grande esforço, tenta responder à voz e questioná-la.

- Homem invisível,  agora estou certo de que você está próximo, mas não acredito no que declara ser. Pode estar escondido entre os arbustos por aqui por perto e, por intermédio de algum truque ou mágica que não posso descobrir, está tentando iludir-me com esta estória. Porque não sai do seu esconderijo para conversarmos? – pergunta Amrel, ainda com a voz um tanto embargada pela emoção.

- Andarilho, na dimensão em que nos encontramos  não existem truques nem mágicas para iludir aos outros. Aqui vivemos em uma dimensão em que nos mostramos como realmente somos. Ou seja, mostramos a nossa verdadeira personalidade e por isso os sentimentos, sejam positivos ou negativos que façam parte de nós, serão refletidos com fidelidade para o nosso exterior. O ódio ou o amor, a dúvida ou a certeza e tantas outras qualidades da nossa personalidade serão espelhadas para os outros com os quais contatamos ou nos sintonizamos. Podemos contatar um grande número de seres semelhantes, no entanto, somente com alguns podemos nos sintonizar.

Amrel, diante do discurso da criatura invisível e, após ouvi-lo atentamente, toma mais cuidado para fazer-lhe algumas perguntas.

- Senhor invisível, não sei se posso chamá-lo assim, de qualquer forma desejo que me explique porque não consigo vê-lo, mas apenas ouvi-lo; e qual é o seu nome? – questiona o homem.

- Andarilho, nomes para identificar uma personalidade nesta dimensão são de pouca importância, mas se quiseres me identificar por um nome, poderás chamar-me de Amron, ou o guia de Amrel, o andarilho. Perguntas por que não consegues ver-me se tão próximo estamos um do outro. Já havia lhe dito há pouco que podemos contatar muitas personalidades, mas com poucos podemos nos sintonizar. Isto não é uma declaração tão simples em princípio, mas são fatos que já ocorrem na dimensão de onde vens. O contato entre personalidades as mais diversas deste universo poderá existir, mas nem sempre  a sintonização. Pois esta ocorre quando alguns níveis de sensibilidade e desenvolvimento em  uma delas se harmonizam com as da outra através um mesmo nível ou canal de vibração. Entre o simples contato e um determinado nível de harmonização entre seres existe uma gradação quase infinita para se considerar a existência de uma completa harmonização.  Entre nós, por exemplo, já existe um razoável nível entre o contato e a harmonização, o suficiente para que entendas com certa clareza o meu pensamento ou sentimento, traduzido em um determinado nível de compreensão para a sua mente – conclui Amron.

Amrel, apesar de sentir-se menos receoso, tinha ainda alguma dificuldade em entender por completo o sentido das palavras daquele ser.

Ali sentado no tronco à beira do caminho, continua o diálogo com Amron, entrecortado às vezes por observações que aquele fazia sobre o ambiente em volta, que estranhamente mudava visualmente de um momento para outro.

Flores cresciam ao longo do caminho e ali junto ao tronco em que sentara. Por vezes, podia perceber no leito, as marcas dos pés de Amron, junto ao tronco ao seu lado, mas por instantes desapareciam. Plantas vicejavam ao redor com mais ou menos flores, que mudavam as cores com sua emoção. O homem tentava entender porque sutis mudanças ocorriam em um breve tempo, no aspecto físico e tons dos objetos.

A névoa azul não desaparecera por completo do entorno, envolvendo mais ou menos alguns locais da paisagem em volta, com mais ou menos densidade. Ao observar tais variações, não se contém e volta a inquirir Amron sobre estes fenômenos.

- Amron, ainda me ouve? – pergunta ao seu guia invisível, após o longo silêncio deste.

- Estou sempre pronto para ouvi-lo  - responde Amron. E continua – Sempre estarei, quando nascer este desejo em seu coração.

- Bem, - volta Amrel - estive aqui observando por algum tempo que as coisas em minha volta mudam de aspecto de quando em vez, não é sempre, mas mudam por vezes  de um instante para outro e sinto-me  como se isso causasse alguma depressão ou alívio em minha mente. Não posso compreender porque tais mudanças me afetam. Isto é real ou apenas algo da minha imaginação? – pergunta Amrel, com certa angústia e expectativa ao mesmo tempo, por uma resposta convincente.

- Bem, Amrel – responde o guia -  me perguntas o que existe de real e imaginário em sua mente. A mente é uma fonte de criação permanente de idéias e sentimentos no indivíduo; tais mudanças, na verdade, podem ser um único estado dentro do contexto de uma análise geral. A realidade de cada um é aquilo que ele cria em seu universo pessoal, em sua mente, e as sensações e visões neste universo próprio mudam em função dos seus sentimentos e convicções. Mudam assim em função da sua situação e visão pessoal. Aquilo que você percebia como mudança na paisagem em volta é na verdade um produto das transformações dos seus sentimentos e idéias.

Cada um de nós vive a própria realidade em função das nossas ações e pensamentos conscientes.

A depressão ou alívio que sentes não são produzidos por aquelas mudanças no ambiente em volta, mas as mudanças que percebes neste ambiente são o resultado do teu estado mental. Ou seja, o inverso daquilo que pensavas.

Assim, o nosso real e imaginário se confundem, pois criamos em torno de nós o próprio universo, em função da nossa visão e concepção dos fatos – conclui o guia.

Amrel ouve o guia e tenta entender cada uma de suas palavras e, como aquilo pode ser verdadeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO  IV

 

 

A Contestação

 

 

Amron, o guia, após uma longa conversa com Amrel, o convida para segui-lo pelo caminho de Maat até o portal de entrada da região de Ankar.

Explica então que a passagem por este portal lhe colocará numa região, reflexo da sua dimensão anterior, onde fatos da vida se desenrolarão entre as criaturas em toda a sua plenitude, não sendo possível, no entanto, qualquer interferência de quem quer que fosse de outra dimensão. Amrel, sem entender bem no início, ficara por um instante reticente quanto a ter que continuar a sua trajetória com o seu guia.

- Amrel, nada tens a temer  - afirma o guia, a fim de tranqüilizar o homem.

- Nada poderá lhe afetar, pois a outra dimensão não poderá afetar a nossa.  A região  de Ankar, no entanto, é longa e por vezes penosa a sua travessia, mas é fundamental a sua passagem, pois através dela as contestações serão geradas; onde muitas crenças poderão ser minadas, postas em dúvida ou destruídas; e onde verdades que supomos possuir, serão reavaliadas, aperfeiçoadas ou substituídas. Exigirá de si muita coragem e determinação para atravessá-la até o seu portal de saída. Durante este trajeto, no entanto, estarei ao seu lado, continuarei como seu guia, mas nenhuma resposta lhe darei para os seus questionamentos momentâneos sobre fatos que irás presenciar. Seremos então apenas expectadores.

As palavras de Amron calaram fundo em Amrel, mas, apesar do temor que possuía em ter que atravessá-la, desejava muito ter a visão da sua dimensão anterior, mesmo sem o poder de mudar os fatos que podiam ser desagradáveis ou trágicos.

Luzes e fortes vibrações marcam a sua passagem pelo portal, onde percebe que Amron se transformara de invisível em um corpo etéreo, quase translúcido de luz azul. A sua intensa aura passa a ser notada por Amrel, percebendo assim que a mesma era capaz de envolver até os objetos à sua volta.

Ao lado do caminho, figuras humanas e de animais surgem e desaparecem como se estivessem mergulhados em uma densa neblina de cor indefinida. Após algum tempo, tal neblina se dissipa e os dois se encontram agora caminhando por um árido caminho, ladeado por pequenas árvores retorcidas que brotavam de um solo calcinado pelo sol.

Uma longa fila de esquálidas criaturas lentamente começa a vir sua direção, notando-se que, pelos andrajos e pequenos fardos que transportavam em suas cabeças, eram elas retirantes de alguma região da Terra onde a sobrevivência alcançara o seu limite. As criaturas pareciam vagar para lugar nenhum, sem destino em mente, apenas levadas pela poderosa força da sobrevivência. Assim, a longa fila começa a passar ao seu lado, mas somente os dois podem percebê-la, mas sem, no entanto, tocar alguém. As criaturas que ali passavam não se apercebiam de nada em volta que não fosse a imensidão vazia da ravina calcinada pelo calor abrasador. 

De quando em vez, algumas pessoas da longa fila, estropiadas pela fome e sede que se percebia em seus miseráveis rostos, iam ficando para trás,  caídas, exaustas, entregando-se mais cedo à sua morte física. Os que seguiam em frente, como que hipnotizados pelo medo, não conseguiam parar para socorrer os que se prostravam ao solo, ali aos seus pés. E assim, a fila continuava em passos lentos andando em frente, diminuída a cada passo pelo número de indivíduos que caíam e ficavam para trás.

Amrel, movido pela determinação de atravessar a região de Ankar, continuava, tendo ao seu lado Amron, o guia invisível, em total silêncio.

Mas, de repente, surgem à frente montes de escombros de casas e outras construções destruídas pelo fogo e por explosões. Entre os corpos de humanos e animais por ali espalhados, existiam ainda alguns que aparentavam ainda possuírem  um fio de vida, notado por leves movimentos que faziam, antes de exalarem o último suspiro. Gemidos eram ouvidos vindos das fendas daqueles amontoados de paredes e tetos das construções desabadas, dando a impressão de que ainda existiam naquele local algumas vidas que poderiam ser salvas, se houvesse alguém para socorrê-las.

Amrel estanca os seus passos para observar aquele cenário tétrico por algum tempo, notando à sua volta rostos deformados pelo terror enfrentado por aqueles seres nos últimos instantes de suas vidas. Mais de perto, olhando agora alguns rostos, vê ali os olhos da morte fitando o vazio, o invisível à sua frente, numa expressão gélida, não humana, que aquela presenteia aos que ainda estão vivos.  Esta visão lhe trouxera  uma sensação angustiosa, ao refletir que aqueles seres ainda há pouco, vivos, se transformaram de repente em objetos, produzidos pela cruel mágica da morte.

Mais adiante, notara próximo a um monte de escombros, um cão de pelagem negra, sentado em suas patas traseiras, ao lado de um corpo humano inerte, parcialmente coberto pela poeira e destroços de uma construção.  Dali, varando a imensidão do espaço em volta, se ouve o seu longo e penetrante uivo de clamor, como se fosse o único ser vivo que restara para prantear a morte ao seu redor. E, naquele lugar, estava ao lado de quem poderia ter sido seu dono e amigo, e assim, em sua inocência e lealdade, teimava ali permanecer, como se acreditasse no seu ressurgimento. 

Amrel, diante dessa visão, pensara por algum tempo sobre o valor da vida, de qualquer forma de vida, tão subestimada pela fúria do terror humano que havia realizado aquela dantesca obra de destruição.

Diante de tal fato, o seu coração se enche de profunda dor, revolta e de uma terrível sensação de impotência, por presenciar aquilo e nada poder fazer.

_ Que valor terá a vida para os que foram o instrumento de destruição desses seres? – questionava.

- Onde estaria Deus naquele instante de destruição, que não  segurou a espada e as balas dos assassinos dos seus semelhantes? Ele teria então permitido isso?

_ Quem foi o crédulo que afirmou existir um  Deus, sempre presente a tudo, de bondade infinita, justo e misericordioso? Quem afirmou tais coisas para os outros acreditarem devia estar com a mente inebriada pelo poder da palavra e louca. Como se pode afirmar a existência de um Ser ao qual se atribui um poder infinito, onisciente, não estar atento para evitar tal tragédia. Pobre imaginação humana que acredita em tais mentiras milenares, passadas de geração a geração – questiona Amrel, como se dirigisse ao seu guia  invisível.

O homem, em estado de profunda consternação, se prostra em seu caminho por algum tempo, como se estivesse enfraquecido para prosseguir a travessia pela terra de Ankar; quando de súbito, a mão de Amron toca-lhe o braço para soerguê-lo, a fim de que continuasse a sua jornada.

Ao seu lado, Amron mantinha-se em silêncio, como havia dito, antes de entrar pelo portal de Ankar. Amrel, mesmo assim não se contém e agora passa de um sussurro a um clamor gritante, perguntando a Amron – Onde está Deus?!!, onde está Deus?!! Pois se ele existe devia aparecer e destruir o mal. Responda-me homem invisível, com o seu saber, a tão simples pergunta que faço! Sei que você está ao meu lado, por sua forte vibração, e por isso pode me ouvir.

Amron, o guia, continua em total silêncio durante todo o tempo de sua travessia pela terra de Ankar, onde muitas visões se sucediam e desapareciam diante do olhar extasiado de Amrel.

 

Em certo instante, o caminho de Maat se alarga e a paisagem  muda de uma árida terra ardente, para um verde e majestoso vale cercado de montanhas escarpadas, de onde surgiam de suas entranhas, cascatas de água em formato de véu, que se desfaziam ao ar antes de tocarem o solo para formarem os rios.  Flores, luz e vida em todas as suas formas surgiam ao seu redor. O odor fétido e pesado da atmosfera de Ankar dera lugar a uma paisagem de deslumbrante beleza, de um ar puro, qual um paraíso, onde as várias formas de vida em toda a sua plenitude vibravam em harmonia.

Amrel, num misto de perplexidade e emoção não diz sequer uma palavra que possa ser ouvida, mas, antes que isso possa acontecer, percebe ao seu lado a energia luminosa de Amron, que por longo tempo permanecera em silêncio.

 O homem sentira então que acabara de transpor o portal de saída da terra de Ankar pelo caminho de Maat,  para a terra de Grom, ou a terra da luz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO  V

 

 

As Respostas

 

 

Amrel notara que a figura do seu guia se tornara agora mais nítida, envolta por uma aura azulada em torno do seu corpo, que parecia definir-lhe a forma.

Os seus movimentos, no entanto eram suaves, dando a impressão que flutuava um pouco acima do solo do caminho, como se não possuísse uma densidade material.  De repente o guia pára e sugere a Amrel, com um sinal de sua mão direita, para que ele se sente junto ao tronco de uma frondosa árvore ali à beira do caminho, em um tapete de folhas que parecia preparado por mãos humanas para ser um assento. Amrel atende ao pedido e, por alguns momentos, fica sem ouvir som algum, num total silêncio como jamais sentira. Aos poucos, no entanto, começa a ouvir chilreios de pássaros que não conseguia defini-los ou localizá-los, mas eram sons muito agradáveis aos seus ouvidos que o fariam sentir-se agora mais confortável, após as tétricas visões que tivera na terra de Ankar.

O seu corpo, no entanto, se encontrava como se tivesse perdido muita energia, mas que começara a se recuperar  rapidamente após o contato com o tapete de folhas em que sentara recostado à árvore. Os sons da natureza continuam a serem ouvidos, vindos de várias direções, criando agora uma bela sinfonia, como se regida fosse por um maestro invisível.

 

Amrel, pela primeira vez tendo o guia ali ao seu lado em estado de luz visível, emitindo um brilho sem ofuscar seus olhos, sente que aquela presença lhe transmite segurança e paz ao mesmo tempo. Notara também que muitas de suas questões certamente ali seriam esclarecidas, desde que ele o desejasse. E assim, Amron fala...

- Andarilho, todos temos que enfrentar os nossos próprios receios e, através do questionamento gerado, certamente encontraremos o caminho para muitas das respostas que necessitamos – inicia o seu diálogo.

- A sua passagem por Ankar poderá ser muito proveitosa para o seu entendimento, se deixares de lado o preconcebido e começares a dar ouvido à sua consciência mais profunda. Isto porque este estado de consciência interior é a porta ou o elo de ligação da sua personalidade com a dimensão superior do conhecimento universal, que transcende o físico, ao qual ainda estás ligado. Este conhecimento, pela sua própria essência não pertence ao indivíduo, mas a todos.

Nos seus momentos de angústia procuravas a atenção de algo imaginário, fora de si, ao qual chamara de Deus. Não o encontrando, questionava. Este ser imaginário e todas as qualidades que lhe são atribuídas são todos elementos de um universo relativo; na verdade, parte do desejo humano na busca permanente  da satisfação das suas próprias necessidades. Este ser, se porventura existisse, teria sido talhado com o objetivo apenas de proteção individual, ou de um grupo  de indivíduos. E sempre em qualquer ato de proteção, estaria se protegendo algo de alguma outra coisa, que poderia ser outro grupo que não fosse simpático a esse Deus particular. Isto irá de encontro às leis naturais e absolutas do universo, que não criam nenhuma distinção entre os grupos considerados.

Assim, passamos também a entender que a justiça e a bondade divina, como habitualmente concebidas pelo indivíduo humano, são mitificações convenientemente alimentadas pela mente, para evitar adentrar-se pela fronteira do desespero em suas aflições existenciais.

Isso cria de certa forma no ser, a esperança de uma realização que nunca será atingida, a qual o manterá na ignorância durante toda a sua curta existência.

Em decorrência do mesmo fato acima, a criação dessa divindade bondosa e de poder infinito, é uma outra abstração, originada pelo medo que toda criatura sente diante da sua finitude como elemento físico. Assim, a criatura, criando o seu próprio criador, o que é de certa forma paradoxal, sente-se como se estivesse protegida pela eternidade, o que seria outra concepção (a eternidade) que a maioria dos indivíduos é incapaz de assimilar, devido às limitações que possuem, decorrentes do seu atual estágio de desenvolvimento mental.

Diante dessas coisas, temos que descobrir uma maneira de nos realizarmos (sermos felizes), mesmo conhecendo essa realidade. Assim, o único caminho que nos restará pela frente será trabalhar a mente, através da observação e da meditação, o que nos levará a não aquilatarmos maiores valores aos parâmetros que inexoravelmente comandam a finitude e todas as suas implicações durante a nossa curta existência física.

 

Desta forma podemos entender que aquele ser imaginário dentro daquela concepção, seria por si só inviável a sua existência no Universo Absoluto, pois qualquer ação de sua parte para atender a uma contingência particular, poderá ir de encontro à realização das leis naturais sobre aquele acontecimento, cujas leis permeiam por todo o universo. Ou seja, Deus, nesta concepção, a sua existência no Universo Absoluto seria uma impossibilidade. 

Por outro lado, a angústia que lhe causara a visão da morte nos rostos deformados e de olhar gélido e, transformados agora em objetos, certamente não seria apenas uma angústia causada pela dor do outro, mas pelo temor extremo que tens da própria finitude, ao constatar a semelhança com os que ali jaziam, e por conseguinte também sentir-se extremamente frágil, dependente e impermanente como elemento vivo. No entanto, enquanto a vida flui naturalmente, longe de tais acontecimentos, muitos indivíduos, devido ao nível de desconhecimento das leis naturais, passam quase toda a existência alimentando a prepotência, arrogância e o egoísmo em seus corações, que sempre os levam para um mundo isolado e traiçoeiro. Por isso o impacto da visão do fim, leva-os ao desespero total.

 

Amrel, diante destas palavras, que lhe soavam profundas, procura entender melhor o seu guia, argumentando no entanto.

- Então necessito que me explique com mais clareza, a razão daquela criação mental, em que se colocou tanto poder, e que chamam de Deus.

- Amrel, para responder a tal questão, teremos que voltar no tempo do Universo Relativo, para que possas entender melhor.

- A mente humana,  na busca permanente para compreender a sua existência e o Universo que o cerca, desde os primórdios do seu desenvolvimento, tem procurado atribuir as suas próprias características de sentimento a  entes que criaram em sua imaginação.

Os homens primitivos, assim como o atual, originário da evolução daqueles, no início, devido ao seu pouco desenvolvimento mental, veriam nas forças da natureza um ente por vezes aterrorizante, e em outras circunstâncias, como um elemento benéfico e protetor. Assim, diante da  constatação de sua extrema fragilidade como elemento físico, sem nenhum poder para dominar aquelas forças antagônicas, criou-se inicialmente em suas mentes a idéia da existência de um poderoso ente, possuidor em certos momentos de força destruidora e ira ameaçadora à sua integridade física, o que lhe encheria de temor. E, em outros momentos, se apresentando extremamente benéfica para com ele.

Diante desta dupla característica, os homens primitivos em evolução, classificaram  a poderosa energia criadora de todos os efeitos que os envolviam, em dois entes, um bom e outro mau, em função, respectivamente daquilo que lhes era agradável e do que lhes era adverso. Com a evolução desta visão primitiva do seu universo consciente, chegariam por fim a criar uma multiplicidade de entes, que expressassem os seus sentimentos, em função da diversidade de efeitos produzidos pela poderosa energia natural.

Assim, em distintas partes do planeta, esta idéia ou visão subjetiva evoluiu de uma forma mais ou menos semelhante e independente, em função do desenvolvimento destas civilizações; assim, em algumas regiões do planeta, muitos mantiveram e alimentaram a existência de vários entes poderosos, ou deuses, e em outras regiões, tais povos resumiriam com a existência de dois poderosos entes, o do bem, ao qual chamariam Deus, e  o do mal, ao qual chamariam Demônio.

Desta forma, neste estágio, o homo sapiens atual, criara o seu próprio criador, Deus, tendo então  atribuído a este os sentimentos mais nobres e construtivos .

Esta evolução levaria, no entanto, o homem, após a criação deste sentimento do bem, ao qual chamaria Deus, a revesti-lo de um caráter ideal, baseando-se em sua própria concepção pessoal do que seria o ser ideal. Assim, estava criado então o seu modelo, de onde seria refletido para todos o último estágio de refinamento dos sentimentos mais nobres, que o próprio criador daquela divindade, o homem, supunha existir.

Deus então, em última análise, meu caro Amrel, pode ser na verdade um sentimento, e não um ente, e por conseguinte, algo em permanente evolução em cada indivíduo. Desta forma, por ser um sentimento pessoal ou coletivo, cada indivíduo ou coletividade possuirá  a sua visão particular sobre isto.

Sabemos, por outro lado, que um sentimento, como todo sentimento, é uma vibração da energia mental, que se irradia por toda a volta e pelo Universo, o que em uníssono com outros nesta sintonia, gerará um grande poder transformador.

Assim, nós seres de todo este Universo, tão mais evoluamos, pelo nosso próprio esforço, nos aproximaremos mais no nosso modelo ideal e imaginário que criamos.

Desta forma percebemos que somente as nossas mentes em evolução, têm a capacidade extraordinária de conceber tal modelo, tendo este como meta a ser atingida, mas que na verdade é inatingível, pois tal modelo estará sempre evoluindo em relação às suas características originais.

Conclui-se desta forma, que este sentimento seria inexistente, caso não houvesse a mente dos seres ter evoluído do seu estágio primitivo. Um modelo em aperfeiçoamento, no entanto, o que não poderemos deixar de constatar, se ousarmos analisá-lo do ponto de vista universal das coisas, uma vez que todos tendem a evoluir pela eternidade.

No entanto, fragmentos do estágio primitivo ainda subsistirá  por longo tempo, dentro do ser humano como o conhecemos neste planeta, em decorrência do seu atual nível de evolução mental,    que o leva a produzir também o mal para si próprio, para os seus semelhantes e para os seus irmãos menores, muitas vezes sem ter  este a visão do fato, como tem ocorrido em toda a história da humanidade e, como ocorreu na destruição que presenciaste.

Assim, cada um de nós, nos deparamos com um grande desafio, que será o nosso aprimoramento pessoal, o qual passará muitas vezes por grandes provas, até atingir o limiar da verdadeira razão, o que nos levará à felicidade, que é o objetivo de todos.

 

Amrel, agora, mesmo com a sua mente mais aberta para tentar compreender tais coisas, não consegue ainda assimilar muitos outros conceitos advindos desta constatação e, diante disto, volta-se para o seu guia.

 

- Pelo que posso entender, a inexistência deste ente como teríamos imaginado, permitirá então que todo o tipo de mal possa ser feito por qualquer um, contra qualquer forma de vida, sem que nenhuma força possa intervir para conter a sua trajetória destrutiva, como a chacina que presenciei antes. Entendo desta forma que estamos num universo absurdamente injusto e, por conseqüência, sem proteção contra qualquer força destrutiva vinda de nossos próprios semelhantes, de outros seres ou de ações da natureza.

 

- Meu caro Amrel, - responde o guia - em parte a sua conclusão é correta, mas diria em parte apenas, pois, a consciência de cada forma de vida em sua permanente evolução, irá descobrir um dia o seu verdadeiro destino, que é integrar-se ao Todo, perdendo assim o seu sentimento de individualidade, quando então tais fatos que presenciaste deixarão de existir. Para a Energia Criadora Universal, se assim podemos chamar a que gera e transforma todas as coisas, conceitos morais e éticos estabelecidos por cada forma de vida, por cada sociedade ou indivíduo em particular, são próprios do seu nível de evolução e por isso tais conceitos pertencem ao Universo Relativo de cada um e, a solução dos problemas gerados ocorrerá dentro deste mesmo Universo. Para a Energia Criadora Universal, no entanto, a aplicação das leis naturais em todo o universo é feita de forma absoluta para toda a matéria animada ou inanimada, independente daqueles conceitos. No Universo Relativo, que está também submetido àquelas mesmas leis naturais, o que produz o bem ou mal são os próprios indivíduos deste micro universo e, por conseguinte, os resultados decorrente de tais ações, positivas ou negativas que ali foram geradas,  ali mesmo aparecerão. Assim, como vemos, não haverá meios de se escapar dos efeitos gerados por aquelas ações dentro deste sistema interdependente.

 

Uma grande angústia e decepção toma conta de Amrel, que apesar de um tanto descrente, ainda em sua mente lembrava os ensinamentos que havia recebido, que seria, se o bem fosse feito a alguém ou a alguma coisa, bem equivalente receberia de volta, o que o estimularia a produzir o bem devido ao seu retorno. E por esta mesma visão, quem jamais tivesse feito o mal, nunca seria alvo dele. Mas o que acabara de ouvir não teria dado esta resposta, e sim ao contrário, passaria a entender que se praticasse ou não o bem junto ao seu semelhante, estaria nas mesmas condições de quem havia feito o oposto. Este sentimento no momento seria reforçado pelo que acabara de presenciar.

- Pois, que culpa teriam aquelas pessoas vítimas da guerra, para serem submetidas a tais sofrimentos? Diriam então que estariam sofrendo as conseqüências de faltas cometidas no passado? E mesmo se tais faltas tivessem sido cometidas, que justiça haveria para estes seres estarem passando agora por tal adversidade, sem no entanto terem a menor noção por que tais fatos  estariam acontecendo em suas vidas? Que lição poderia advir para essas vidas, penalizadas na total ignorância?  Tudo isto me parece um grande absurdo!   E os animais, inocentes e frágeis diante de todo aquele sofrimento; teriam cometido também algum mal, apesar de não possuírem em suas mentes este conceito? -  questiona Amrel.

Amron percebe então o questionamento angustiante daquele homem.

 

- Caro Amrel, compreendo que a visão, dita espiritual, de se doar algo a alguém ou a alguma coisa, para se ter de volta alguma forma de benefício equivalente ou maior, tem sido a base dos ensinamentos da maioria das crenças da humanidade. Diante desta base de ensinamentos,  tais crenças, ou os que as lideram,  criaram  um verdadeiro banco de negociação,  primitivo e imediato, que benefícios apenas materiais lhes trazem; pois através do medo ou do terror infundido nos seus semelhantes, conseguem adquirir aqueles benefícios. Na verdade esta é uma visão bastante primitiva da vida como um todo, pois só se preocupam não no ato de doar em si, mas nos benefícios do retorno. Na verdade, a prática do bem, em pensamento ou ação, deveria ser entendida e realizada como ato solitário de cada indivíduo, sem nenhuma cobrança ou expectativa de retorno, uma vez que seria uma atitude para com o Universo, do qual ele é parte.

Quanto ao sofrimento, seja o do físico ou da alma, é algo que temos que compreender que ele é parte inerente a toda forma de vida. Isto significa então que seja o indivíduo o mais ambicioso, insensível ou sem compaixão para com os outros seres, ou ao contrário,  seja um iluminado e altamente compassivo para com todas as formas de vida, nenhuma  postura evitará que o sofrimento aconteça. No entanto, para este último, os sofrimentos ou agruras da   existência, além de se apresentarem amenizados, por maiores que estes sejam, este indivíduo sempre retirará daquilo muitas lições importantes e enriquecedoras para a sua evolução.

Tudo isto, por  outro lado, não significa que o sofrimento deva ocorrer para que o indivíduo possa evoluir.

Amrel, atento às palavras do seu guia, em princípio, passa a entender que na verdade todos estamos ligados a um destino imutável desde o nascimento, e não haveria nada que pudesse fazer para mudá-lo.  Isto o angustia profundamente, por não encontrar saída que pudesse mudar os fatos em sua volta. Tal pensamento, no entanto, se transformara em um questionamento que Amron não deixaria sem resposta, para uma profunda reflexão mental naquele homem.

 

- Caro Amrel, devemos procurar entender que as leis naturais do universo jamais determinaram um destino imutável, um determinismo absoluto para os seres que o compõem. Assim, em princípio, a convergência, a divergência e a intensidade das forças que agem ou agiram no universo, em todos os instantes, é que determinam o acontecimento presente.

Na verdade, uma observação atenta de todos os fenômenos e acontecimentos anteriores que deram origem àquelas forças, se fosse possível fazê-la, nos levaria a uma clara constatação de que o acontecimento presente, é a resultante de uma multiplicidade de acontecimentos anteriores. Se quisermos, poderemos chamar a isso determinismo ou acaso. Diante disto tudo, no entanto, podemos dizer que o presente de cada indivíduo, não estaria em absoluto ligado ao sentido de destino, que habitualmente damos ao acontecimento, pois aquele só existe, em decorrência dos parâmetros daquelas forças anteriormente mencionadas, que ao interagirem ao longo do tempo, criaram o fato presente.

Questionaríamos então, que para o indivíduo não restaria opção, senão aceitar os acontecimentos que advirão, não restando para o mesmo nenhuma alternativa para mudar aquilo?. Isto na verdade não é um fato, uma vez que parte daquelas forças são decorrentes da própria vontade individual, de determinação clara da sua mente, que assim quis e realizou. A vontade do indivíduo e do meio, irão sempre se juntar para trazer um resultado final, o qual poderá estar mais próximo ou distanciado do querer individual, dependendo da sua força mental, da sua determinação ou do seu querer.

Assim, a cada instante, poderemos mudar a trajetória das nossas vidas e muitas vezes de outras, dependendo do nosso querer individual, uma vez que isto é uma das componentes da resultante final de um acontecimento. Assim, o presente estado das coisas é o resultado das influências das ações ditadas por seres e fatos naturais desde um passado remoto, os quais, associados numa extensa malha de acontecimentos que se sucederam ao longo do tempo, produziram o presente, o agora. Desta forma, também constatamos que o nosso AGORA, é o momento apropriado para mudarmos acontecimentos presentes e futuros.

Um fato presente, por mais singular que possa parecer-nos, é na verdade um acontecimento único no espaço e no tempo em todo o universo e jamais se repetirá com absoluta identidade. Em decorrência disto, nenhum fato acontecido poderá ser apagado por uma correção futura, pois aquele continuará sendo único e uma componente passada que irá interferir e pesar, para acontecimentos presentes e futuros.

 

Após este discurso, Amrel passa a entender que o destino, dentro da conceituação que acabara de aprender, na verdade não existia, mas sim que o seu próprio querer individual, que também  associado ao de outros indivíduos,  poderia gerar efeitos benéficos ou maléficos para todos, dependendo apenas da intenção dos mesmos.

 

Agora, ali sentado ao pé da frondosa árvore, ao lado de Amron, cercado pelos jardins de Grom, podia apreciar à sua frente o correr manso de um pequeno riacho de águas cristalinas, cercado de plantas ciliares que pendiam seus galhos floridos para o seu leito. O homem detivera o seu olhar para observar como a fluidez da água que contornava graciosamente os grandes e pequenos seixos que afloravam no seu caminho, criava múltiplos reflexos com o seu movimento, seguido de um manso ruído produzido pelo seu impacto com aqueles obstáculos. Amrel notara também que, trazidas pela água, surgiam de vez em quando algumas folhas ou fragmentos de pequenos galhos de árvore que suavemente desciam a corrente, e que se desviavam por vezes para as margens, onde ficavam presos por algum tempo às raízes que ali afloravam. Em um certo momento, junto com a folhagem, viera um pequeno besouro de asas escuras e dorso vermelho, que tentava desesperadamente escapar do meio líquido, agitando suas minúsculas patas, num nadar frenético, tentando prender-se a qualquer objeto que lhe tocava em volta. Aquela observação para Amrel era ao mesmo tempo calmante e inquiridora. Calmante, pela paz que aquele micro universo trazia para a sua mente, levando-o ao desligamento desta, dos problemas irreais criados. Inquiridora e inquietante, por razões mais profundas, decorrentes de fatos já vividos ou visualizados naquele agora.

Assim, presenciara ali, uma forma de vida, aparentemente tão simples, como a do besouro, tentando escapar da correnteza para as margens, à procura de um lugar seco, tendo como objetivo único, naquele momento, preservar a sua própria vida.

- Que tanto valor teria a vida para aquela criatura, que naquele esforço se assemelhava a qualquer humano, com o mesmo objetivo? – indaga.

 

O seu guia, em sintonia com  os pensamentos de Amrel, podia entender perfeitamente aquele questionamento, que de certa forma considerava natural. No entanto, uma resposta simples para aquele homem jamais poderia ser dada naquele momento, a fim de que ele pudesse compreender o que era  a vida, em sua essência, e não apenas porque o pequeno besouro lutava para livrar-se da correnteza.

 

Amron, chamaria então a atenção de Amrel  para que observasse naquele momento, não somente o espaço próximo, mas também levantasse a sua vista para a paisagem em volta e, mais distante, até o limite do horizonte.

_ O que tens agora diante dos teus olhos, Amrel ? – Inquire o seu guia.

Amrel, ainda contemplando a belíssima paisagem à sua frente, diz:

– Bem, estou vendo o que certamente também você está vendo; uma terra repleta de árvores, riachos, animais terrestres, montanhas ao fundo e muitos pássaros cruzando um céu profundamente azul, salpicado por algumas nuvens, que lembram flocos de algodão lançados ao ar.  Vejo, na verdade, um número imenso de formas de vida que compõem esta belíssima terra – conclui o homem.

Amron, atento àquela resposta, silencia por algum tempo, como se quisesse organizar o seu pensamento para uma longa e profunda explicação para aquele homem.

 

 - Caro Amrel, para que possas entender  por que o pequeno besouro tanto lutava para deixar a água, como qualquer humano consciente o faria, seria necessário voltarmos a pergunta para uma primeira fase – o que é a vida? Como podes observar e também sentir, todo ser vivo possui um instinto primário de preservação da própria existência; desde o reino vegetal ou animal, como o besouro por exemplo, até as manifestações de vida  mais evoluídas e complexas do universo.

Este instinto primário de preservação e o processo de adaptação e evolução de todas as manifestações de vida no universo é parte da inteligência absoluta da Energia Criadora Universal, ou seja, é parte intrínseca da manifestação do ser.

A Essência da Vida é única, indivisível e absoluta. Não existem vidas separadas, não existe mais de uma vida. O que percebemos é um número infinito de manifestações dela.

Assim, para o caso da manifestação física, devemos entender que dentro do processo de transformação contínua do Universo, o átomo mais simples que hoje pertence a uma célula de um corpo físico, poderá ter sido parte integrante da matéria que compunha uma determinada estrela, planeta ou nebulosa no passado distante, e que este mesmo átomo poderá pertencer à matéria de uma outra galáxia ou ao corpo de uma outra forma de vida no futuro, em qualquer parte do Universo. A sua essência anímica, como todas as outras, no entanto, continuará sendo como sempre foi, parte inseparável da imensurável Força Criadora Universal, que a tudo penetra e que gera todas as transformações.

O Universo é único e infinito, como a força que o mantém e o transforma continuamente. Como tudo pertence à mesma unidade, podemos sentir que esta energia infinita parece confundir-se com a própria substância gerada, abrangendo assim toda a sua gama de manifestações, desde o bruto, palpável, por nós detectado através dos sentidos rudimentares, até às manifestações da sua energia superior, as quais não podem ser percebidas por aqueles sentidos.

Assim todos (os seres) somos unos naquela natureza e assim parte integrante do Todo e daquela energia.

Vendo desta forma, passamos a entender que a história do Universo como um todo, não estaria completa sem a nossa própria história ou a do verme mais insignificante para nós, pois todos são manifestações da única vida que existe. E o grau de importância de todos os seres é absoluto, pois, sem as suas existências e as suas ações como parte do Todo, junto com as existências e as ações de todos os outros componentes do Universo, este não existiria.

Você(como todos) é importante como parte do Todo e inexistente sem isto, assim como o Todo não existiria sem Você. Diante disto, podemos sentir que todas as transformações ou manifestações no Universo operam comandadas pela força resultante e gerada a partir da Energia Universal da qual fazemos parte; e por conseguinte eu e você também participamos do destino do Universo.

 

 

Amrel neste momento, concentra toda a sua atenção nas palavras do seu guia, a fim de não perder o sentido daquelas mensagens. Mas ainda muitas coisas pareciam absurdamente ilógicas para a sua mente. Como poderia supor que um simples verme ou um rato teria a mesma importância que ele, um ser inteligente, questionador, e tão evoluído em relação a estas outras espécies? – assim pensava.

Amron, atento ao seu aluno e às suas indagações, sempre buscava a forma que julgava mais apropriada para uma resposta, a fim de que este pudesse ter uma compreensão maior do aparentemente intrigante fenômeno da vida. Mesmo para um guia iluminado como ele, as respostas e a decorrente compreensão delas não poderiam ser totais.

- Um homem _ diz Amron _ é na verdade o produto da sua origem física(genética), de sua herança mental, do ambiente e cultura em que vive e provavelmente de muitos outros fatores que desconhecemos. Durante uma vida, o ambiente e sua cultura pesam de maneira muito forte na sua formação. Por isso, para o encontro com o verdadeiro conhecimento   que o fará evoluir, este homem terá que romper alguns desses laços,  libertar-se de todo dogmatismo e dos conceitos de fé que lhe induziram.

 Diante disso, Amron dirige o seu olhar  para Amrel, continuando a sua explicação sobre os vários níveis de manifestação e a relação entre eles.

- Meu caro, é importante entender que toda forma de manifestação de vida(ser) possui um centro de controle que, entre outras coisas, gerencia as necessidades básicas de manutenção de sua existência e adaptação física. No entanto, o seu nível de desenvolvimento mental anterior é que ditará, de uma certa forma, a sua capacidade físico-cerebral, onde essa essência anímica irá instalar-se durante o seu tempo de manifestação física. Este desenvolvimento, no entanto, é algo extremamente complexo e difícil, para se fazer dele uma avaliação e defini-lo quantitativamente, como habitualmente gostamos de definir as coisas. Ou seja, do ponto de vista dito científico. Mesmo uma avaliação qualitativa, ainda seria difícil fazê-la, diante da infinidade de enfoques que poderíamos dar para basearmos tal avaliação, mesmo considerando espécies diferentes para compararmos. Um fato, no entanto, podemos avaliar, é que cada manifestação de vida em particular, se encontra em um determinado estágio de desenvolvimento no Universo, não importando em que forma física ela habite no momento  e, a sua visão ou sensação deste Universo definirá, certamente, aquela posição. Assim, podemos dizer que como elemento físico, o homem, o rato, o besouro, ou qualquer outra forma de manifestação, possui o mesmo valor diante das leis naturais; - uma grande pedra que rolar do alto da montanha para o desfiladeiro, em sua trajetória, esmagará o homem ou o rato que ali estiver, mantendo assim o estabelecido por estas leis. No plano do desenvolvimento mental, no entanto, ao homem, como no caso do exemplo acima,  caberá uma responsabilidade infinitamente maior, pelas ações que de modo consciente ele venha tomar perante a Consciência Universal, da qual ele e o rato fazem parte.

Em decorrência disto, Amrel, ao nos encontrarmos diante de qualquer um daqueles seres, na verdade estamos diante de um irmão menor; irmão pela origem comum, pela natureza, que é a mãe de todos os seres. Podemos ainda, em decorrência deste fato, ver nestes  irmãos menores, o nosso estágio anterior de manifestação de vida, o que nos inspirará a termos um grande respeito e profunda compaixão por eles.

Como podes perceber, não precisarás de nenhum dogma ou base de fé em um poder fictício para compreender estas palavras. Pois elas fluem para a sua mente de modo natural, o que de certa forma serão facilmente entendidas.

A partir deste momento o ser se tornará um buscador da verdade, onde neste processo, as constatações substituirão os dogmas e a fé.

Amrel pede então ao seu guia que esclareça melhor o que seria um buscador da verdade.

_ Bem, Amrel, a busca pela verdade é uma ação interminável, empreendida pela alma humana; ela, a verdade, jamais será alcançada em sua plenitude, tendo em vista a sua própria estrutura infinita, onde a mente que a busca, neste processo encontrará mais conhecimento, que por sua vez a aperfeiçoará, tornando-a cada vez mais clara, ou desfazendo a sua visão anterior que dela possuía, o que fará a mente tomar  novas direções. Assim, o aprimoramento do nosso conhecimento, e por conseguinte, da nossa visão interior,  nos levará cada vez mais à frente. Assim, poderemos sentir quão inatingível é a verdade absoluta, pois somente o Absoluto a possui. E assim, quanto mais a buscamos, tão mais a teremos enriquecida, o que para isso teremos a eternidade. Diante disso, qualquer um que venha declarar possuir a verdade total, estará, ipso facto, se aprisionando dentro de um círculo menor, dentro de um micro universo pessoal, que o levará à cegueira real, por falta de visão das coisas que estariam além deste círculo, longe do conhecimento externo e dos seus semelhantes. Por isso, possuir uma mente aberta, seria o primeiro passo para entender aquele processo e enriquecer o seu conhecimento.

- Assim - prossegue Amron – um buscador da verdade passará a descobrir em seu caminho uma realidade mais ampla sobre si mesmo e sobre o seu universo em volta e, por conseguinte, mudará a maneira de valorizar as coisas. Isto, porque passará imediatamente a ter uma real consciência sobre a sua transitoriedade como elemento físico, assim como em todas as outras coisas no universo; desta forma, todos os valores de poder e glória que julgava agregados à sua vida material perdem o brilho, se tornam irrelevantes. A constatação desta realidade no início poderá produzir um enorme impacto em sua mente, pois passara muito tempo acreditando que tais valores eram muito importantes e permanentes. Mas a seguir, o buscador, continuando a sua jornada, descobrirá novos valores, antes escondidos, mas desta vez, não valores pessoais, egoísticos, mas valores reais e permanentes que o mostram como partícula integrante do Todo. E então, naturalmente passará a florescer em sua mente aquele respeito e compaixão por todos os outros seres aos quais me referi anteriormente. Tais sentimentos fluirão naturalmente, não existirá nenhuma obrigatoriedade em nada, nem mesmo um preceito ou um mestre  a ser seguido, pois a mente de um buscador encontrará facilmente o caminho a trilhar.

 

Agora compreendendo as palavras de Amron e, revolvendo em sua mente alguns fatos do passado, passa a sentir-se culpado por erros que cometera e que somente agora os havia reconhecido, diante desta nova visão que estava tendo. Assim, pergunta ao seu guia:

- Diante do que acabei de ouvir, agora sinto-me culpado por  alguns atos e pensamentos errôneos  que cometi no passado. Como eu poderia ser julgado por isso ?.

- Caro Amrel, nada externo poderia julgá-lo, pois julgar verdadeiramente  uma ação qualquer de outro indivíduo, torna-se uma empreitada impossível, mesmo para a mente mais sábia, uma vez que a avaliação de cada fato ou ação cometida pelo outro, implicaria em que esse juiz tivesse a mesma visão do fato em julgamento, de dentro do mesmo universo e condições do autor da ação que pretende julgar. O que implica que somente o próprio indivíduo, comitente da ação, poderá ser o seu juiz.

Assim, nenhuma ação ou pensamento poderá ser qualificado como negativo ou positivo, maléfico ou benéfico do ponto de vista ético ou moral, não importando qual tenha sido ou poderá ser o seu efeito, se a mente que o produziu assim não o considera e, em decorrência disto, não pesar em sua consciência individual.

Desta forma, em todo o Universo, cada mente irá ditar o seu comportamento em pensamento e ação, em função do seu nível de evolução, o que, em muitos casos, estará em dissonância com o pensamento ético e moral coletivo.

Desta forma, em decorrência da visão particular de cada um, o peso de um acontecimento, por mais impacto que possua, pesará de forma diferente para cada indivíduo do grupo envolvido no dito acontecimento.

 

 

 

CAPÍTULO VI 

 

 

A Energia

 

 

 Agora, para Amrel, um mundo diferente estaria despontando para a sua mente; em um universo sem a existência de um deus todo poderoso para guardá-lo ou protegê-lo, ou vingativo, para puni-lo por suas falhas; mas também, sem um demônio igualmente poderoso para tentá-lo ou atormentá-lo. Sem um céu de recompensa só para humanos após o desenlace físico, mas também  sem a imagem macabra de algumas crenças humanas com o terror de um purgatório ou de um inferno calcinante e eterno para as almas que não seguiram o estabelecido pelos dogmas, durante o seu tempo de vida material. Vivendo em um universo onde não existirão milagres, mas tão somente acontecimentos regidos pelas leis naturais, muitas delas ainda desconhecidas, mas que serão comprovadas mais cedo ou mais tarde pela ciência humana quando ela tornar-se holística em sua essência; e assim, tal crença em milagres só poderá ser creditada à total ignorância daquelas leis que promoveram tais acontecimentos.  Mas também, existindo em um universo onde o seu sofrimento ou o seu júbilo, a sua glória ou o seu poder se mostraria  efêmero. Passa assim a ter uma consciência de que estava existindo em um lugar onde o seu valor diante das leis da natureza como elemento físico, seria o mesmo de um rato ou de um inseto, não importando o que ele próprio represente para os seus semelhantes; mas por outro lado, como mente inteligente neste nível de evolução, sentia que lhe cabia uma grande responsabilidade pelos pensamentos e ações conscientemente praticados perante este mesmo universo. Sentia-se agora em um universo real, regido por leis imparciais e absolutas, provenientes de uma natureza ainda incompreensível em certos aspectos; num universo aparentemente caótico mas, na verdade, absolutamente organizado, se observado com inteligência e imparcialidade, ou seja, com uma mente  livre de dogmas pré-estabelecidos. Sentira também que, sendo uma manifestação de vida inteligente e sequiosa de saber, através do seu querer individual poderia traçar o seu próprio caminho durante esta maravilhosa experiência de manifestação de vida e transformar a sua brevidade em quase eternidade. Assim, o seu comportamento devia ser  regido mais por sua intuição  do que por uma lógica padronizada, onde a sua transparência em pensamento e ação, na sua relação com os seus semelhantes, poderia ser uma constante, e não uma eventualidade, procurando a cada dia ser cada vez melhor.

 

Agora, diante desta nova visão de si mesmo e do universo, Amrel argumenta sobre o que poderia ser todo aquele poder criador e sua energia infinita e qual o seu propósito.

Amron, atento a estas questões, continua  a guiá-lo em seu caminho, e assim  tenta respondê-lo.

- Caro Amrel, a Energia Criadora Universal é a única força criadora do Universo e a sua liberação é que origina as transformações de qualquer espécie. Ela é a energia-inteligência, absoluta  e, assim, todo acontecimento é possível, dependendo apenas do nível de energia liberado. Desta forma, tudo que existe, detectado ou não pelos nossos sentidos, é parte da infinita gama de vibrações desta energia inteligente em ação.

Vendo de uma forma global, percebemos que jamais poderíamos qualificar de boa ou má a Energia Criadora Universal, visto que é a única coisa realmente absoluta que existe, e para tal, adjetivos se tornariam impróprios.

Por ser absoluta, não poderíamos imaginar forças antagônicas e de igual poder, como o Bem e o Mal, ou Deus e o Diabo, coexistindo no Universo. Tais qualificações, no entanto, possuem valores relativos e são criadas por nossas mentes individuais, por conveniência e para satisfação de nossas necessidades ou interesses pessoais. O Bem e o Mal, no entanto, existirão sempre na avaliação mental dentro do micro universo humano(universo relativo), enquanto o individualismo exacerbado existir.

Quanto à avaliação da sua grandiosidade ou poder, torna-se uma impossibilidade evidente, pois como já foi dito, não podemos lidar com o Absoluto ou com o Infinito. Nenhuma mente de qualquer nível de manifestação no universo, por mais evoluída que seja, poderá fazer qualquer avaliação. Mesmo porque surgiria uma outra impossibilidade: - se somos (como manifestação de vida) partícula de um universo infinito e de sua energia infinita, como poderíamos estar fora dele para apreciá-lo e avaliá-lo? O Infinito conterá sempre todos os espaços e dimensões os quais transcendem à nossa imaginação e, tentar concebê-lo seria pura divagação.

Quanto ao propósito de tudo isto,  a resposta nos levará à mesma impossibilidade, pois teríamos que lidar com o Infinito e Absoluto.

Como estás vendo, meu caro Amrel,   para muitas questões jamais teremos a resposta. Tentar dar qualquer outra explicação, nos levará a uma divagação filosófica inconsistente, ou seja, ao dogmatismo da maioria das crenças humanas atuais, as quais só atrasam o desenvolvimento mental. Mas, para chegarmos a todas essas conclusões, necessitamos cada vez mais expandirmos a nossa mente com o conhecimento advindo da observação continuada do fenômeno da vida e através de uma meditação  profunda sobre tal fato. Por isso, o mais importante no momento, neste estágio de manifestação de vida, é termos em mente que o mais importante  é procurarmos compreender aqueles fatos e aproveitarmos cada AGORA, pois este é um instante único em nossas vidas, para realizarmos o melhor que possamos. Buscando através do nosso lado subjetivo o verdadeiro conhecimento e deixando de lado  a permanente preocupação de que se iremos manter ou não esta individualidade(que também evolui) após a cessação desta manifestação atual. Isto porque, como fazemos parte de um  número infinito de manifestações da única vida que existe, e por conseqüência eterna, não faria nenhum sentido tal preocupação.

Amrel, ao ouvir e meditar sobre todos aqueles ensinamentos do seu guia, passa então a entender muitos fatos que lhe pareciam inexplicáveis no passado.

 

Dali, sentado em seu tapete natural junto ao tronco da frondosa árvore, apreciando a bela paisagem do jardins de Grom, sentia-se, agora, não mais como um indivíduo isolado dos outros seres em volta, mas como parte integrante de um Todo, de uma natureza viva.

 

De repente, uma leve chuva começa a cair, trazendo aos seus ouvidos o som dos pingos da água chocando-se contra a folhagem acima. Amrel, neste momento, percebe então que a aura azul do seu guia, ali ao seu lado, aos poucos aproxima-se mais dele, envolvendo-lhe o corpo como se parte deste fizesse, o que lhe transmite uma sensação de leveza e paz como jamais sentira em toda a sua vida.

Agora, com os pingos da chuva mais fortes caindo em seu rosto, Amrel por fim desperta, voltando para a sua dimensão anterior, no local em que se encontrava quando adormecera, sentado junto ao tronco da velha mangueira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Texto e Gravuras:

Pedro de Souza Silva

 

 

Cópia Legal depositada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

 

 

Exibições: 30

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Co-criando A NOVA TERRA

«Que os Santos Seres, cujos discípulos aspiramos ser, nos mostrem a luz que
buscamos e nos dêem a poderosa ajuda
de sua Compaixão e Sabedoria. Existe
um AMOR que transcende a toda compreensão e que mora nos corações
daqueles que vivem no Eterno. Há um
Poder que remove todas as coisas. É Ele que vive e se move em quem o Eu é Uno.
Que esse AMOR esteja conosco e que esse
PODER nos eleve até chegar onde o
Iniciador Único é invocado, até ver o Fulgor de Sua Estrela.
Que o AMOR e a bênção dos Santos Seres
se difunda nos mundos.
PAZ e AMOR a todos os Seres»

A lente que olha para um mundo material vê uma realidade, enquanto a lente que olha através do coração vê uma cena totalmente diferente, ainda que elas estejam olhando para o mesmo mundo. A lente que vocês escolherem determinará como experienciarão a sua realidade.

Oração ao Criador

“Amado Criador, eu invoco a sua sagrada e divina luz para fluir em meu ser e através de todo o meu ser agora. Permita-me aceitar uma vibração mais elevada de sua energia, do que eu experienciei anteriormente; envolva-me com as suas verdadeiras qualidades do amor incondicional, da aceitação e do equilíbrio. Permita-me amar a minha alma e a mim mesmo incondicionalmente, aceitando a verdade que existe em meu interior e ao meu redor. Auxilie-me a alcançar a minha iluminação espiritual a partir de um espaço de paz e de equilíbrio, em todos os momentos, promovendo a clareza em meu coração, mente e realidade.
Encoraje-me através da minha conexão profunda e segura e da energia de fluxo eterno do amor incondicional, do equilíbrio e da aceitação, a amar, aceitar e valorizar  todos os aspectos do Criador a minha volta, enquanto aceito a minha verdadeira jornada e missão na Terra.
Eu peço com intenções puras e verdadeiras que o amor incondicional, a aceitação e o equilíbrio do Criador, vibrem com poder na vibração da energia e na freqüência da Terra, de modo que estas qualidades sagradas possam se tornar as realidades de todos.
Eu peço que todas as energias e hábitos desnecessários, e falsas crenças em meu interior e ao meu redor, assim como na Terra e ao redor dela e de toda a humanidade, sejam agora permitidos a se dissolverem, guiados pela vontade do Criador. Permita que um amor que seja um poderoso curador e conforto para todos, penetre na Terra, na civilização e em meu ser agora. Grato e que assim seja.”

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